Eu sangro poesias baratas

 

Giovanni Andersen Garcia

Perder-se é o ato mais “natural” de nós humanos. Conter seu fluxo é nosso maior erro. Sei que meu corpo é fluido e que escorro pela vida, ocupando frestas, erosando a terra. As dúvidas são como jarras que aprisionam nosso fluir, alteram nossas margens. São barragens no nosso destino de homem. Quero não resistir a você. Meu peito está aberto. Vem ocupar-me com tua vida! Abandono os remos e deixo que o fluxo me conduza na tormenta do amor, cambiando dia e lua, noite e sol,  namorando a chuva e desenhando em minha memória seu rosto. Fecho os olhos e você está aqui. Quando olho para o sol que surge por trás das tímidas nuvens revelo-te meu sorriso no arco-íris que coroa o encontro de dois – sol e chuva juntos a fazer vida. Que venha mais… vida que me atravessa o corpo e rasga minha alma. Eu sangro poesias baratas.

Conheci um homem

Texto de Giovanni Andersen. Para Jader Girotto.

Eu conheci um homem e me perguntei: o que lhe faz ser o que é?  Coragem ou fibra moral? Caráter? Às vezes tenho muito medo das pessoas, deixo-me fluir pensando.. do que elas são feitas e o que as tornam fracas? Feitas de covardia, fracas de coragem? Feitas de corruptudes, fracas de fibra moral? Feitas de escambos, fracas de caráter? O que nos faz ser machos, homens? O inconsciente, crente de que as coisas são do jeito que são por que é assim que tem que ser ou consciente, devoto de que a vida é processo que se constrói diariamente articulando-se com os interesses de quem detém o poder sob os viventes?

O que me faz ser quem eu sou?  Às vezes tenho muito medo de descobrir que não sou quem penso ser. Examino-me mentalmente na busca de responder: sou fraco de covardia? Sou  fraco de corruptude? Sou fraco de escambo?

Acredito-me um bom homem consciente. Será que sou mesmo? Sou um bom homem? Tenho mesmo uma natureza corajosa? Possuo caráter e fibra moral em minha personalidade? Posso eu responder esses questionamentos sem temer a resposta e sem iludir-me?

Eu conheci um homem, na verdade um garoto, que redefiniu pra mim o conceito de hombridade. Porque coragem é olhar-se e dizer sim para o que vê. Fibra moral é assumir-se sem reservas e dogmas. Caráter é colocar-se dignamente em tudo que faz.

Esse homem-rapaz de alma feminina é capaz de doar-se, entregar-se. Devota amor, carinho e zelo, candura e charme de fêmea em um corpo de homem.

Eu conheci um garoto que atende pelo nome de coragem, um menino que brinca com sua imagem por que sabe o que é, um rapaz que legitima-se por que é a própria dignidade.

Eu conheci um homem chamado Jader.

Solidão

Uma tempestade

Ou apenas uma chuva torrencial

Não me importa

Fico na janela

Imaginando

Aguardando…

Para que quando chegues

Seja minha a mão que abrirá a porta

Sejam meus os braços que o confortarão

Seja minha a boca que o beijará (…)

Mas enquanto isso não acontece

Continuo aqui sentado, imaginando…

Observando a rua

Banhada em minhas lágrimas.

Poema de Jader Girotto, inspirado em Giovanni Andersen Garcia

Acabo de me suicidar para uma nova vida

Texto de Giovanni Andersen a um amigo que andava desistindo da vida

Não creio ser a pessoa mais indicada a te ajudar ou mesmo aconselhar, mas muito me preocupa te ver assim tão melancólico. Não serei aqui um otimista-moralista-hipócrita, te dizendo que a vida é linda, bela e florida, pontuada por dias azuis e noites mornas de luar. Sabemos que há dias de muita chuva e trovoada. Também não sou o tipo de cara que acha que a vida vale a pena a qualquer preço ou custo. Sou franco em dizer. Penso que as pessoas têm sim o direito de escolher se querem seguir vivendo uma vida que lhes é satisfatória ou não e isso implica também em decidir por ceifar ou não a própria vida. O que eu posso te dizer, amigo, é o que o Giovanni faz. E eu não acredito na morte. Assim só me resta a vida, e eu quero vivê-la da forma que for – com risos e lágrimas, com amores e rancores, mesmo que tenha a carne e a alma rasgada, que a dor venha em busca de aconchego. Eu não tenho outra escolha a não ser buscar uma vida mais satisfatória. E eu o faço constantemente, amigo. Nesse exato momento, estou matando um eu, uma vida que não me servia – acabo de me suicidar para uma nova vida. Uma nova vida que também vai me maltratar, mas é assim, nada é constante, nada é eterno, tudo é o mesmo e o contrario. A pergunta então é o que você esta querendo ver. Que vida você quer ter? Mude o que não esta bom. Mate essa vida que te traz lágrimas, angústia e melancolia e saia em busca de outras formas de viver! Não se deixe ser vítima em uma história que você tem o poder de escrever e reescrever. Abandone o desejo pela morte e conforme-se de que só temos a vida mesmo. Assim sendo, aproveite o período que é a vida. Viva a consciência de estar vivo, vivendo cotidianamente. Respire e sinta que seu corpo é uma vida, e que vive na sua consciência. A morte é só a inconsciência e nada mais. É isso o que penso, é dessa forma que Giovanni encara a vida!

Ciranda

Por Giovanni Andersen Garcia

Um corpo que gira e roda sem parar. Roda, redemoinho, roda a pensar. Um corpo que gira, pula, dança, roda e roda pelo ar. Um corpo que cai, um corpo a sangrar. Um corpo que parte para buscar-se. Corpo gira, corpo grita, corpo canta, corpo dança, corpo sangra, corpo corpo.

