E viva a não lógica!

Juliana Schneider Guterres

Beijo gay em horário nobre, nem pensar. Mas assassinato gay, pode. Atá! Os postes mijando nos cachorros! A maior emissora de televisão do país (que, ao meu ver, não tem culhão para bancar em rede nacional um beijo homossexual, afinal, como bons capitalistas, tenta-se agradar gregos e troianos. Sem beijos então, isso pode gerar menos anunciantes) dando essa lição aos seus telespectadores. Me choquei, decepcionei! Fiquei puta! Ao invés de promover o amor, o carinho e o desejo – em qualquer forma que esses venham a se dar -, a não lógica da Rede Globo opta por televisionar cenas de violência explícita contra um homossexual. Lá atrás, nessa lógica controversa, deve haver uma mensagem. Mas aí é que está: porque andarmos por linhas nada nítidas quando poderíamos ser mais claros? Beijem-se, abracem-se, acarinhem-se! Eu quero ver a liberdade de ser e viver seus afetos estampadas nas telas, escancaradas nas casas.  Não seria essa a verdade aceitação da diversidade? Qual é a não-lógica que diz que mostrando uma cena de violência incitaremos o altruísmo, a decência e o respeito? Psicologia reversa? Podia funcionar muito bem nas nossas infâncias com nossas mamães nos ameaçando deixar pra trás na rua – quando partíamos em disparada de volta ao rabo de suas saias, mas não venham me trovar que aqui isso também se aplica. Já dizia o poeta: gentileza gera gentileza. Falo por mim, parafraseando o sábio: RESPEITO GERA RESPEITO. E violência, infelizmente, gera violência.

Sim, a gente se importa com o estupro.

Entre uma festa e outra nos States, conheci uma moça que me marcou como poucas. De imediato, a personalidade forte dela atraiu a minha e viramos, tipo assim, best-friends-forever-oh-my-god, na falta de melhor termo. Para fins ilustrativos, chamemos-a de Fernanda. Ou seja, o nome verdadeiro dela com certeza não é Fernanda (só pra deixar claro).

A Fernanda é uma mulher independente e decidida, linda e inteligente, poliglota e culta. Ela é assim uma super mulher, que voa com capa e tudo de Norwalk a Nova Iorque para pagar seu aluguel, seus drinks, seus estudos e qualquer porra que ela quiser. Ela tem tanta força, tanta energia, que ela podia mudar o mundo se ela quisesse. Mas ela não consegue, ela tem tantos conflitos internos que o seu corpo cansa antes mesmo de acordar de manhã bem cedo. E sabe o que causou tamanho desperdício de ser humano?

Em um bar pós-2-cosmopolitans-e-3-mojitos, ela confessou que foi estuprada pelo ex-namorado quando ele, drogado, arrombou a casa onde ela mora e a esperou voltar do trabalho. Obviamente, a vida dela nunca mais foi a mesma. Obviamente número dois, eu nunca pedi se o filho da puta (peço desculpas pelo meu léxico, brocha pau no cú soa mais adequado para vossa senhoria?) foi punido. Eu sabia que não, ela não podia contar com o sistema patriarcal para punir um homem. Há.

Claro, ela tinha vergonha do próprio corpo, da categorização social, mas acima de tudo ela se sentiu merecedora. Dá pra acreditar? Como alguém pode merecer ser estuprada/o? Afinal de contas, foi ela que um dia namorou e mostrou onde morava. Também foi ela quem entrou em casa apesar de ter notado a porta arrombada. E como se não bastasse, ela teve a audácia de tentar acalmá-lo apesar da cocaína, da corda que ele tinha no bolso, do desrespeito que ele carregava nas mãos. Ela me contou que ainda lembra o cheiro de cigarro emanando dele, mas eu acho que ele cheirava mais à covardia e à necessidade de provar algo para si mesmo (talvez que, assim como o Pinóquio, ele era um menino de verdade agora?).

Mas não interessa, porque foi ela quem pediu, não foi?

Não?

