Ah, estatísticas…

Recebemos o resumo do blog por email (apesar de nem saber que isso ocorria!!!) e resolvemos dividir com todo mundo que passou por aqui no ano passado. Alguns seguem, outros são leitores ocasionais.. Nós seguimos, às vezes mais rápidos, em outras trancando as pernas, mas sempre dispostos a dividir o que acharmos de interessante por aí com quem passar por aqui.

 

Um beijo do Bloco

Aqui está um resumo:

The concert hall at the Sydney Opera House holds 2,700 people. This blog was viewed about 9.600 times in 2011. If it were a concert at Sydney Opera House, it would take about 4 sold-out performances for that many people to see it.

Clique aqui para ver o relatório completo

Anúncios

Fernanda Honorato – primeira repórter com Síndrome de Down

Semana Nacional da Pessoa com Deficiência

 

Accademia della Follia em Porto Alegre

Pensei na Reforma Psiquiátrica, no estar com o grupo de teatro de Trieste: Accademia della Follia. Filhos da Lei 180 na Itália.

"Nós não fazemos teatroterapia, nós fazemos teatro", "Eu sou louco, não doente" dizia o diretor Claudio Misculin, ali não era um debate sobre Reforma era um efeito de Reforma em ato, era um efeito de vida da Reforma. Encontrei-me com aquelas pessoas na universidade, no dia seguinte dentro do manicômio (Hospital Psiquiátrico São Pedro) e no seguinte ainda, no teatro. 

As capturas dos discursos foram completamente diferentes em cada um dos ambientes, claro! Na universidade Claudio nos falou sobre seu método de fazer teatro, da memória que fica no corpo e por isso fazem os exercício de cena correndo, fazendo flexões...falou nos três pontos de onde saem a voz no corpo (peito, garganta e testa). Deitou-se no chão, fez flexões engolindo ar, e na sequência levantou-se sendo Creonte tirando a fala de uma voz gutural até um falsete, na mesma cena. Falou com uma sensibilidade indescritível de cada um dos atores, do que cada um tinha de potência e de como ele precisava trabalhar cada elemento com cada um. Seu teatro, ele disse ainda, é feito de RISCO e de EXCESSO. 

No manicômio fomos capturados pelos instituídos, falaram de seus diagnósticos (ainda que afirmassem que não estaríamos, de fato, interessados nisso), dos remédios que tomam... ali o contraste entre os atores e os usuários dos residenciais terapêuticos era triste. E ainda se viam pessoas de jaleco branco circulando e um funcionário arrastando um usuário à força para... não sabemos onde.... Camisa de força humana, prisão. É possível desinstitucionalizar um manicômio? A vida pode morar no manicômio? Num banheiro cujas portas não fecham, não tem papel e as privadas não tem tampas, onde não tem água, é possível? Entre janelas de vidros quebrados, frio, chuva e gente com fome o que é possível? 

Os atores então decidem nos mostrar algumas cenas, especialmente uma que causa grande espanto. Um ator grande e com voz grave saiu do hospício e voltou para casa, sua mulher, Marina, faz a comida. Ele arregala os olhos e chega por traz dela, agarrando seus seios, a mulher paraliza mostrando o incômodo de estar com seu louco de volta em casa. A platéia paraliza, um suspiro! Risos incontidos. 

Vale ressaltar que a moça em cena é a única "normalóide" (como a nomeia o diretor) do grupo.

Na sequência vamos ao teatro e a cena que nos faz perder o fôlego é a de Claudio costurando (de verdade!) sua barriga. 

Loucura? 

Corpo sem órgãos? 

Teatro! 

Risco e excesso, Extravagância – o nome da peça!

Vida! - Eu diria.

Deixo-os então com os próprios atores, em cena! E se tiverem a oportunidade de assistir, não percam! Eles estão em turnê por várias capitais do Brasil, ainda que a mídia não divulgue...

Os que morrem, os que vivem. Luiz Henrique Ligabue.

Fica o link e a dica de leitura para um texto de Luiz Henrique Ligabue publicado na última edição da Revista Piauí (56, de maio de 2011).  O texto relembra os assassinatos de Liana Friedenbach e Felipe Silva Caffé e aponta para a discussão sobre a punição de menores infratores a psiquiatria como fator punitivo- sem falsos moralismos, abrindo diferentes perspectivas sobre a mesma história.

http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-56/questoes-juridico-psiquiatricas/os-que-morrem-os-que-vivem

América?

Por el camino hasta perdimos el derecho de llamarmos americanos […]. Ahora América es, para el mundo, nada más que los Estados Unidos: nosotros habitamos, a lo sumo, una sub América, una América de segunda clase, de nebulosa identificación.

Eduardo Galeano – La venas abiertas de América Latina


Diferença marginal

Texto e foto de Juliana Schneider Guterres

Última aula. Melancolia de fim de semestre. Depois que todos se vão, converso com meu idoso professor na sala vazia. Ele quer saber o que farei na volta ao Brasil. Lhe digo que volto cheia de planos, mas sem grandes pretensões para a recém chegada – clamando e gramando por um lugar ao sol vou. Me sobram expectativas, mas me falta experiência. Lhe desejo um bom ano. Ele me diz que acredita que não vai voltar para o próximo semestre letivo – a universidade está substituindo velhos professores por outros mais novos. Apertamos as mãos sofregamente, talvez na esperança de, por osmose, fornecer àquele que segura a mão o que se tem de sobra e ao outro falta: sua experiência e meus vinte e cinco anos.

Volto para casa chorando em silêncio. Sofro por um mundo que desperdiça suas periferias. Os velhos, os jovens, os negros, os pobres, as mulheres, os escravizados, os loucos, os famélicos, os doentes, os obesos. Sofro por um mundo que finge não ver suas margens, ao mesmo tempo em que se torna mais marginal. As minorias são maiores que uma suposta classe dominante – branca, masculina e educada –, mas ainda não tem voz suficiente para se tornarem perceptíveis. Quando o são, é ainda como minoria.

Quando chegará a hora de fazermos valer nossa cidadania e exigir justiça não só como um artigo que a constituição nos assegura, mas como realidade na vida cotidiana? É chegada a hora de virar esse jogo e não chorarmos mais pelas nossas feridas e corações partidos, mas darmos as mãos e começarmos a marcha. Pelo que? – dirão, somos todos diferentes, não temos causa única. Lutemos então pelo direito de sermos reconhecidos na nossa diversidade e não para que passemos uma vida inteira tentando nos encaixar nos modelos vigentes. Não queremos causa única, queremos causas múltiplas, novos pontos de vista, diferentes discursos que não nos definam como pobres minorias, mas como cidadãos capazes que somos.

Quero um mundo todo-ouvidos que fuja do just one way e se abra a todas as formas de ser. Um mundo que que me perceba em toda a minha não-maioria, para que eu não volte mais uma noite chorando para casa pelo meu idoso professor e sua inexperiente aluna. 


Entradas Mais Antigas Anteriores