Um corpo que chora o que se vai. Um corpo que não vê o que se tem. Um corpo que ri aflito para o que não vem. Corpo, um corpo.

Um corpo só, só um corpo só. Um corpo que não mais. Um corpo que resiste ao aqui jaz. Um corpo – um grito. Um corpo – um riso. Um corpo – um suicídio. Um corpo arrependido. Um corpo violência da carne, violência da alma. Um corpo de risos químicos. Um corpo de lágrimas químicas. Um corpo de desejo químico. Um corpo químico, vida química, morte química.

Um corpo que gira e roda sem parar. Roda e gira a gritar.

Um corpo que gira e roda sem parar. Roda e gira a pensar.

Um corpo que gira e roda sem parar. Roda e gira a amar e gozar.

Um corpo que gira e roda sem parar. Roda e gira a sofrer sem lamentar.

Um corpo que gira e roda sem parar. Roda e gira a esperar que a vida o venha buscar.

Um corpo que já não mais pode ser, a não ser o Ser que só pode se pensar ser. Um corpo que o corpo já não mais pode ser, a não ser o corpo que pensa ser. Um corpo que já não mais tem alma, a não ser a alma que pensa ter. Um corpo que já não mais tem vida a não ser a vida que pensa ter.

Um corpo que insiste, persiste, resiste ao que pode vir a ser.

Um corpo que gira e roda a roda da vida na busca da morte.

Um corpo que gira e roda na dança da morte. Um corpo que gira e roda – é verbo no poema da morte. Um corpo que gira e roda no beijo vivo com a vida morta.

Um corpo que gira e roda, escapando do tempo, escorrendo na vida, mergulhando na morte.

Seu corpo que gira e roda em torno da vida, que gira e roda no entorno do meu corpo, que gira e roda em torno da vida, que gira e roda no entorno do seu corpo.

Um corpo que gira e roda vivo. Nossos corpos que giram e rodam juntos vivos.

É assim que sei ser vivo – em e com corpos que giram juntos.

O retorno de Saturno

Por Giovanni Andersen Garcia

Sobre meu teto astral pesa a sombra do retorno de Saturno. E assim é como reza a lenda astrológica – minha vida não mais é o que era, estou de ponta cabeça. Tudo esta desordenado, tudo é caos, meu corpo rebela-se contra a minha lógica e razão. Vivo uma rebelião interna. Fujo de mim como que se pudesse esconder-me  de minha consciência, mas encontro-me, castigo-me, aplico-me penas, atiro-me ao cárcere, vivo a tão narrada bipolaridade. Grito: QUEM ÉS TU? Mas o que tenho é apenas um reflexo que me devolve a pergunta no ato: quem és tu?

Rasgam-me corpo, mente, vida. Deixa-me exposto, obriga-me. Diz quem eu sou, narra quem eu foi, ridiculariza-me, humilha-me, leva-me ao choro, exige auto-piedade.

Corpo exposto, vida exposta. REVOLTA! Declaro guerra, travo as batalhas! Um Quixote que é seu próprio moinho de vento, cavaleiro errante. Por onde andará minha Dulcineia? Onde eu estou? Perdido dentro de mim mesmo, corpo e mente disputando por autonomia. DILACERAÇÃO. ESQUIZOFRENIA.

Para onde vou? Se há uma resposta, esta guardada pelos astros – e a mim não interessa saber. O que quero é o que tenho: inconstância.

Meu corpo é um astro que busca orbitas errantes a fim de entrar em rota de colisão. Colidindo corpos, encontrando astros. VIVER VIVO! A fusão transcendental – corpo, mente, sexo, gozo.

Se antes tinha medo de saturno pairando em meu mapa astral, agora o saúdo! Saúdo a liberdade, o sol, que podem entrar em minha carne depois que saturno destruiu tudo.

Tenho agora um CORPO LIVRE!

Metamorfose

Giovanni Andersen Garcia

Eu tenho algo assim… vivo. Algo que me preenche e sustenta… vivo. Sinto o movimento desse algo percorrendo o meu corpo – o sei em meus poros e vísceras. O sei, em meu sangue. O sei, em minha face, em minha alma gritante – carne viva, alma viva, água viva. Esse algo me governa – que  me leva a guerra e me traz a paz.

Esse algo que vive dentro de mim, articula meus desejos, manipula o meu humor, embaralha meus pensamentos, me faz acreditar, me deixa mentir, me faz amar, me deixa odiar e chorar. Esse algo é vida em mim,

Eu tenho algo que não mais cabe em mim. Esse algo é agora um verbo que se articula enquanto Eu.

Esse algo vivo que ainda me ocupa e me faz Ser agora flui para fora de mim.

Não mais o sinto percorrendo meu corpo, não mais o sei se fazendo alma. Esse algo assim… vivo, que me deixa e ao me deixar, me faz imóvel, raso, árido. Ganha corpo, hálito e verbo e se faz vivo fora de mim.

Esse algo abandona meu corpo, deixa-me de peito aberto, veias escorrendo sangue, lágrimas e suor e leva consigo minha carne, meus sentimentos, meu olhar, minha voz – a deixando para trás o que sou, o que fui.

Eu sigo assim vivo dentro de algo. Percorro seu corpo, estou em seu sangue, sou seus músculos, sussurro verbos em sua memória, eu sou um poema e o poeta, o algo vivo que outrora vivia em mim.

Eu tenho algo assim… vivo. Sou autor de minha própria metamorfose. Meu corpo é casulo que nutre meus sonhos, que transmuta minha alma e se rompe para o meu ressurgir.

Esse algo que vive dentro de mim… sou Eu!

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