PC Siqueira: Fama e Sucesso

A primeira parte do vídeo tá valendo (dica: assistam até 6 minutos). Depois disso, já não era mais o que a gente queria postar… (na preguiça do corte, segue o aviso! kkkkk)

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Criança, a alma do negócio

 Criança, a alma do negócio (Brasil)

Por que meu filho sempre me pede um brinquedo novo? Por que minha filha quer mais uma boneca se ela já tem uma caixa cheia de bonecas? Por que meu filho acha que precisa de mais um tênis? Por que eu comprei maquiagem para minha filha se ela só tem cinco anos? Por que meu filho sofre tanto se ele não tem o último modelo de um celular? Por que eu não consigo dizer não? Ele pede, eu compro e mesmo assim meu filho sempre quer mais. De onde vem este desejo constante de consumo?Este documentário reflete sobre estas questões e mostra como no Brasil a criança se tornou a alma do negócio para a publicidade. A indústria descobriu que é mais fácil convencer uma criança do que um adulto, então, as crianças são bombardeadas por propagandas que estimulam o consumo e que falam diretamente com elas. O resultado disso é devastador: crianças que, aos cinco anos, já vão à escola totalmente maquiadas e deixaram de brincar de correr por causa de seus saltos altos; que sabem as marcas de todos os celulares mas não sabem o que é uma minhoca; que reconhecem as marcas de todos os salgadinhos mas não sabem os nomes de frutas e legumas. Num jogo desigual e desumano, os anunciantes ficam com o lucro enquanto as crianças arcam com o prejuízo de sua infância encurtada. Contundente, ousado e real este documentário escancara a perplexidade deste cenário, convidando você a refletir sobre seu papel dentro dele e sobre o futuro da infância.

Direção: Estela Renner

Produção Executiva: Marcos Nisti

Maria Farinha Produções

Maiores informações em:

http://www.alana.org.br/doc.3gp

 

Fonte original: http://www.alana.org.br/CriancaConsumo/Biblioteca.aspx?v=8&pid=40

Eu tenho. Você não tem?

Comercial pensado por algum publicitário sem noção em 1992. Texto escrito por Juliana Schneider Guterres em 2011.

Não sei se foi falta de dinheiro ou excesso de discernimento dos meus pais, o fato é que nunca ganhei a tesoura. Na época eu, então uma menina de 7 anos, tentava  sobreviver ao primeiro ano de colégio. Tarefa árdua sem aquele objeto de cobiça e prestígio entre tantas outras crianças que, como eu, trocavam a dentição. Eu tenho, você não tem. Eles tinham, eu não. A única coisa que eu tinha era um medo incerto de ser julgada pelas coisas que não tinha.

Dezenove anos depois, só tenho a agradecer à tesoura que não tive. Minha não-tesoura me permitiu cortar muito mais do que papel.  Cortei fora da minha vida quem me julga pelas coisas que tenho – e principalmente pelas que não tenho. Parti a cartilha que me ensina a ser como todo mundo. Podei o controle silencioso que o marketing exercia sobre meu corpo e minha mente. Trinchei a multiplicação indefinida das minhas necessidades desnecessárias. Aparei os micro-fascismos. Tosei qualquer modismo que negue minha identidade. Abati as regras, normas, fôrmas e padrões vigentes.

E construi novos caminhos, nossas formas possíveis de ser e ter. Agora eu tenho vergonha de dizer para crianças que elas devem se sentir embaraçadas pelas tesouras que elas não tem, porque de fato, elas não devem. Eu tenho noção de que minha personalidade não é balizada pelos artefatos que ostento. Eu tenho raiva. Tenho raiva desse mundo irracional, desse mundo capital, canibal. Eu tenho horror a roupas de marca que não marcam história alguma.  Eu tenho medo da homogeneização, da universalização, da repetição, da mesmice em massa. Eu tenho pena de quem consome além da renda e do juízo. Eu tenho um gosto, um rosto, um corpo que me pertencem. Eu tenho discernimento. Eu tenho senso crítico.