Que sistema é esse?  Que incita violência e a etiqueta como sexy, que diz que “paus e pedras podem quebrar os meus ossos, mas chicotes e correntes me excitam”? (RIHANNA, cantora pop tão talentosa que é mencionada pelo tamanho da bunda e pela beleza das pernas, 2011, S&M ou algo do gênero).  No entanto, quando as mulheres são tratadas como na TV (que, a propósito, é ficção), e tem a coragem de exigir os direitos humanos universais para si, esse mesmo sistema diz que “elas pediram por isso”, “que ela provocou, porque no fundo ela queria”. Mas esse não é o ponto.

Peraí, então sim tu tá me dizendo que esse post gigante tem um ponto?

Talvez o ponto seja quem paga o preço. Graças a uma alteração na legislação (Art. 213 e 214) em 2009, tanto homens quanto mulheres são reconhecidos/as como vítimas de estupro, portanto a própria lei diz que todos/as pagam o preço. Pela segunda (talvez terceira?) vez na vida, concordo; todos/as pagamos quando a sociedade transforma indivíduos com tanto potencial em meros corpos em movimento, sem auto-estima, sem respeito, sem esperança.

Chega? Acho que sim, né?

[desabafo de Janaína Bordignon]

“Eu defendo a tortura” – Jair Bolsonaro

Mais de Jair Bolsonaro, amigos. Em entrevista dada a Cláudia Carneiro ao Istoé Gente em 14 de fevereiro de 2000, o deputado já nos brindava com suas controversas opiniões. Leia a entrevista na íntegra abaixo:

Retirado de:  http://www.terra.com.br/istoegente/28/reportagens/entrev_jair.htm

Entre os companheiros de quartel no Rio de Janeiro, o capitão reservista do Exército Jair Messias Bolsonaro era conhecido como “cavalão”. Seu porte atlético, em 1,86 metro de altura e 75 quilos, desenvolvido nos exercícios da Escola de Educação Física do Exército, garantiu-lhe o título de pentatleta das Forças Armadas. Mas foi a língua solta que o ajudou a ganhar fama nacional, quando começou a questionar governos, há mais de uma década, para defender a corporação à qual pertenceu. Nas últimas semanas, manteve o hábito de causar polêmica ao propor o fuzilamento do presidente Fernando Henrique Cardoso. No terceiro mandato federal, eleito com 103 mil votos, o deputado Jair Bolsonaro (PPB-RJ), 44 anos, abre fogo contra colegas da Câmara dos Deputados que combateram a ditadura militar, defende a tortura, a censura e a pena de morte e não se arrepende de ter pregado o fuzilamento do presidente. Pai de três filhos adolescentes com a primeira mulher, Rogéria Bolsonaro, e de um bebê com a segunda, Cristina, 32 anos, Bolsonaro revela em entrevista a Gente que sonha disputar a Prefeitura do Rio de Janeiro. “Mas eu não estou preocupado em ser prefeito. Eu quero é espaço.”

Teme algum dia ser cassado por suas declarações?

Não. Se um soldado está na guerra e tem medo de morrer, é um covarde. Se eu fosse cassado, seria o parlamentar cortando seu próprio direito de opinião, palavra e voto. Tenho poucos inimigos dentro da Câmara.

Ainda acha que o presidente deveria ser fuzilado?

Eu não errei em falar isso naquele local, naquela oportunidade e naquele momento. E acho que tenho o direito de falar. Eu não xinguei o presidente, nem disse que ele não conhece o pai dele. Acho que o fuzilamento é uma coisa até honrosa para certas pessoas.

Isso não é incitação ao crime?

Se eu estivesse conspirando, não falaria isso. Não é difícil matar o presidente. Só tem que ter coragem. O esquema de segurança dele é falho. Por exemplo, tenho uma casa no litoral em Mambucabinha, próxima do local onde ele passeia quando vai a Angra dos Reis. Sou primeiro lugar no curso de mergulho do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro. Bastava planejar. E as chances de sucesso de se cumprir a missão são grandes. Não é difícil eliminar uma autoridade no País. Isso até serve para alertar o presidente.

Como isso seria feito?

Tudo depende de planejamento. Pode-se pegar uma arma com mira e matar o presidente em Brasília. Com uma besta (espécie de arco e flecha) dá para eliminar uma pessoa a 200 metros. Até com um canivete dá para chegar no cangote do presidente. Mas quero deixar claro que não estou incitando ninguém a fazer. E não tenho nenhum plano para eliminar o presidente. Eu não partiria para uma missão suicida.

