Manifesto pela realidade do sexo

                                                                                                                         Jonas Lewis

    Há tempos atrás algum pedaço de perna era motivo de gozo. Catálogos rebuscados das antigas lojas de lingeries eram a diversão de adolescentes punheteiros. Hoje um rabanete no cu é a normalidade. As esporradas e a penetração de inimagináveis objetos são corriqueiros pelos vídeos que circulam na internet e nas lojas de filmes pornográficos. A mulher toma uma posição absolutamente escrava e o homem faz o que bem entende no momento mágico do ato sexual. A pornografia deturpa a realidade cruel e precisa do sexo comum. E por mais selvagem que se possa praticá-lo, ainda assim os filmes estão longe de se parecerem com a prática do mundo real. Se tentares algo parecido com sua namorada, certamente a relação durará pouco. E calma lá! Não confunda um sexo monótono e sem graça, com um sexo normal, comum, diferente sim daquele sexo circense, quase coreografado dos filmes adultos.

    Assim foi comigo no momento em que descobri o que era o boquete. Anteriormente passava-me pela cabeça que soavam trombetas e que não haviam as raspadas dentárias, tampouco aquela sensação de monotonia quando a mulher também se cansava de chupar-me como tarefa. Nos filmes era tudo tão espetacular! As mulheres deliravam com aquele momento, os homens bufavam como bois, parecendo visitar estrelas ao receberem aquelas chupadas monumentais, molhadas e lubrificadas. Tudo efeito especial! E as gozadas, então? No rosto! Ou dentro da boca, à pedidos da moça, que sedenta implorava pelo líquido prestes a ser engolido por inteiro. Balela! Bem vindos ao mundo real! Esporre na droga da camisinha, quiçá na bunda, nos peitos, mas cuidado com os cabelos da menina! Na boca nem pensar! Se contar as que deixaram, não somam um par durante toda a vida. Ingratas exceções comparadas à rotina delirante do cinema pornô.

    O cu, famoso cu! Esse sim mais apreciado por algumas mulheres, é a única salvação! O mais próximo que chegamos da cena. Tentemos então chegar aos cus! E deixo um apelo para o bem dos futuros homens. Não deixem seus filhos assistirem filmes pornográficos! Não por uma questão moral ou religiosa, mas pelo simples fato de que eles serão enganados por completo. Suas vidas sexuais serão arruinadas para sempre, e nenhuma terapia terá sucesso nessa batalha sem volta. Recortem os anúncios das Lojas Marisa, guardem os folhetos da coleção primavera verão da Renner e deixem em seus banheiros. Não à internet, não aos filmes pornográficos! Seus filhos merecem aproveitar o sexo! Seus filhos merecem conhecer o verdadeiro boquete!

Eu sangro poesias baratas

 

Giovanni Andersen Garcia

Perder-se é o ato mais “natural” de nós humanos. Conter seu fluxo é nosso maior erro. Sei que meu corpo é fluido e que escorro pela vida, ocupando frestas, erosando a terra. As dúvidas são como jarras que aprisionam nosso fluir, alteram nossas margens. São barragens no nosso destino de homem. Quero não resistir a você. Meu peito está aberto. Vem ocupar-me com tua vida! Abandono os remos e deixo que o fluxo me conduza na tormenta do amor, cambiando dia e lua, noite e sol,  namorando a chuva e desenhando em minha memória seu rosto. Fecho os olhos e você está aqui. Quando olho para o sol que surge por trás das tímidas nuvens revelo-te meu sorriso no arco-íris que coroa o encontro de dois – sol e chuva juntos a fazer vida. Que venha mais… vida que me atravessa o corpo e rasga minha alma. Eu sangro poesias baratas.

Pergunte à Cinderela

Juliana Schneider Guterres

Já dizia o poeta “é impossível ser feliz sozinho” – ao que eu sempre concordei sorrindo. Pelo menos, até agora. Quando o meu não-sozinho era passar um par de horas com o namorado do momento e voltar para o meu ambiente protegido (leia-se: a casa de mamãe. Contas pagas, roupas lavadas e guardadas no armário, geladeira cheia, banheiro limpo. A materialidade da vida cotidiana se materializava sozinha, sem que eu precisasse fazer força e, até mesmo, sem que eu me desse conta da sua existência). Sim, é impossível ser feliz sozinho quando se conta com toda a alegria e privilégio de deliberar as tarefas mais nefastas a outrem. Mas, ser feliz juntinho tendo que limpar privada e brigar para decidir quem lava a louça do jantar é uma possibilidade? Existe vida após as tão temíveis obrigações domésticas? Ou ainda, há romantismo que resista ao cotidiano que teima em invadir nossas casas? São essas as perguntas que me faço (e o cagaço que me borra!), na iminência de juntar as escovas de dentes com alguém.

