No buraco da fechadura (pra Juliana)

Jonas Lewis

E quando somente são as buzinas? Quando são árduos os dias e as noites nem tem colorido? Deixa na alma o mundo uma espécie de sonho impensado, que ao berro do primeiro berro não almejamos conhecer. Somos cobertores quentes desabrochando devagar à imensidão iluminada, carentes e incapacitados de conhecimento. Podemos inundar a alma num choro instintivo, transbordando em verdade ilógica, pedindo o seio. E é o que resta. É o que vale. Não cabe-nos julgar o que virá o que deveras merecíamos.

Mas o dia apresenta-nos arpões, farpas hipócritas chamadas automóveis. A noite escorre suores indecentes por nossas coxas insaciáveis e somos pássaros de espécie desconhecida, caramujos com insônia que vagam pelas capitais e trabalham no campo. Desconhecemos gente, conhecemos chaves, fechaduras e senhas. Abrimos o peito aos cremes doloridos da saudade e mesmo assim não buscamos curá-la, feri-la com nossas unhas insossas de leão sem raça.

Alguém um dia bate em nossa janela, silencia as buzinas que atordoam o sono. Com algum pincel que traz escondido, esbarra cores aleatórias em nossas noites escuras. Berra conosco num falsete tão belo que faz acorde, e fechamos os olhos num beijo que desabrocha devagar. Inundamos a boca, e os lábios, aí sim, dessa vez fogem à lógica, numa infinitude longínqua chamada dança. São passos que descontrolam o tempo e é o que resta. É tudo que vale, outra vez, como crianças.

De novo a noite, mas o suor agora é suco de nossa alma. Reconhecemos a espécie e vagamos querendo ciência, reconhecendo gente, escancarando o peito e matando a saudade um do outro. Cravamos as unhas e entregamos nossas chaves, perdemos nossos bens e mostramos o mau que ainda nos resta. As cores aleatórias do quadro da noite tomam rosto de pintura. Arte ou não, exposta ou não, é nossa casinha com nossa árvore e nossa nuvem de algodão.

Lá fora ficam os carros, as casas frias de cimento e vigas, as nuvens de verdade, os caramujos, as coxas e as noites sem quadro, inóspitas suando frio. No buraco da fechadura, sobra o que deveria ter sobrado sempre: o amor.

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