O senhor fuzilou alguém?

Não. Eu já saquei arma uma vez. Estava indo a pé para o quartel, no Rio, por volta da meia-noite, e vi que estava sendo perseguido. O elemento então saiu correndo. Devia ser um ladrão barato.

Seus colegas de Congresso o consideram uma pessoa truculenta. Como o senhor é em casa?

Nunca bati na ex-mulher. Mas já tive vontade de fuzilá-la várias vezes. Também nunca dei um tapa num filho. Gosto de chamar para conversar, contar piadas.

O que levou ao fim seu casamento de 19 anos?

Meu primeiro relacionamento despencou depois que elegi a senhora Rogéria Bolsonaro vereadora, em 1992. Ela era uma dona-de-casa. Por minha causa, teve 7 mil votos na eleição. Acertamos um compromisso. Nas questões polêmicas, ela deveria ligar para o meu celular para decidir o voto dela. Mas começou a freqüentar o plenário e passou a ser influenciada pelos outros vereadores.

Não era uma atitude impositiva de sua parte?

Foi um compromisso. Eu a elegi. Ela tinha que seguir minhas idéias. Acho que sempre fui muito paciente e ela não soube respeitar o poder e liberdade que lhe dei. Mas estou muito feliz na minha segunda relação. Vivo muito bem com a Cristina.

O que o senhor acha da legalização do topless?

Não sou contra, não. Desde que seja com a mulher dos outros. Depois que todas as mulheres estiverem usando, aí a minha poderá usar. O fio dental foi um escândalo e hoje é normal. Tudo é evolução.

E sobre a legalização do aborto?

Tem de ser uma decisão do casal.

O senhor já viveu tal situação?

Já. Passei para a companheira. E a decisão dela foi manter. Está ali, ó. (Bolsonaro aponta para a foto no mural de seu filho mais novo, Jair Renan, de 1 ano e meio, com Cristina.)

O senhor segue alguma religião?

Eu acredito em Deus. Sou católico. Mas é coisa rara ir à Igreja. Eu já li a Bíblia inteirinha, com atenção. Levei uns sete anos para ler. Você tem bons exemplos ali. Está escrito: “A árvore que não der frutos, deve ser cortada e lançada ao fogo”. Eu sou favorável à pena de morte.

Pena de morte é a solução?

Acho que um elemento que pratica um crime premeditado não pode ter direitos humanos. O José Gregori (secretário nacional dos Direitos Humanos) fala em indenizar os familiares dos 111 mortos no Carandiru. E ele não dá uma palavra às viúvas e órfãos que os 111 fizeram em sua vida de marginalidade.

A polícia agiu corretamente no Carandiru?

Continuo achando que perdeu-se a oportunidade de matar mil lá dentro. Pena de morte deve ser aplicada para qualquer crime premeditado.

Isto inclui tráfico de droga?

Aí é outra história, aí eu defendo a tortura. A pena de morte vai inibir o crime. Nunca vi alguém executado na cadeira elétrica voltar a matar alguém. É um a menos.

Em que outras situações o senhor defende a tortura?

Um traficante que age nas ruas contra nossos filhos tem que ser colocado no pau-de-arara imediatamente. Não tem direitos humanos nesse caso. É pau-de-arara, porrada. Para seqüestrador, a mesma coisa. O objetivo é fazer o cara abrir a boca. O cara tem que ser arrebentado para abrir o bico.

E a tortura praticada pela ditadura militar?

Admito que houve alguns abusos do regime militar, mas a tortura não foi em cima de um simples preso político. Aquelas pessoas estavam armadas e matavam. Só na Guerrilha do Araguaia perdemos 16 militares.

O senhor disse que o deputado José Genoino (PT-SP) era mentiroso e delatou seus companheiros da Guerrilha do Araguaia. O senhor tem provas?

Tenho informações seguras. Eu tenho orgulho de dizer que não fui um Genoino da vida, um deputado mariposa. O Genoino fala que pegou em armas por dois anos. O que ele fez nesses dois anos? Assaltou bancos, seqüestrou? Quantos ele matou?