Você não tem?

Choque de realidade pra você

Pra quem discorda que ignorância é uma benção, segue um vídeo dublado que explica a relação entre consumismo, mídia e meio ambiente. Importe-se 😉 Mais

O medo da violência

Por Marília Silveira

Medo de andar na rua. Medo de me perder. Medo de ser assaltada. Medo do escuro, de sair à noite. Medo de dormir. Medo de ladrão. Medo de homens que me perseguem na rua. Medo de meninos de rua que me cercam. Medo de meninos mal-encarados, sujos, que cheiram cola e fumam crack. Medo. “Medo do medo que dá”, dizem Lenine e Julieta Venegas em sua música. Inicio pelo medo que está sempre aí, mas sobre o qual é raro lançarmos o olhar, quiçá um discurso.

Sem desconsiderar a necessidade e a função do medo na constituição de um sujeito, vivemos tomados por um medo, um terror sem nome que muitas vezes personifica-se na figura do menino-de-rua-delinquente. Esse é o medo do discurso-padrão-classe-média-burguesa. Na qual me incluo. Produzimos aí o medo e a figura detentora de tudo aquilo que tememos. Que pode ser, porque não? Meninos pequenos que estão na rua, sujos e que não têm pais. Não têm país, “não têm leis”. Não têm lugar. E não têm chance.

E então, sem chance mesmo, unem-se a esse discurso a falência total de todas as instituições – família, escola, saúde, assistência social, polícia, Estado. O deliquente (que carrega em si “toda violência”) é criado a partir de uma conta (matemática!) “pura e simples”: mãe negligente + pai ladrão + rede falida + conselho tutelar precário + polícia inoperante = jovem deliquente.

Essa é a conta que a mídia exacerba diariamente nos jornais impressos e televisivos. E, fabricados em série, assim como as novelas e os comerciais de margarina, nós compramos, reproduzimos e nos subjetivamos por esses discursos. Desse modo a única solução, mantendo essa linha de raciocínio, é exterminar, prender e julgar culpados esses jovens. Eles são os culpados. Nós classe-média-alta-pequeno-burguesa nada temos com isso. Será? Somos apenas vítimas desses algozes da violência. Será mesmo?

Serão apenas essas as saídas possíveis? Retomei a utopia de início de curso, talvez porque o fim do curso me provoque. Entrei na psicologia com uma ideia de que nós psicólogos temos uma função social a cumprir, devemos contribuir para a ‘melhoria’ da sociedade. Suspendo em aspas o termo ‘melhoria’ porque na época eu não conseguia pensar noutro melhor. Mas enfim, retorno a isso porque, depois de tantas voltas teóricas em dez anos de formação, foi (e ainda é) possível deparar-me com muitas possibilidades desse lugar social da psicologia.

É desse lugar e a partir dessas e mais algumas influências que escolho começar. Olhar para o tema da violência implica necessariamente fazê-lo desde uma posição ética. E uma posição para ser ética não pode ser ingênua nem tão pouco moralista. O tema da violência (assim como outros tantos) nos convoca a uma suspensão de nossos valores médio-burgueses.

E é possível começar, por exemplo, por aquele discurso de que se um sujeito comete um ato infracional ele “não tem lei”. Isso é um grande equívoco. Acompanhando discussões de uma equipe de saúde mental sobre adolescentes internados numa Fundação Sócio-Educativa[1], escutando as histórias mais de perto, devolvendo humanidade e singularidade para suas histórias, aproximando-nos, encontramos sim leis que regem esse funcionamento dito “ilegal”.

E encontramos uma lei e dizemos que “está fora” de “nossa” sociedade. Mas é necessário por uma interrogação. Como assim está fora? Outra vez desde uma posição ética é necessário entender que tudo isso que aí está somos nós e somos nós que produzimos. É uma ilusão simplista e quiçá higienista pensar que esta “outra lei” está fora. Talvez não exista dentro-fora. O que ocorre nos pequenos grupos não é uma parte do social, é o social. Não se destaca dele.

