Eu sangro poesias baratas

 

Giovanni Andersen Garcia

Perder-se é o ato mais “natural” de nós humanos. Conter seu fluxo é nosso maior erro. Sei que meu corpo é fluido e que escorro pela vida, ocupando frestas, erosando a terra. As dúvidas são como jarras que aprisionam nosso fluir, alteram nossas margens. São barragens no nosso destino de homem. Quero não resistir a você. Meu peito está aberto. Vem ocupar-me com tua vida! Abandono os remos e deixo que o fluxo me conduza na tormenta do amor, cambiando dia e lua, noite e sol,  namorando a chuva e desenhando em minha memória seu rosto. Fecho os olhos e você está aqui. Quando olho para o sol que surge por trás das tímidas nuvens revelo-te meu sorriso no arco-íris que coroa o encontro de dois – sol e chuva juntos a fazer vida. Que venha mais… vida que me atravessa o corpo e rasga minha alma. Eu sangro poesias baratas.

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Não existe amor em SP (?)

Criolo – voz
Daniel Ganjaman – arranjo de cordas, teclados e guitarra
Marcelo Cabral — arranjo de cordas, baixo e guitarra
Samuel Fraga – bateria
Renato Rossi- viola
Luiz Gustavo Nascimento – violino

Produzido por Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral.

Gravado e Mixado por Daniel Ganjaman no estúdio El Rocha.

Masterizado no estúdio El Rocha por Fernando Sanches

Pergunte à Cinderela

Juliana Schneider Guterres

Já dizia o poeta “é impossível ser feliz sozinho” – ao que eu sempre concordei sorrindo. Pelo menos, até agora. Quando o meu não-sozinho era passar um par de horas com o namorado do momento e voltar para o meu ambiente protegido (leia-se: a casa de mamãe. Contas pagas, roupas lavadas e guardadas no armário, geladeira cheia, banheiro limpo. A materialidade da vida cotidiana se materializava sozinha, sem que eu precisasse fazer força e, até mesmo, sem que eu me desse conta da sua existência). Sim, é impossível ser feliz sozinho quando se conta com toda a alegria e privilégio de deliberar as tarefas mais nefastas a outrem. Mas, ser feliz juntinho tendo que limpar privada e brigar para decidir quem lava a louça do jantar é uma possibilidade? Existe vida após as tão temíveis obrigações domésticas? Ou ainda, há romantismo que resista ao cotidiano que teima em invadir nossas casas? São essas as perguntas que me faço (e o cagaço que me borra!), na iminência de juntar as escovas de dentes com alguém.

Uma vez ouvi por aí que os clássicos infantis e os felizes para sempre se sustentavam porque a história que nos é contada acaba logo após o beijo. Provavelmente se entrevistássemos a Branca de Neve e a Cinderela alguns anos após o casamento a situação seria diferente. Uma princesa já meio flácida após parir um par de herdeiros com uma narina acostumada às flatulências do príncipe (aliás, aquele senhorzinho gordo e careca sentado no sofá com uma lata de cerveja na mão em nada nos lembra o gentil e amoroso príncipe das páginas anteriores do conto) esbraveja implorando complacência e compreensão do companheiro: “Não joga as tuas roupas no chão, sou eu que vou ter que juntar depois! Dá pra levantar um pouquinho e me ajudar? Olha as crianças enquanto eu esquento o jantar e passo tuas camisas.”

E o que o príncipe nos diria? Talvez que sua esposa viva com dor de cabeça e, ao invés de aconchegar-se no corpo dela, ele procura alívio no banheiro com uma revista de desconhecidas mulheres nas mãos. Que ela olha mais para os filhos do que para ele. Que ela pede ajuda, mas que quando ele a auxilia ela reclama que está tudo errado e diz que sozinha faria melhor. Que o churrasquinho em família dos domingos vira o encontro semanal das mulheres queixosas – cunhadas, primas, sogras e sobrinhas desfiam o rosário de reclamações dos seus tão inúteis maridos. É, elas insistem em apontar suas falhas, mas esquecem-se de elogiar suas qualidades.

Ando pensando que o verdadeiro conto de fadas se faz entre nós, reles mortais. Naquele dia em que ele, sabendo que ela chega do trabalho cansada, se adianta ao preparar o jantar e espera ela na porta sorrindo com uma música suave tocando ao fundo. Ou quando ela, sabendo que é dia de jogo do time dele, resolve não incomodar-se em não ver a novela. Também quando os dois se beijam felizes pela manhã – esquecendo-se de que ela passou a noite puxando as cobertas para cima de si enquanto ele orquestrava uma sinfonia de roncos do seu lado. Ou ainda quando os dois decidem tirar um final de semana a dois e negociam o pouso das crianças nos lares alheios.

Os príncipes e princesas funcionam muito bem para, na infância, nos introduzir no tão necessário mundo do romance, mas aposto que eles não saberiam lidar com o caos pragmático do cotidiano. É preciso ser muito humano para escrever sua própria fábula de felizes para sempre.

O que será da Rua de Mão Única?

Está na natureza
Será, que será?
O que não tem certeza nem nunca terá
O que não tem conserto nem nunca terá
O que não tem tamanho…

O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo…

Sentou-se na cama com o corpo ainda dolorido e olhou a janela. Borboleta pousada no parapeito aguardava a abertura dela para olhar. Lá dentro alegria era pluma pairada sobre o ombro dele. O salto, o sapato, uma noite. Bebida. Encontro. Tudo ressoava na tontura do corpo. Alegria era o vento que levantara a blusa dela ao dançar.