O que pensa sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo? Eu sou contra. Não posso admitir abrir a porta do meu apartamento e topar com um casal gay se despedindo com beijo na boca, e meu filho assistindo a isso.

Tem algum homossexual na família?

Graças a Deus, não. Eu desconheço. Se tivesse, nem quero pensar.

E como o senhor trata da liberação sexual com seus filhos?

Certas coisas não se pode ser contra ou a favor. Prefiro que um filho meu leve uma namoradinha para dentro de minha casa, num dia que eu não esteja lá, do que ele ser rendido na rua e assassinado dentro de um carro.

Como foi que o senhor perdeu a virgindade?

Com 17 anos de idade. Meio tarde, né? Meus filhos vão pegar no meu pé por causa disso. Eu estava na Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em Campinas. Ninguém tinha dinheiro. Juntávamos uns 20 alunos, fazíamos um sorteio, íamos para o baixo meretrício e os cinco sorteados faziam fila com a mesma mulher.

Seu pai era agressivo em casa?

Eu não conversava com ele (Percy Geraldo Bolsonaro, morto em 1995) até os 28 anos de idade. Ele bebia descaradamente e brigava muito em casa, com minha mãe e os filhos. Mas nunca bateu em filho. Um dia constatei que não iria mudá-lo. Resolvi pagar uma pinga para ele. Nos tornamos grandes amigos.

Por que decidiu ser militar?

Por causa do Lamarca. Eu tinha 15 anos de idade, usava cabelo com gumex, calça boca-de-sino, sapato “cavalo de aço”, quando o Lamarca passou por Eldorado Paulista, em 1970. O Exército chegou lá. Eu então conheci e me apaixonei pelo Exército brasileiro.

Pretende disputar nova eleição para a Câmara?

Tenho que ficar com os cabelos mais brancos para um dia tentar um cargo no Executivo. Na Prefeitura do Rio de Janeiro, para eu fazer meu nome. Daí, quando perguntarem sobre enchente num debate, eu vou responder sobre reservas indígenas. Não estou preocupado em ser prefeito, eu quero espaço, quero mostrar o que a mídia não mostra

Jair Bolsonaro

 

Eleito pela sexta vez consecutiva, o deputado federal pelo Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro, dá esta chocante entrevista ao CQC. Vale a pena conferir o quão alienada (pra não dizer muuuuuitas coisas piores!) uma pessoa pode ser.  Valeria a pena também conhecer cada eleitor desse ilustre senhor e atravessar a rua toda vez que os avistasse – visto que devem compartilhar dos mesmos pensamentos do deputado. Então, se você é negro, homossexual, não-militar, não possuir uma bomba atômica… CORRA, você terá problemas com essa gente.

 

 

 

Abaixo segue uma nota de esclarecimento do deputado sobre a resposta a uma das perguntas. A nota pode ser lida no website do digníssimo senhor  (www.bolsonaro.com.br):

 

A respeito de minha resposta à cantora Preta Gil, veiculada no Programa CQC, da TV Bandeirantes, na noite do dia 28/03/2011, são oportunos alguns esclarecimentos.

A resposta dada deve-se a errado entendimento da pergunta – percebida, equivocadamente, como questionamento a eventual namoro de meu filho com um gay.

Daí a resposta: “Não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Não corro esse risco porque os meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambientes como lamentavelmente é o teu.”

Todos aqueles que assistam, integralmente, a minha participação no programa, poderão constatar que, em nenhum momento, manifestei qualquer expressão de racismo. Ao responder por que sou contra cotas raciais, afirmei ser contrário a qualquer cota e justifiquei explicando que não viajaria em um avião pilotado por cotista nem gostaria de ser operado por médico cotista, sem me referir a cor.

O próprio apresentador, Marcelo Tas, ao comentar a entrevista, manifestou-se no sentido de que eu não deveria ter entendido a pergunta, o que realmente aconteceu.

Reitero que não sou apologista do homossexualismo, por entender que tal prática não seja motivo de orgulho. Entretanto, não sou homofóbico e respeito as posições de cada um; com relação ao racismo, meus inúmeros amigos e funcionários afrodescendentes podem responder por mim.

Atenciosamente,

JAIR BOLSONARO