No entanto, sempre é mais fácil considerar que essa face obscura da realidade não nos pertence. E Maturana e Varela em 1995 já nos alertavam:

Pouco a pouco parece que estamos nos aproximando do momento em que o grande, poderoso e aparentemente indestrutível navio que é a nossa moderna civilização colidirá contra a grande massa submersa de nosso formidável auto-engano, da estéril racionalidade com que falseamos nossa natureza (social) e que nos conduziu a essa titânica confrontação de forças em que todo entendimento, toda reflexão profunda, toda revisão da responsabilidade pessoal que cabe na geração desse abismo parecem sistematicamente abolidos, já que “a culpa é sempre dos outros” (p. 14).

Nosso prognóstico social é realmente terrível, o desespero quase inevitável. O pessimismo toma conta dos discursos sociológicos, dando-nos bofetadas que se dissolvem no mar líquido das futilidades. Está tudo aí, tudo aí somos nós, e não conseguimos escapar disso, um instante de devaneio em frente à televisão e logo somos capturados pela sedutora propaganda: compraremos algo que não precisamos e seremos felizes.

Discursaremos sobre os alunos agressivos nas escolas, sobre a falta de limites das crianças, sobre os meninos algemados pelos pais para não usarem crack, porque não podemos nem pensar, nem sequer pensar, no crack! Não podemos e não queremos pensar. Pensar dói. Pensar desacomoda. Pensar dá trabalho. Dar-se conta de que o encontro com o conhecimento não é neutro. E custa a nossa tranquilidade, a saída do oásis que outrora habitávamos e parecia perfeito. Sabemos que perfeito não era, mas um dia houve uma promessa de que algo nos completaria por inteiro.

Enquanto ainda há tempo convido a(o) leitor(a) a um passeio por algumas linhas implicadas nesses discursos e na clínica desse tema. Convido-a(o) a pensar comigo desde um lugar ético-polítco pois neste momento tornou-se necessário um posicionamento profissional que possibilite a produção de interlocuções, linhas de fuga, novas possibilidades para aquilo que parece ter-se tornado um verdadeiro caos social.


[1] As referências de minha prática com o tema da violência devem-se a experiência como bolsista CNPq na pesquisa intitulada: A construção identitária na adolescência em contextos violentos na perspectiva da Clínica em Saúde Mental. Coordenada pela Dra. Marta Conte. Aprovada pelo Edital MCT/CNPq/CT-Saúde/MS/SCTIE/DECIT N º33/2008 e desenvolvida pela Escola de Saúde Pública/RS ao longo dos anos de 2009 e 2010, meus últimos anos de formação em Psicologia.

DENTRO SEM FORA

Texto de Juliana Schneider Guterres

DENTRO SEM FORA

A vida está

dentro da vida

em si mesma circunscrita

sem saída.

Nenhum riso

nem soluço

rompe

a barreira de barulhos.

A vazão

é para o nada.

Por conseguinte

não vaza[1]

Quarta-feira. Nossa sessão começa sempre por volta das três da tarde. Sol. Chuva. Tem dias que faz frio, noutros o calor é escaldante. Passam-se dias, semanas, meses, mas o jogo é sempre o mesmo. O Jogo da Vida. O ritual tampouco muda. Ele entra na sala, senta-se calado. Pergunto como ele está. Silêncio. Como foi a semana. Silêncio. (Às vezes tenho vontade de parar de perguntar.) Passam-se alguns minutos, ele me olha e diz “vamos jogar. O jogo, aquele”. Vai até o armário, pega a caixa. Sentamos no chão. Abrimos a caixa, montamos o tabuleiro, distribuímos as notas coloridas de dinheiro, escolhemos a cor dos nossos carros e aconchegamos neles nossos eus-bonecos – segundo as instruções do jogo, bonecos rosa são para meninas, azuis para meninos. Quem tira o número mais alto na roleta, começa o jogo e parte para gerir sua vida, agora estampada (e capturada) naquele tabuleiro.