Uma vez ouvi por aí que os clássicos infantis e os felizes para sempre se sustentavam porque a história que nos é contada acaba logo após o beijo. Provavelmente se entrevistássemos a Branca de Neve e a Cinderela alguns anos após o casamento a situação seria diferente. Uma princesa já meio flácida após parir um par de herdeiros com uma narina acostumada às flatulências do príncipe (aliás, aquele senhorzinho gordo e careca sentado no sofá com uma lata de cerveja na mão em nada nos lembra o gentil e amoroso príncipe das páginas anteriores do conto) esbraveja implorando complacência e compreensão do companheiro: “Não joga as tuas roupas no chão, sou eu que vou ter que juntar depois! Dá pra levantar um pouquinho e me ajudar? Olha as crianças enquanto eu esquento o jantar e passo tuas camisas.”

E o que o príncipe nos diria? Talvez que sua esposa viva com dor de cabeça e, ao invés de aconchegar-se no corpo dela, ele procura alívio no banheiro com uma revista de desconhecidas mulheres nas mãos. Que ela olha mais para os filhos do que para ele. Que ela pede ajuda, mas que quando ele a auxilia ela reclama que está tudo errado e diz que sozinha faria melhor. Que o churrasquinho em família dos domingos vira o encontro semanal das mulheres queixosas – cunhadas, primas, sogras e sobrinhas desfiam o rosário de reclamações dos seus tão inúteis maridos. É, elas insistem em apontar suas falhas, mas esquecem-se de elogiar suas qualidades.

Ando pensando que o verdadeiro conto de fadas se faz entre nós, reles mortais. Naquele dia em que ele, sabendo que ela chega do trabalho cansada, se adianta ao preparar o jantar e espera ela na porta sorrindo com uma música suave tocando ao fundo. Ou quando ela, sabendo que é dia de jogo do time dele, resolve não incomodar-se em não ver a novela. Também quando os dois se beijam felizes pela manhã – esquecendo-se de que ela passou a noite puxando as cobertas para cima de si enquanto ele orquestrava uma sinfonia de roncos do seu lado. Ou ainda quando os dois decidem tirar um final de semana a dois e negociam o pouso das crianças nos lares alheios.

Os príncipes e princesas funcionam muito bem para, na infância, nos introduzir no tão necessário mundo do romance, mas aposto que eles não saberiam lidar com o caos pragmático do cotidiano. É preciso ser muito humano para escrever sua própria fábula de felizes para sempre.

O filósofo é um tampinha

Jonas Lewis

 O que é nobre de ser questionado tem sido motivo recorrente nas academias de filosofia. Séculos de existência e o estudo do conhecimento evolui como o homem. Visto que dele provém, não me espanta que sua linha evolutiva não ultrapasse os limites humanos e nada se diferencie de nossa capacidade. Porém tratando-a de maneira justa, como sim deveria ser tratada a verdadeira filosofia, posso ao menos presumir que ela, estende-se ao horizonte, flexiona-se junto aos verbos e marcha em consonância às rodas automotivas. Aonde quero chegar é na triste posição dos filósofos. Habitantes monótonos do cárcere intelectual, perseguidores cruéis de uma forma desconhecida de pensar o que se deve pensar, por existir, instantâneo, como lógica e charada. Não têm buscado os homens da Filosofia, o descortinar vibratório do universo, o desvendar ingênuo do habitar poético. Pois quero ainda chegar ao ponto mais específico: a linguagem.

Habitamos a linguagem, somos linguagem a cada agitar dos olhos. Antes disso, somos linguagem a cada tentativa de tentar. Essa prisão a que somos acometidos, faz-nos seres. E somos seres porque habitamos a linguagem. Existimos na e para a linguagem, e não o inverso como ferramenta. Ela não nos fornece, não nos ajuda. Disse Heidegger, em um de seus ensaios no A Caminho da Linguagem: “Não é necessário um caminho para a linguagem, e isso seria até impossível, uma vez que já estamos no lugar para o qual o caminho deveria nos conduzir.” Simplesmente não podemos ser se ela não é. No entanto, a fenomenologia do corpo tenta empurrar-nos algo a que os filósofos se dedicaram por todos esses séculos. A definição do que pode comunicar-se e do que é deficiente em comunicar-se. Aí entra a injustiça com a Filosofia, cometida por eles mesmos, os filósofos. Esses homens insossos, inexistentes, por tantas vezes assexuados, que negam o instinto como instinto, que desdenham do sexo em seus sérios tratados, que não aceitam nada afora o palavreado pomposo ou o estudo analítico em suas pífias academias.

