PC Siqueira: Fama e Sucesso

A primeira parte do vídeo tá valendo (dica: assistam até 6 minutos). Depois disso, já não era mais o que a gente queria postar… (na preguiça do corte, segue o aviso! kkkkk)

O direito ao delírio – Eduardo Galeano

Letra e corpo

Juliana Schneider Guterres

“Um boneco!” – grita ele enquanto eu, pacientemente, escolhia uma cor de folha para desenhar também. Olho para ele, ele me olha sorrindo, mostrando-me com os olhos o desenho que acabara de fazer. Sim, um boneco – que sorri simpático e solitário no fundo verde do papel.

Desisto do meu desenho. Preciso de letra. Escrever diminui a angústia da não palavra. O não dito que se faz presença quase palpável.  Sorvo do verbo solto à procura de um sujeito.

Deixo passar. Passo a deixar. Me deixo. Passada. Passagem.

Faço-me letra enquanto ele está puro corpo.

*Escrito minutos atrás durante um atendimento. Parceria terapeuta-paciente. Angústia-passagem.

Foda-se o seu modelito musical

Jonas Lewis

Jazz, Rock’n Roll, Blues, Techno, House, Electro, suas bifurcações e subdivisões, o tão chamado Samba de Raiz, a música erudita, tudo encaixa-se perfeitamente no chamado bom gosto musical da classe média branca e ascendente. O brasileiro escuta de tudo o que o exterior põe em suas mesas, em suas caixas de som, e o pior, em seus I-Pods. Invenções repetitivas vindas da Suécia, modernismos antigos do velho Reino Unido, rocks americanos monótonos, estourando a tolerância ao 4X4 duro. Vindo da juventude, não me espanta que não conheçam nem os clichês da Tropicália, ou as velhas baladas de boteco do Djavan. Caetano Veloso, Chico Buarque, para não aprofundar-se na possibilidade brasileira de fazer música, são como coadjuvantes de dois ouvidos contaminados pela língua inglesa, pela vã poesia e pelos significados vazios. Ainda conhecem os gigantes. Ufa! Led, Doors e Stones. Pink Floyd continua eterno, mas incompreendido, visto que sua audição dá-se através de certa obrigação frente às necessidades sociais. E aí que me refiro. Obrigações fazem opiniões, e opiniões tomam o lugar da verdade.
O único espelho verdadeiro que a humanidade possui é sua música. Não há povo que não tenha seus batuques, suas melodias e sua sonoridade. Isso é importante de se compreender. A música é o reflexo de um povo, e melhor, é o âmago de um povo. Sua essência na forma mais pura, posta em acordes, palavras, ritmos, timbres e intensidades. Na música não há o feio. Há sim a falta de trabalho, o esquecimento de que fazer música é filosofar sem saber que se está filosofando. Existe sim a falta de inventividade, criatividade e inspiração. Há também a busca pela grana, é claro. Mas isso é outra história.
Confunde-se muito a estética de um povo, seus rituais e sua linguagem, com uma espécie de necessidade social de diferenciar-se daquilo, negando sua qualidade. Tente defender o Funk Carioca frente a um grupo de pessoas numa escola particular. Os argumentos serão cuspe na fogueira, frente a incapacidade de compreender sua estética, sua verdadeira essência. Falta aos críticos de plantão a capacidade de fazer certas análises, como:

– De onde vem essa música?
– Como é esse lugar?
– Quando foi pensada?
– Por quem foi pensada?
– Existe TRABALHO aí? Existe ARRANJO, COMPOSIÇÃO, PENSAMENTO, BUSCA, SONORIDADE, CARA?

