Ilha das Flores

1989

Música: (“Fantasia sobre O Guarani”, de Geraldo Flach, com Zé Flávio na guitarra)

Direção: Jorge Furtado

Produção Executiva: Monica Schmiedt, Giba Assis Brasil e Nora Goulart

Roteiro: Jorge Furtado

Direção de Fotografia: Roberto Henkin e Sérgio Amon

Direção de Arte: Fiapo Barth

Música: Geraldo Flach

Direção de Produção: Nora Goulart

Montagem: Giba Assis Brasil

Assistente de Direção: Ana Luiza Azevedo

Uma Produção da Casa de Cinema PoA

Elenco Principal:
Paulo José (Narração)
Ciça Reckziegel (Dona Anete)

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Tempos modernos

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Créditos:

Carlos Alberto – Bruno Padilha
Ana Carolina – Renata Castro Barbosa
Bubulito – Raphael Véles

Roteiro – pedro HMC
Direção – Felipe Neto e Osíris Larkin
Som direto – Daniel Curi
Produção – Maria Eduarda Magalhães
Montagem – Daniel Curi
Finalização – Osíris Larkin

Fernanda Honorato – primeira repórter com Síndrome de Down

Semana Nacional da Pessoa com Deficiência

 

E viva a não lógica!

Juliana Schneider Guterres

Beijo gay em horário nobre, nem pensar. Mas assassinato gay, pode. Atá! Os postes mijando nos cachorros! A maior emissora de televisão do país (que, ao meu ver, não tem culhão para bancar em rede nacional um beijo homossexual, afinal, como bons capitalistas, tenta-se agradar gregos e troianos. Sem beijos então, isso pode gerar menos anunciantes) dando essa lição aos seus telespectadores. Me choquei, decepcionei! Fiquei puta! Ao invés de promover o amor, o carinho e o desejo – em qualquer forma que esses venham a se dar -, a não lógica da Rede Globo opta por televisionar cenas de violência explícita contra um homossexual. Lá atrás, nessa lógica controversa, deve haver uma mensagem. Mas aí é que está: porque andarmos por linhas nada nítidas quando poderíamos ser mais claros? Beijem-se, abracem-se, acarinhem-se! Eu quero ver a liberdade de ser e viver seus afetos estampadas nas telas, escancaradas nas casas.  Não seria essa a verdade aceitação da diversidade? Qual é a não-lógica que diz que mostrando uma cena de violência incitaremos o altruísmo, a decência e o respeito? Psicologia reversa? Podia funcionar muito bem nas nossas infâncias com nossas mamães nos ameaçando deixar pra trás na rua – quando partíamos em disparada de volta ao rabo de suas saias, mas não venham me trovar que aqui isso também se aplica. Já dizia o poeta: gentileza gera gentileza. Falo por mim, parafraseando o sábio: RESPEITO GERA RESPEITO. E violência, infelizmente, gera violência.

Diferença marginal

Texto e foto de Juliana Schneider Guterres

Última aula. Melancolia de fim de semestre. Depois que todos se vão, converso com meu idoso professor na sala vazia. Ele quer saber o que farei na volta ao Brasil. Lhe digo que volto cheia de planos, mas sem grandes pretensões para a recém chegada – clamando e gramando por um lugar ao sol vou. Me sobram expectativas, mas me falta experiência. Lhe desejo um bom ano. Ele me diz que acredita que não vai voltar para o próximo semestre letivo – a universidade está substituindo velhos professores por outros mais novos. Apertamos as mãos sofregamente, talvez na esperança de, por osmose, fornecer àquele que segura a mão o que se tem de sobra e ao outro falta: sua experiência e meus vinte e cinco anos.

Volto para casa chorando em silêncio. Sofro por um mundo que desperdiça suas periferias. Os velhos, os jovens, os negros, os pobres, as mulheres, os escravizados, os loucos, os famélicos, os doentes, os obesos. Sofro por um mundo que finge não ver suas margens, ao mesmo tempo em que se torna mais marginal. As minorias são maiores que uma suposta classe dominante – branca, masculina e educada –, mas ainda não tem voz suficiente para se tornarem perceptíveis. Quando o são, é ainda como minoria.