Puseram-me à frente, dentre tantas outras insanidades, o senso-comum exacerbado de que podiam sim as mãos comunicarem-se. Que os dedos diziam muito e que os olhos também eram excelentes instrumentos de linguagem. Instrumentos de Linguagem? Logo depois, o pior. Que as nádegas de uma mulher desnuda, preste atenção, as nádegas de uma sem as vestes nada tinham a dizer, teorizavam os pensadores. Assim não entendiam como aquilo causava reações ao homem que as fitava. Não entendiam? Pois eu entendia! Porque aquelas nádegas esbanjavam linguagem! Aquela linguagem esbanjava-se abaixo das costas e as coxas suportavam comunicações exacerbadas. Era uma linguagem que, por vezes, atingia o homem como espada, atravessando-o pelos pulmões. Mãos? Que tipo de idiota contestaria que as mãos se comunicam? É claro! Os dedos também, que o digam os surdos! Mas é típico dos filósofos fazer pouco caso das bundas, não falar dos seios e ignorar bocetas! Por isso a Filosofia anda desgastada, enfadonha, travada em séculos de releituras e carente de devaneios, mendigando coragem e desafio. Culpa de homens e mulheres vazios de criação, cientistas, estrábicos leitores que ocupam-se com os mitos gregos, discussões solenes, teorias com faustosas intenções, lotadas de demonstrações de cultura e estudo profundo de uma disciplina inexistente chamada pensamento.

Metade

 

Jonas Lewis

 

Tinha sono e não pude dormir.
A luta imensa de fechar os olhos e saber-me só.
Faltava a fatia da cama… um naco da vida.
Sobrava o sono restante… em migalhas.
Desequilibrado, faltando o vai e vem do teu peito a respirar,
E o sopro silencioso de nossos ventos fazendo a cantiga do sono.

Não pude dormir.
Faltava-me o deitar dos teus braços, a confusão macia dos teus cabelos.
Tinha sono e não pude dormir.
Lutei com metade de mim, metade da cama, metade da alma.
Não se dorme bem só com a metade.

No buraco da fechadura (pra Juliana)

Jonas Lewis

E quando somente são as buzinas? Quando são árduos os dias e as noites nem tem colorido? Deixa na alma o mundo uma espécie de sonho impensado, que ao berro do primeiro berro não almejamos conhecer. Somos cobertores quentes desabrochando devagar à imensidão iluminada, carentes e incapacitados de conhecimento. Podemos inundar a alma num choro instintivo, transbordando em verdade ilógica, pedindo o seio. E é o que resta. É o que vale. Não cabe-nos julgar o que virá o que deveras merecíamos.

Mas o dia apresenta-nos arpões, farpas hipócritas chamadas automóveis. A noite escorre suores indecentes por nossas coxas insaciáveis e somos pássaros de espécie desconhecida, caramujos com insônia que vagam pelas capitais e trabalham no campo. Desconhecemos gente, conhecemos chaves, fechaduras e senhas. Abrimos o peito aos cremes doloridos da saudade e mesmo assim não buscamos curá-la, feri-la com nossas unhas insossas de leão sem raça.

Alguém um dia bate em nossa janela, silencia as buzinas que atordoam o sono. Com algum pincel que traz escondido, esbarra cores aleatórias em nossas noites escuras. Berra conosco num falsete tão belo que faz acorde, e fechamos os olhos num beijo que desabrocha devagar. Inundamos a boca, e os lábios, aí sim, dessa vez fogem à lógica, numa infinitude longínqua chamada dança. São passos que descontrolam o tempo e é o que resta. É tudo que vale, outra vez, como crianças.

De novo a noite, mas o suor agora é suco de nossa alma. Reconhecemos a espécie e vagamos querendo ciência, reconhecendo gente, escancarando o peito e matando a saudade um do outro. Cravamos as unhas e entregamos nossas chaves, perdemos nossos bens e mostramos o mau que ainda nos resta. As cores aleatórias do quadro da noite tomam rosto de pintura. Arte ou não, exposta ou não, é nossa casinha com nossa árvore e nossa nuvem de algodão.

Lá fora ficam os carros, as casas frias de cimento e vigas, as nuvens de verdade, os caramujos, as coxas e as noites sem quadro, inóspitas suando frio. No buraco da fechadura, sobra o que deveria ter sobrado sempre: o amor.

Letra e corpo

Juliana Schneider Guterres

“Um boneco!” – grita ele enquanto eu, pacientemente, escolhia uma cor de folha para desenhar também. Olho para ele, ele me olha sorrindo, mostrando-me com os olhos o desenho que acabara de fazer. Sim, um boneco – que sorri simpático e solitário no fundo verde do papel.

Desisto do meu desenho. Preciso de letra. Escrever diminui a angústia da não palavra. O não dito que se faz presença quase palpável.  Sorvo do verbo solto à procura de um sujeito.

Deixo passar. Passo a deixar. Me deixo. Passada. Passagem.

Faço-me letra enquanto ele está puro corpo.

*Escrito minutos atrás durante um atendimento. Parceria terapeuta-paciente. Angústia-passagem.

Entradas Mais Antigas Anteriores