Sem “bla”, sem “mas”, sem “se”.

Tu mastiga com a boca aberta,

é machista e egocêntrico.

Porém, nada me enerva

como os sentidos que tu nega.

                                                        [Não podemos ter trégua?]

Afirma que não tem paladar,

que a sociedade não é azeda.

E por falta de olfato                       [e de opção],

não cheira a corrupção.

                                                        [Mas e se me negarem o pão?]

Nada vê com clareza,

sem de outros a influência.

Sempre não. Não mudar,

não criticar, não testemunhar.

                                                         [E se minha família se machucar?]

 D’accord, d’accord!

Sem “bla”, sem “mas”, sem “se”.

Sei que uma surdez súbita te ataca

quando gritam as que chama de fraca.

                                                           [Tu não entende, não percebe.

                                                            E se me publicarem responsável?

                                                            Se apagarem meu nome, minha história?

                                                            Se me tratarem como escória?]

Então,

serás livre.

Livre.

                                                           [Livre.]

Por Janaína Bordignon

Corte

Te encontrei finalmente, depois de tanto tempo. Sabia que estaria diferente. Digo, de cabelo cortado, vestindo novas idéias, escondido atrás de camisetas mais limpas. Ensaiei mil vezes te ver com a nova namorada. Eu sorriria amarelo-vômito e evitaria as ruas cujos muros contavam nossa história. Mas há tempos não compartilhávamos rotas. E teu único relacionamento sério era com a própria desgraça.

Tuas costelas desafiavam os limites da pele, tuas olheiras eram fundas, teu odor e teu tom denunciavam teu fim. E teus olhos, vazios (Ah! Te arranquem as bolas mas não aquele brilho nos olhos!). Que não comia há uma semana, tu me confessou. Eu, sendo eu e nunca tu, ri nervosa e brinquei “o que gasta na pedra economiza na comida! Há!”. Tu, sendo uma casca vazia e também não tu, – não o tu quente, não o tu especial – me encarou sem reação. “É a nóia”.

Sorri e me virei para ir embora. Quem diria que até eu cansaria de aceitar só teus restos. Teus pulmões terminais roubavam todo o oxigênio do elevador. Entenda, eu tinha que partir. Por nós, pela lembrança. Tu me puxou pelo braço com força, quase me machucou. Tu ainda tinha emoções, expressões, reações! Ah, reações, químicas, biológicas, imediatas! Te olhei nos globos oculares, pronta para a resposta de final de novela das 8. Mas tua confissão de amor não veio. Veio o medo. E logo depois veio a faca. Mas o que me cortou foi a pergunta. “Não tem grana aí pra me ajudá?”

Texto de Janaína Bordignon, inspirado na vida de tanta gente que ela conhece.

Corpo de qualquer um(a)

Meu corpo podia ser o de qualquer uma,

conta a história de todo mundo

mesmo que a minha doa mais fundo

Odeio esse corpo. É sério.

Ele prende, limita, cansa

sem pedir, te deixa sem esperança.

Voo alto, olho pra baixo

pro meu corpo cansado e marcado

e sonho um sonho desesperado.

Sonho que arranco a genitália,

pinto a pele com corais,

multiplico as cordas vocais,

as unhas dos pés,

a paciência,

quem sabe até removo a tal decência.

Odeio tudo nele que me denuncia,

que não me deixa fazer parte da turma.

Ah, meu corpo podia ser de qualquer uma.

Poema de Janaína Bordignon

Te olho

 

Te olho.

As pessoas gritam do lado de fora.

Sangram por dinheiro, fogem do agora.

Mas eu  te olho.

Choro.

Pelas imigrantes, pelos negros.

Ridicularmente pagas, injustamente presos.

Como choro.

Grito.

Contra o bullying, o abuso, a corrupção.

Pela falta de voz, de respeito, de emoção.

Grito. Grito. Grito.

Sorrio.

Em meio a toda hipocrisia, todo preconceito,

tua mão agarra a minha e acelera meu peito.

Te olho. 

– Janaina Bordignon e como ela se sente sempre que

ela pensa em que lê o nosso blog (:

Sim, a gente se importa com o estupro.

Entre uma festa e outra nos States, conheci uma moça que me marcou como poucas. De imediato, a personalidade forte dela atraiu a minha e viramos, tipo assim, best-friends-forever-oh-my-god, na falta de melhor termo. Para fins ilustrativos, chamemos-a de Fernanda. Ou seja, o nome verdadeiro dela com certeza não é Fernanda (só pra deixar claro).

A Fernanda é uma mulher independente e decidida, linda e inteligente, poliglota e culta. Ela é assim uma super mulher, que voa com capa e tudo de Norwalk a Nova Iorque para pagar seu aluguel, seus drinks, seus estudos e qualquer porra que ela quiser. Ela tem tanta força, tanta energia, que ela podia mudar o mundo se ela quisesse. Mas ela não consegue, ela tem tantos conflitos internos que o seu corpo cansa antes mesmo de acordar de manhã bem cedo. E sabe o que causou tamanho desperdício de ser humano?

Em um bar pós-2-cosmopolitans-e-3-mojitos, ela confessou que foi estuprada pelo ex-namorado quando ele, drogado, arrombou a casa onde ela mora e a esperou voltar do trabalho. Obviamente, a vida dela nunca mais foi a mesma. Obviamente número dois, eu nunca pedi se o filho da puta (peço desculpas pelo meu léxico, brocha pau no cú soa mais adequado para vossa senhoria?) foi punido. Eu sabia que não, ela não podia contar com o sistema patriarcal para punir um homem. Há.