Essas são as 5 perguntas principais que se deve fazer ao deparar-se com um trabalho musical. Quem dera as fizesse quem rechaça movimentos musicais como o Funk Carioca e o Calypso. Pobres ouvintes de repetições, viciados num mundo onde a própria inovação é limitada. Escutam mastigações musicais de movimentos antigos e fazem pouco caso de novidades interessantes e grandiosas. Usam música como roupas, baseados em classes sociais e aceitações dentro do grupo. Como escutarei Pagode se meus amigos odeiam com todas forças? Como direi que aquela batida do Funk me encanta? Como assumirei que a putaria nas letras me é agradável? Nem isso podem entender os críticos! O que esperam da música que cresceu junto do crime, da diversão sexual e da marginalidade? Ela precisa ter essa CARA! Essa é a VERDADE de uma música. Não são poemas parnasianos e versos pomposos. É poesia do povo, da juventude marginalizada que precisa chocar o asfalto.
O que esperam do Calypso de Belém do Pará? Querem a melancolia islandesa, ou o bucolismo neozelandês? Não será assim. A Joelma, vocalista do grupo, representa as mulheres de Belém do Pará com perfeição. As letras falando de casos de amor, a breguiçe espontânea, essa é a VERDADE nua e crua de um povo que faz uma música lotada de personalidade, qualidade e inventividade. Além de revelar um grande poder de arranjos e músicos fenomenais no palco.
Portanto, foda-se sua bandinha de rock! Foda-se seu cover dos Beatles, suas composições que parecem já ter sido feitas dez milhões de vezes por outras pessoas. Foda-se sua inverdade musical, sua necessidade existencial de permanecer intacto num grupo de pessoas proibidas de apreciarem movimentos artísticos. Vocês são a vergonha da arte. Vocês são o atraso da apreciação musical. Vocês envergonham a classe dos músicos e da platéia, que deveria estar insaciável, doida por novas possibilidades, novas sonoridades. Foda-se sua mistura de bossa-nova com drum’n bass, foda-se seu tango eletrônico, foda-se também seu electrozinho cantado por uma mulher de voz fina. Foda-se seu funkinho romance de boteco, seus arranjos “pizza congelada”. Comecem a prestar atenção no gueto. É de lá que vem o futuro. A inovação vem de baixo. Há muito tempo a classe média deita-se em todos sentidos numa nuvem imunda chamada comodidade, e os ricos assumem seu papel de teto. Não se esqueçam do Brasil! Não se esqueçam que música não é bolsa nem camisa. E como disse Jorge Ben: “O belo pode ser simples e o simples pode ser belo”.

Conheci um homem

Texto de Giovanni Andersen. Para Jader Girotto.

Eu conheci um homem e me perguntei: o que lhe faz ser o que é?  Coragem ou fibra moral? Caráter? Às vezes tenho muito medo das pessoas, deixo-me fluir pensando.. do que elas são feitas e o que as tornam fracas? Feitas de covardia, fracas de coragem? Feitas de corruptudes, fracas de fibra moral? Feitas de escambos, fracas de caráter? O que nos faz ser machos, homens? O inconsciente, crente de que as coisas são do jeito que são por que é assim que tem que ser ou consciente, devoto de que a vida é processo que se constrói diariamente articulando-se com os interesses de quem detém o poder sob os viventes?

O que me faz ser quem eu sou?  Às vezes tenho muito medo de descobrir que não sou quem penso ser. Examino-me mentalmente na busca de responder: sou fraco de covardia? Sou  fraco de corruptude? Sou fraco de escambo?

Acredito-me um bom homem consciente. Será que sou mesmo? Sou um bom homem? Tenho mesmo uma natureza corajosa? Possuo caráter e fibra moral em minha personalidade? Posso eu responder esses questionamentos sem temer a resposta e sem iludir-me?

Eu conheci um homem, na verdade um garoto, que redefiniu pra mim o conceito de hombridade. Porque coragem é olhar-se e dizer sim para o que vê. Fibra moral é assumir-se sem reservas e dogmas. Caráter é colocar-se dignamente em tudo que faz.

Esse homem-rapaz de alma feminina é capaz de doar-se, entregar-se. Devota amor, carinho e zelo, candura e charme de fêmea em um corpo de homem.

Eu conheci um garoto que atende pelo nome de coragem, um menino que brinca com sua imagem por que sabe o que é, um rapaz que legitima-se por que é a própria dignidade.

Eu conheci um homem chamado Jader.

Gaga

 

Texto de Jonas Lewis. Para Jader Girotto

Sempre achei que tive coragem. Fugir cedo do colo de mamãe, desbravar a cidade, que parecia minha, conhecer as outras, atrás de algum dinheiro, saltar até o centro populacional do país e perder-me frente ao caos urbano de idas e vindas alucinadas de terminais e aglomerações. Fazer o que quisesse, mesmo conhecendo o clichê ancião de que o caminho seria de pedras.

 Sempre achei que tive fibra. Pais divorciados num circo armado pela disputa de caráter frente à minha ingênua folha em branco. Permaneci ileso, ou quase assim. Um cara de opinião, que não tinha medo de expor suas idéias, mesmo que elas perturbassem a paz do ambiente, mesmo que elas pudessem derrubar as paredes do quarto onde eu adormecia por todas as noites.

 Tudo pequeno perto do mundo! Tudo mesquinharia! Minha coragem e minha fibra são meros coadjuvantes na grande ópera infinita do mundo. E o mundo, por vezes, pode não andar tão longe. O mundo não é lá na Polônia, ou na China, nem nos gélidos Pólos. Não pede avião, ou navio, não nos exige grandes deslocamentos ou idiomas enrolados e complexos. O mundo talvez, sim, nos exija sabedoria. O mundo exige paciência, tolerância, inteligência, e acima de tudo caráter. A cultura, a intelectualidade, o poderio acadêmico e a riqueza são a lama dos porcos! O mundo nos quer abertos, e desimpedidos. O mundo nos quer como ele.