Acordaram acompanhados um do outro na sala que não era deles. Cada um seu corpo, cada corpo seu lado. “Quem diria…” pensaram. Mas alegria era o sorriso de pluma no canto do lábio e letra da música dita ao pé do ouvido.

O abraço calava as palavras da manhã fria e atenuava a estranheza de tão boa sensação: estar junto. Alegrias eram plumas colhidas no instante. Beijo ainda era doce de manhã.

A rua era de mão única, mas, tudo bem, naquela manhã queriam ir para o mesmo lado.

*Texto baseado em fragmentos do livro: Rua de Mão Única de Walter Benjamin.

**Originalmente publicado aqui: http://mariliasilveira.blogspot.com/

Amo aquilo que

Giovanni Andersen Garcia

Amo aquilo que me invade e me faz doer e sangrar.

 Amo aquilo que me aperta o peito, me afaga a nuca e me leva o ar.

Amo aquilo que me arrebata o corpo em um gozo quente e farto e me desloca de fixo lugar.

Amo aquilo que me faz sentir o seu pulsar em descompasso com meu pulsar – e aí gozar.

Amo aquilo que me excita e atiça como o suor de seu porto que faz salivar.     

Amo aquilo que em mim fica depois que sua boca abandona o meu corpo a gozar.

Amo aquilo que me impregna a alma, invade os poros e me deixa a exalar o seu cheiro de macho.

Amo aquilo que me enche a boca com o gosta ácido do seu sexo em um contraste  com o doce de seu hálito e gemido ao me devorar.

Amo aquilo que me rasga e me arrasta pra fora de mim ao te desejar.

Amo aquilo que me entorpece e assanha o devasso que ao seu corpo só pensa acolher.

Amo aquilo que me marca como seu – sêmem, suor e saliva em meu corpo a escorrer.

Amo aquilo que me preenche lentamente enquanto me comprime o quadril e me faz suspirar.

Amo aquilo que me faz sentir você dentro de mim arfando.

Amo aquilo que me faz desejar a sua boca e que obriga a minha explorar seu corpo ate encontrar seu sexo.

Amo aquilo que me dá seu corpo nu querendo me amar e gemer.

Amo aquilo que me faz dizer: Amo-te.

Dignidade

 

Por Giovanni Andersen Garcia

 

Eu quero a sorte de um amor tranqüilo. Eu quero a sorte de ser loucamente amado. Eu quero um homem para chamar de meu. Mesmo que seja…? Mesmo que seja quem mesmo?

Existe amor legitimo? Se sim, o que legitima esse amor? Se existe amor legitimo, existe então amor ilegítimo? O que o deixa marginal? Somos figuras representativas, temos nosso significado a partir do que é legitimado, fundado em uma moral da dignidade, ou seja, é o meu dizer que significa (e dignifica) o outro. Não importa que esse outro seja um objeto, um trabalho, uma profissão ou pessoa. Somos e vivemos de forma digna ou indigna a partir do discurso que dita as regras (sem nos darmos conta que também construimos e legitimamos esses discursos). É assim e ponto. Ou se está dentro ou se está fora. Branco ou preto. Sim ou não. Puro determinismo, não cabe nessa estrutura formal o elemento da subjetividade, das nuances que dão movimento às relações humanas.

Para mim fica claro de onde brotam os preconceitos: vem da fala referendada por uma sociedade normativa que não suporta o que esta em desacordo com essa moral que ela mesmo referendou, cuspindo fora de seu miolo os comportamentos desviantes. Assim, aquele que decide viver de forma autônoma, liberando-se dos grilhões dessa estrutura de legitimação, é posto em uma vida de marginalidade – pelo menos é esse o discurso que passa a determinar a imoralidade e indignidade do agir deste sujeito.

 Eu sou um sujeito indigno!

Vivo a margem dos discursos, tenho a sombra do clandestino em meu contorno, sou aquele que profana o natural, a ordem e a lei, sou aquele que promove a livre forma de amar. Eu dou a dignidade que meu amor precisa.

 Eu sou um marginal!

Amo aquele que eu sou proibido amar, vivo a vida que não deveria ser vivida, sou aquilo que a sociedade não entende e que as pessoas comentam.

 A quem pertence o amor?

O amor é objeto dos amantes. O amor é perfume que inebria os enamorados. O amor é o ópio que entorpece os apaixonados. O amor é isso e aquilo, o que é dito, o que é sentido. O amor é presente que se recebe, que se usa e compartilha. O amor não é pertence, não está a serviço de uma ideologia, não atende a métricas e fórmulas. O amor é gozo farto, úmido, gemido, é orgasmo, é coito e afago, é o beijo que seqüestra o ar.

 Qual é o rosto e a cor do amor?

O amor é espelho, é reflexo, é Narciso admirando sua face de humano. O amor tem o rosto do eu, do ele, do nós. O amor tem todos os rostos e não tem nenhum. O amor tem todos os verbos, é eco de todos os sons, é caleidoscópio, a psicodelia das formas, a profusão das cores.  O amor tem a minha cor e o seu rosto. O amor é você em mim e eu em você. O amor tem essa cor negra, branca, mulata, cafuza, mameluca, cabocla. É assim pardo e mestiço, é homem e mulher que baila disforme permeando os corpos.

 E eu quem sou ?  

Eu sou um homem que ama outro homem. Eu sou um homem que vive a dor dos homens. A minha carne é também carne humana. A minha vida é também vida humana. Eu sou gente de nossa gente, filho dessa terra. Eu sou índio Tupinambá, cria da floresta. Sou sujeito homem, carcará dos sertões. Sou essa gente bronzeada, sou ele, sou ela. Sou aquele que quer a sorte de um amor.

 Eu sou aquele gay!

 

Um pouco de possível, senão sufoco

Ah, o amor… 

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