De início só se abrem duas possibilidades: fazer faculdade ou não fazer. Se fizer, a sorte vai dizer se você será médico, advogado, engenheiro, artista, professor ou terá somente um diploma universitário. O salário varia de acordo com a profissão. Se não fizer, não fez. O caminho é mais curto, assim como o salário. Daí em diante, todas as vezes em que passar pela casa “Dia do pagamento” você receberá seu salário. Mas muita atenção! Você perderá o salário se esquecer de recebê-lo antes que o próximo jogador gire a roleta.

Nas rodadas seguintes, o dia do casamento (receba os presentes!). Parada obrigatória. Todo mundo é obrigado a casar? No jogo da vida, sim. E até que a morte ou o fim do jogo os separe, porque, mesmo que procure em todo o tabuleiro, você nunca encontrará a casa “Divórcio. Pague $ 30.000”. Assim, o mesmo cônjuge-boneco e um punhado de filhos-bonecos (receba os presentes!) – que, fatalmente, você terá – te acompanharão até as últimas casas. (Lembrando, papai-boneco e mamãe-boneco sentados na frente do carro, azul e rosa, respectivamente, sem possibilidade de alteração. Filhos-bonecos no banco de trás. Bicolores, azul para meninos, rosa para meninas, mais uma vez, nenhuma possibilidade de alteração – nem da cor, nem da estrutura familiar.) No final do jogo, cada filho-criança-boneco será trocado por $ 48.000. E o cônjuge-boneco? Este não lhe serve mais pra nada. Talvez vocês possam se encontrar em uma próxima partida.

Segue o jogo. “Você precisa de dentadura. Pague $ 2.000”. “Herança. Receba $ 30.000”. Quem morreu? O jogo não menciona, mas há se ser parente próximo. Aceite, assim você poderá pagar ao dentista pela dentadura. “Seu iate bateu em um icebergue. Venda cubos de gelo e receba $ 10.000”. “Seu bode comeu orquídeas premiadas. Pague $ 3.000”. Bode?! “Ganhou Prêmio Nobel. Receba $ 120.000”. “Ganhou reality show! Receba $ 200.000”. Quanta versatilidade!

Mais rodadas. “Titia deixou 50 gatos. Pague $ 20.000 para os cuidados”. “Ajude a Arara Azul a não entrar em extinção. Pague $ 220.000”. “Comprou 2 cavalos. Pague $ 60.000”. A bicharada levou todo nosso dinheiro.

E a roleta segue girando, trazendo nossa recuperação. “Achou tesouro antigo no quintal. Receba $ 24.000”. “Descobriu Atlântida enquanto fazia pesca submarina. Receba $ 12.000”. “Achou obra de arte! Receba R$ 120.000”.

Quem ganha o jogo da vida? Segundo o manual de instruções, se ninguém se tornar magnata, o jogo termina quando o último jogador for à falência ou se tornar um milionário. Todos os jogadores, então, contam seu dinheiro, quem tiver mais, vence. Simples assim.

Ou não.

E se você não fosse milionário? E se tampouco fosse à falência? E se você não quisesse balizar sua vida pelo saldo da sua conta bancária? E se as meninas passassem a usar azul, resolvessem não se casar? E se os meninos quisessem namorar outros meninos? E se passássemos a andar a pé? E se algumas crianças não tivessem família? E se algumas famílias não tivessem criança? E se não existissem famílias? E se existisse vida para além do tabuleiro?

Sigo sem entender o bode. Assim como a vida capturada em um tabuleiro.

Jogo da vida, vidas em jogo. A vida, no jogo, não vaza.


[1] GULLAR, Ferreira. Toda poesia Toda poesia (1950-1999). 18ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009. p. 393.