Claro, ela tinha vergonha do próprio corpo, da categorização social, mas acima de tudo ela se sentiu merecedora. Dá pra acreditar? Como alguém pode merecer ser estuprada/o? Afinal de contas, foi ela que um dia namorou e mostrou onde morava. Também foi ela quem entrou em casa apesar de ter notado a porta arrombada. E como se não bastasse, ela teve a audácia de tentar acalmá-lo apesar da cocaína, da corda que ele tinha no bolso, do desrespeito que ele carregava nas mãos. Ela me contou que ainda lembra o cheiro de cigarro emanando dele, mas eu acho que ele cheirava mais à covardia e à necessidade de provar algo para si mesmo (talvez que, assim como o Pinóquio, ele era um menino de verdade agora?).

Mas não interessa, porque foi ela quem pediu, não foi?

Não?

Que sistema é esse?  Que incita violência e a etiqueta como sexy, que diz que “paus e pedras podem quebrar os meus ossos, mas chicotes e correntes me excitam”? (RIHANNA, cantora pop tão talentosa que é mencionada pelo tamanho da bunda e pela beleza das pernas, 2011, S&M ou algo do gênero).  No entanto, quando as mulheres são tratadas como na TV (que, a propósito, é ficção), e tem a coragem de exigir os direitos humanos universais para si, esse mesmo sistema diz que “elas pediram por isso”, “que ela provocou, porque no fundo ela queria”. Mas esse não é o ponto.

Peraí, então sim tu tá me dizendo que esse post gigante tem um ponto?

Talvez o ponto seja quem paga o preço. Graças a uma alteração na legislação (Art. 213 e 214) em 2009, tanto homens quanto mulheres são reconhecidos/as como vítimas de estupro, portanto a própria lei diz que todos/as pagam o preço. Pela segunda (talvez terceira?) vez na vida, concordo; todos/as pagamos quando a sociedade transforma indivíduos com tanto potencial em meros corpos em movimento, sem auto-estima, sem respeito, sem esperança.

Chega? Acho que sim, né?

[desabafo de Janaína Bordignon]

Nossas crianças (:

Durante meu estágio essa semana – em uma escola bilíngue em Bridgeport, Connecticut – me peguei olhando para aquelas crianças. As crianças do jardim de infância, cuja maior missão era abrir a sacola e comer aqueles morangos norte-americanos nada naturais; as crianças da segunda série, que buscavam acima de tudo a aprovação da professora, que por sua vez buscava a própria aprovação; e os/as adolescentes da sexta e sétima série  – intensamente indescritíveis.

As professoras chamavam “os/as indisciplinados/as”, ressaltando defeitos a tal ponto que a posição de inferioridade na qual eles/as eram colocados/as os/as tornavam controláveis. Impotente, perguntei-me o que eu diria a eles/as se eu fosse livre de qualquer obrigação física, profissional ou de etiqueta. Perguntei-me se algum dia fui livre.

Eu diria àquelas lindas criaturas que a vida deles/as não vai ser fácil por uma série de motivos. Que na verdade a vida é tão difícil quanto eles/as farão dela. Que eles não tem que ser idiotas para ser homens de verdade. Que elas não precisam ser magrelas e sexy para ser amadas ou respeitadas (ou ambas, se possível). Que a TV e as revistas os/as deprimem de propósito por simples lucro. Que é cool conhecer o que faz de cada um(a) de nós único/a. Que o que é cool mesmo é sentir.

Ah, os sentimentos. Que eles/as todos/as deviam ter sentimentos. Que não é errado chorar no final do filme triste. Que não é fraqueza permitir-se tocar por tragédias do outro lado do mundo. Que o mundo não muda sozinho. Que as pessoas não se sentem melhores quando ficamos sentados/as e fazemos nada. Que não importa como, mas que eles/as tem que achar uma forma de se expressar. Que violência não é uma dessas formas. Que ser louco nesse planeta é um elogio. Que nada vai ficar bem só porque as pessoas dizem que tudo vai ficar bem. Que o nosso voto faz a diferença. Que eles/as deviam se informar sobre a política, já que a política (e a politicagem) regem as oportunidades de vida que eles/as recebem. Que o ativismo – qualquer seja sua forma – é a única resposta.  Mas ah, se eu pudesse falar para eles/as sobre os sentimentos.

E você, o que diria para nossas crianças?

– Texto escrito por Janaína Bordignon

– Foto disponível em http://www.stumbleupon.com/su/2VuXD6/www.colerise.com/.

Saudades

Que se danem as formalidades.

As rimas, as igualdades.

Para o inferno com a etiqueta,

com a gratitude, com essa letra!

De nada valem as tardes de sábado,

Se não te tenho comigo

e sozinha sigo,

no meio de todo mundo..

 

E assim estampo com orgulho

a saudade que me mata

e que não apaga

as malditas linhas do mapa.

 

Que ninguém me acorde!

Me chame, me suporte

pois não quero te superar,

me esquecer, te abandonar.

Ai de quem me fizer feliz!

Quero te lembrar

nas cabeças douradas

Nas idéias ousadas

Quero ouvir tuas risadas, ecoando no ar.

 
Poema de Janaína Bordignon, pra ti 🙂

 

 

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