O que será da Rua de Mão Única?

Está na natureza
Será, que será?
O que não tem certeza nem nunca terá
O que não tem conserto nem nunca terá
O que não tem tamanho…

O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo…

Sentou-se na cama com o corpo ainda dolorido e olhou a janela. Borboleta pousada no parapeito aguardava a abertura dela para olhar. Lá dentro alegria era pluma pairada sobre o ombro dele. O salto, o sapato, uma noite. Bebida. Encontro. Tudo ressoava na tontura do corpo. Alegria era o vento que levantara a blusa dela ao dançar.

Acordaram acompanhados um do outro na sala que não era deles. Cada um seu corpo, cada corpo seu lado. “Quem diria…” pensaram. Mas alegria era o sorriso de pluma no canto do lábio e letra da música dita ao pé do ouvido.

O abraço calava as palavras da manhã fria e atenuava a estranheza de tão boa sensação: estar junto. Alegrias eram plumas colhidas no instante. Beijo ainda era doce de manhã.

A rua era de mão única, mas, tudo bem, naquela manhã queriam ir para o mesmo lado.

*Texto baseado em fragmentos do livro: Rua de Mão Única de Walter Benjamin.

**Originalmente publicado aqui: http://mariliasilveira.blogspot.com/

Anúncios

Tempo de Muda


Ignoro o que já foi escrito sob este título. Ignoro se as ideias mesclar-se-ão com as minhas. Não importa.

É tempo de muda.

É tempo de crescer. Não saber. Esperar. Não saber esperar. Duvidar.

“Então estás me dizendo que tu não sabes” – aponta a terapeuta diante da conflitiva em que uma se encontra. É tempo de incertezas. E sempre será. É tempo de pensar. E deixar-se não pensar. De sair. Arriscar. Entregar-se aos mares da leitura e depois escrever. Poupar-se do mar de leituras para poder escrever. Arriscar tecer ideias antes de ler qualquer coisa. É tempo de deparar-se com o vazio. Buraco Negro. Ausência de sentido prévio. Incompletude. Desterritorialização?

É tempo de despojar-se. Aceitar a presença do outro. Tolerar a alteridade. É tempo de questionar-se. Sair de si, chorar.

É tempo de tomar um bom vinho, esquecer-se das fronteiras e tornar-se amigo. Por um só instante. Rir. Acordar embriagado do próprio texto que escreveu. Daquele autor que leu. Estudar embriaga e faz nós na garganta. Estudar dá náuseas. Descobrir que não é neutro o conhecer. Tempo de meta-morfoses. E meta-estabilidades.

É tempo de devir-gente, devir-grande, devir-bicho. É tempo de platôs meta-estáveis. E devires, e dobras e fluxos.

E isso dói. De uma dor que não tem nome. “E saem faíscas e lascas como aços espelhados”. Nos cacos de espelho de Lispector vejo o que sou e fui, o que serei logo depois. O que era quando entrei. E depois o que saí. E não me encontro inteira. Não encontro ordem. A palavra cortada pelo meio. O sentido perdido. A realidade outra.

Dor de atravessar um tempo de sentir. Deixar-se afetar pelas esquisitices desse mundo novo. E do velho que atravessa.

Medo. Medo do medo que dá. Força que me impede andar. Tempo de muda onde até o tempo é instável. Tempo de ceder. Tolerar. Angustiar-se. Ser tomado por terrores indizíveis. Encontrar-se onde jamais pensara estar. Deixar-se estar onde jamais ousaria dizer.

Não ousar nada. Proteger-se. Silenciar. Dormir.

Seria, por fim, tudo isso, Cuidar de Si?