Pergunte à Cinderela

Juliana Schneider Guterres

Já dizia o poeta “é impossível ser feliz sozinho” – ao que eu sempre concordei sorrindo. Pelo menos, até agora. Quando o meu não-sozinho era passar um par de horas com o namorado do momento e voltar para o meu ambiente protegido (leia-se: a casa de mamãe. Contas pagas, roupas lavadas e guardadas no armário, geladeira cheia, banheiro limpo. A materialidade da vida cotidiana se materializava sozinha, sem que eu precisasse fazer força e, até mesmo, sem que eu me desse conta da sua existência). Sim, é impossível ser feliz sozinho quando se conta com toda a alegria e privilégio de deliberar as tarefas mais nefastas a outrem. Mas, ser feliz juntinho tendo que limpar privada e brigar para decidir quem lava a louça do jantar é uma possibilidade? Existe vida após as tão temíveis obrigações domésticas? Ou ainda, há romantismo que resista ao cotidiano que teima em invadir nossas casas? São essas as perguntas que me faço (e o cagaço que me borra!), na iminência de juntar as escovas de dentes com alguém.

Uma vez ouvi por aí que os clássicos infantis e os felizes para sempre se sustentavam porque a história que nos é contada acaba logo após o beijo. Provavelmente se entrevistássemos a Branca de Neve e a Cinderela alguns anos após o casamento a situação seria diferente. Uma princesa já meio flácida após parir um par de herdeiros com uma narina acostumada às flatulências do príncipe (aliás, aquele senhorzinho gordo e careca sentado no sofá com uma lata de cerveja na mão em nada nos lembra o gentil e amoroso príncipe das páginas anteriores do conto) esbraveja implorando complacência e compreensão do companheiro: “Não joga as tuas roupas no chão, sou eu que vou ter que juntar depois! Dá pra levantar um pouquinho e me ajudar? Olha as crianças enquanto eu esquento o jantar e passo tuas camisas.”

E o que o príncipe nos diria? Talvez que sua esposa viva com dor de cabeça e, ao invés de aconchegar-se no corpo dela, ele procura alívio no banheiro com uma revista de desconhecidas mulheres nas mãos. Que ela olha mais para os filhos do que para ele. Que ela pede ajuda, mas que quando ele a auxilia ela reclama que está tudo errado e diz que sozinha faria melhor. Que o churrasquinho em família dos domingos vira o encontro semanal das mulheres queixosas – cunhadas, primas, sogras e sobrinhas desfiam o rosário de reclamações dos seus tão inúteis maridos. É, elas insistem em apontar suas falhas, mas esquecem-se de elogiar suas qualidades.

Ando pensando que o verdadeiro conto de fadas se faz entre nós, reles mortais. Naquele dia em que ele, sabendo que ela chega do trabalho cansada, se adianta ao preparar o jantar e espera ela na porta sorrindo com uma música suave tocando ao fundo. Ou quando ela, sabendo que é dia de jogo do time dele, resolve não incomodar-se em não ver a novela. Também quando os dois se beijam felizes pela manhã – esquecendo-se de que ela passou a noite puxando as cobertas para cima de si enquanto ele orquestrava uma sinfonia de roncos do seu lado. Ou ainda quando os dois decidem tirar um final de semana a dois e negociam o pouso das crianças nos lares alheios.

Os príncipes e princesas funcionam muito bem para, na infância, nos introduzir no tão necessário mundo do romance, mas aposto que eles não saberiam lidar com o caos pragmático do cotidiano. É preciso ser muito humano para escrever sua própria fábula de felizes para sempre.

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Paula Scaim
    nov 26, 2011 @ 16:09:20

    Oi JU…TAVA VAGANDO POR ESTE SITE, QUE POR SINAL ESTÁ DE EXCELENTE QUALIDADE, E ACABEI LENDO ESTE TEXTO. ESPERO, MESMO, QUE VOCÊ CONSIGA SAIR DESTE PARADIGMA. ESTOU CASADA A QUASE QUATRO ANOS (E CINCO FORA DA CASA DOS PAIS) E NÃO VIVO NEM PERTO ISSO QUE ESTÁ ESCRITO AÍ. ACHO QUE TEM UM PAR DE RESPEITOS DE AMBOS OS LADOS QUE PRECISAM SER MANTIDOS PARA QUE ESTAS IMAGENS ANTIGAS E PRÉ-CONCEITUOSAS POSSAM SE DISSIPAR DA CONDIÇÃO DE ESTAR CASADO. SOMOS SERES SOCIAIS QUE NECESSITAM DE AMOR! E, HOJE, NÃO HÁ NADA QUE NOS OBRIGUE A REPETIR FORMAS DE VIVER JUNTOS COMO DE NOSSAS AVÓS OU MÃES. BEIJOS COM SAUDADES

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