Quando chegará a hora de fazermos valer nossa cidadania e exigir justiça não só como um artigo que a constituição nos assegura, mas como realidade na vida cotidiana? É chegada a hora de virar esse jogo e não chorarmos mais pelas nossas feridas e corações partidos, mas darmos as mãos e começarmos a marcha. Pelo que? – dirão, somos todos diferentes, não temos causa única. Lutemos então pelo direito de sermos reconhecidos na nossa diversidade e não para que passemos uma vida inteira tentando nos encaixar nos modelos vigentes. Não queremos causa única, queremos causas múltiplas, novos pontos de vista, diferentes discursos que não nos definam como pobres minorias, mas como cidadãos capazes que somos.

Quero um mundo todo-ouvidos que fuja do just one way e se abra a todas as formas de ser. Um mundo que que me perceba em toda a minha não-maioria, para que eu não volte mais uma noite chorando para casa pelo meu idoso professor e sua inexperiente aluna. 


Eu penso renovar o homem usando borboletas

 

Texto de Juliana Schneider Guterres

 

Amigos, o texto tá “psi”, então para contextualizar quem chega aqui para a primeira mirada, esta é a conclusão do meu trabalho de conclusão (conclusão, conclusão. tão conclusivo, não?) de curso em Psicologia, entregue em novembro do ano passo. Explicado então todos os psis e clínicas citados no texto. Não me canso de ler.. E acho que ainda tenho muito que ler, escrever e pensar sobre o assunto. Mas ficam algumas linhas que concluem meus oito anos de formação e iniciam toda uma outra caminhada do agora em diante. Espero que vocês tenham o mesmo prazer que eu ao circular os olhos e afetos pelas seguintes linhas..

 

 

A maior riqueza do homem é a sua incompletude.

Nesse ponto sou abastado.

Palavras que me aceitam como sou – eu não

aceito.

Não agüento ser apenas um sujeito que abre

portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que

compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,

que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.

Perdoai.

Mas eu preciso ser Outros.

Eu penso renovar o homem usando borboletas[1].

 

Palavras que me aceitam como sou, eu não aceito. Eu preciso ser outros. É preciso ser outros. É preciso ser vários, múltiplos, plurais. É preciso não ser preciso, mas flutuante, cambiante. Habitar paradoxos. Caminhar nos descaminhos. Por isso e para isso acredito em uma clínica militante, combatente, participante. Clínica do empoderamento, da autonomia. Clínica que renova o homem usando borboletas. Criação. Criar ação. Clínica-vazão – de fluxos, de afetos, de gentes. Passagem para outros sentidos possíveis. Clínica que sabe, mas que também sente.

De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não, de certa maneira, e tanto quanto possível, o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar e refletir[2].

Formigar as configurações estabelecidas, as rotas formais. “Repetir repetir – até ficar diferente”[3]. Não podemos cessar de problematizar as relações que estão instituídas e dadas como certeiras. É necessário mudar o foco, alterar o ângulo, adotar perspectivas outras, “transver o mundo”[4]. “Fazer o inconexo aclara as loucuras. […] A sensatez me absurda”[5]. Faz parte da Psicologia, ou do que entendo dela, ser experimentação e aventura, processo incessante de deriva de si no jogo de forças da vida. Lutemos para intensificar o plano dos fluxos, rumo a uma existência de movência.

Clínica e crítica. Crítica e clínica. Produzir crise na homogeneização e abrir portas para novas formas de vir-a-ser. Linhas de fuga não para fugir do sistema estabelecido, mas para fazer fugir certos sistemas que estão fundados sob a invasão e colonização de nossos corpos e mentes.

O papel do intelectual não é mais o de se colocar “um pouco a frente ou um pouco de lado” para dizer a muda verdade de todos; é antes o de lutar contra as formas de poder exatamente onde ele é, ao mesmo tempo, o objeto e o instrumento: na ordem do saber, da “verdade”, da “consciência”, do discurso[6].

Parafraseando Foucault, o papel do psicólogo é o de lutar contra as formas de poder exatamente onde ele é, ao mesmo tempo, o objeto e o instrumento, na ordem do saber, da verdade, da consciência, nas trincheiras da clínica. Precisamos nos afastar do solo dogmático das verdades, da universalidade e da homogeneização e trabalhar no plano do novo, do único, do incerto, da multiplicidade. Nem à frente, nem ao lado, mas entre. No encontro. Abrindo (des) caminhos.

Sonho com o intelectual destruidor das evidências e das universalidades, aquele que observa, nas inércias e nos constrangimentos do presente, os pontos de fraqueza, as aberturas, as linhas de força, aquele que, sem cessar, se desloca, que não sabe exatamente aonde estará amanhã, pois é demasiado atento ao presente[7].