 O encontro e a amizade são possibilidades de novos mundos. Conhecer mundos alheios é conhecer o mundo. Viajar por ele. Pontos turísticos não são nada além de pontos turísticos. Guias são guias e museus são prédios ou casas onde se mostram coisas velhas. Viajar, para mim, é conhecer alguém. Gostar de alguém. E eu aprendi algo novo. Busquei nessa viagem, que pude fazer ao conhecer-te, algo de que andava precisando: coragens são variáveis e fibras são relativas.

 Tua coragem e tua fibra surpreendem minha falaciosa idéia do que eu era, do que tinha, do que fazia. Enfrentas o cenário com alma de protagonista! És forte sem força bruta, e atinges a sensibilidade que carregas com perfeição. A feminilidade é linda, e por que não tê-la? Por que não vivê-la quando se deseja? Admiro tua imensa coragem. Coragem que talvez nunca chegue a mim! Torço pra que tua fibra nunca se esgote, e vibro por ter conhecido teu mundo.

Ser teu amigo é legal pra caralho! Me faz melhor. Me faz mais homem, mais sábio e mais interessante.

 GAGA É DIVA!

 

 

 

“Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria.

Que o mundo masculino tudo me daria,

Do que eu quisesse ter.

 Que nada! Minha porção mulher que até então se resguardara,

É a porção melhor que trago em mim agora

É o que me faz viver.

 Quem dera pudesse todo homem compreender, ó mãe, quem dera.

Ser o verão no apogeu da primavera

E só por ela ser.

 Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória

Mudando como um Deus o curso da história

Por causa da mulher”

 (Gilberto Gil)

Accademia della Follia em Porto Alegre

Pensei na Reforma Psiquiátrica, no estar com o grupo de teatro de Trieste: Accademia della Follia. Filhos da Lei 180 na Itália.

"Nós não fazemos teatroterapia, nós fazemos teatro", "Eu sou louco, não doente" dizia o diretor Claudio Misculin, ali não era um debate sobre Reforma era um efeito de Reforma em ato, era um efeito de vida da Reforma. Encontrei-me com aquelas pessoas na universidade, no dia seguinte dentro do manicômio (Hospital Psiquiátrico São Pedro) e no seguinte ainda, no teatro. 

As capturas dos discursos foram completamente diferentes em cada um dos ambientes, claro! Na universidade Claudio nos falou sobre seu método de fazer teatro, da memória que fica no corpo e por isso fazem os exercício de cena correndo, fazendo flexões...falou nos três pontos de onde saem a voz no corpo (peito, garganta e testa). Deitou-se no chão, fez flexões engolindo ar, e na sequência levantou-se sendo Creonte tirando a fala de uma voz gutural até um falsete, na mesma cena. Falou com uma sensibilidade indescritível de cada um dos atores, do que cada um tinha de potência e de como ele precisava trabalhar cada elemento com cada um. Seu teatro, ele disse ainda, é feito de RISCO e de EXCESSO. 

No manicômio fomos capturados pelos instituídos, falaram de seus diagnósticos (ainda que afirmassem que não estaríamos, de fato, interessados nisso), dos remédios que tomam... ali o contraste entre os atores e os usuários dos residenciais terapêuticos era triste. E ainda se viam pessoas de jaleco branco circulando e um funcionário arrastando um usuário à força para... não sabemos onde.... Camisa de força humana, prisão. É possível desinstitucionalizar um manicômio? A vida pode morar no manicômio? Num banheiro cujas portas não fecham, não tem papel e as privadas não tem tampas, onde não tem água, é possível? Entre janelas de vidros quebrados, frio, chuva e gente com fome o que é possível? 

Os atores então decidem nos mostrar algumas cenas, especialmente uma que causa grande espanto. Um ator grande e com voz grave saiu do hospício e voltou para casa, sua mulher, Marina, faz a comida. Ele arregala os olhos e chega por traz dela, agarrando seus seios, a mulher paraliza mostrando o incômodo de estar com seu louco de volta em casa. A platéia paraliza, um suspiro! Risos incontidos. 

Vale ressaltar que a moça em cena é a única "normalóide" (como a nomeia o diretor) do grupo.

Na sequência vamos ao teatro e a cena que nos faz perder o fôlego é a de Claudio costurando (de verdade!) sua barriga. 

Loucura? 

Corpo sem órgãos? 

Teatro! 

Risco e excesso, Extravagância – o nome da peça!

Vida! - Eu diria.

Deixo-os então com os próprios atores, em cena! E se tiverem a oportunidade de assistir, não percam! Eles estão em turnê por várias capitais do Brasil, ainda que a mídia não divulgue...

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