Psicólogos do presente, das inquietudes do viver. Resistam. Re-existam. Destruam evidências, componham novas cenas. Porque nos diz e faz pensar Michael Moore, em seu mais recente documentário[8], “eu me recuso a viver em um país como este. E eu não vou embora”. Então, mudemos! Arregacemos as mangas e coloquemos mentes, corpos e afetos em campo. É preciso ser outros. É preciso acreditar e investir na

possibilidade de (re) inventar continuamente uma clínico-política que […] possa ativar em nós o comum de uma atitude crítico-criadora de territórios existenciais singulares, os quais, conectados às forças produtivas, consigam permanecer escapando das medidas normalizantes impostas pelo capitalismo[9].

Como eu dizia no início deste trabalho de conclusão – mas também de experimentação, de invenção –, a proposta era criar dizeres que não apenas ditam, mas que se implicam ao dizer. Mais do que escrever linhas e mais linhas de texto acadêmico, ensaiava e ansiava por rabiscar linhas de fuga – para mim e para tantos outros. Pensar diferente do que pensava, perceber diferente do que percebia. Dou-me por satisfeita, pois creio que consegui dar conta, em alguma escala, de tal intento – mesmo sabendo que este é um trabalho que perdura por toda uma existência, sendo arquitetado e sustentado nas e para nossas práticas cotidianas. Mas saio diferente dessa passagem, sou outra, outros. E isso se reflete diretamente na clínica que venho construindo e nas relações que teço com as pessoas e coisas que me circundam e com as gentes a quem dirijo e com quem desenvolvo diariamente o meu fazer.

Termino sabendo que ficou muito por ser dito, mas sempre ficará. O que restou é mar, é tudo o que eu (por enquanto) não sei contar – salve a música e a poesia, que tanto me afetam nas minhas caminhadas. Não tenho mais a pretensiosa (e falsa) ilusão que tinha no início da faculdade, a de que daria conta da totalidade e completude do outro – até porque como nos lembra Manoel de Barros “a maior riqueza do homem é a sua incompletude”[10]. E “há tempos que eu já desisti, dos planos daquele assalto, de versos retos, corretos”[11]. Trabalho para que essa riqueza possa seguir viva dentro de cada um, trançando por caminhos incertos, tortos, para que os sujeitos possam navegar por seus próprios córregos e não para que sejam enxurrados por águas de fora que querem lhe afogar.

Acreditar no mundo é o que mais nos falta; nós perdemos completamente o mundo, nos desapossaram dele. Acreditar no mundo significa principalmente suscitar acontecimentos, mesmos pequenos, que escapem ao controle, ou engendrar novos espaços-tempos, mesmo de superfície ou de volume reduzido. […] É ao nível de cada tentativa que se avaliam a capacidade de resistência, ou, ao contrário, a submissão a um controle[12].

Investindo nos pequenos gestos e afetos, apostando no mundo e nas gentes, sigo. “Agora é só puxar o alarme do silêncio que eu saio por aí a desformar”[13].


[1] BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010. p. 374.

[2] FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 2: o uso dos prazeres. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque. Revisão técnica de José Augusto Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1984. p. 15.

[3] BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010. p. 300.

[4] Idem, p. 350.

[5] Idem, p. 339.

[6] FOUCAULT, Michel. Verdade e poder. In : FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979. p. 71.

[7] Idem, p. 38.

[8] CAPITALISMO: uma história de amor. Direção: Michael Moore. Documentário, 2009. 1 DVD (120 min.), son., color.

[9] MONTEIRO DE ABREU, Ana Mari do Rego; BOUÇAS COIMBRA, Cecília Maria. Quando a clínica se encontra com a política. In: KUPERMANN, Daniel; MACIEL JUNIOR, Auterives; TEDESCO, Silvia (org.). Polifonias: clínica, política e criação. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria / Mestrado em Psicologia da Universidade Federal Fluminense, 2005. p. 47

[10] BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010. p. 374.

[11] LISBOA, Nei. Telhados de Paris. Intérprete: Nei Lisboa. In: HEIN?! RJ: EMI-Odeon, 1988. 1 CD. Faixa 9.

[12] DELEUZE, Gilles. Conversações (1972-1990). Tradução de Peter Pal Pelbart. 2ª ed. São Paulo: Editora 34, 1992. p. 222.

[13] BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010. p. 350.