Accademia della Follia em Porto Alegre

Pensei na Reforma Psiquiátrica, no estar com o grupo de teatro de Trieste: Accademia della Follia. Filhos da Lei 180 na Itália.

"Nós não fazemos teatroterapia, nós fazemos teatro", "Eu sou louco, não doente" dizia o diretor Claudio Misculin, ali não era um debate sobre Reforma era um efeito de Reforma em ato, era um efeito de vida da Reforma. Encontrei-me com aquelas pessoas na universidade, no dia seguinte dentro do manicômio (Hospital Psiquiátrico São Pedro) e no seguinte ainda, no teatro. 

As capturas dos discursos foram completamente diferentes em cada um dos ambientes, claro! Na universidade Claudio nos falou sobre seu método de fazer teatro, da memória que fica no corpo e por isso fazem os exercício de cena correndo, fazendo flexões...falou nos três pontos de onde saem a voz no corpo (peito, garganta e testa). Deitou-se no chão, fez flexões engolindo ar, e na sequência levantou-se sendo Creonte tirando a fala de uma voz gutural até um falsete, na mesma cena. Falou com uma sensibilidade indescritível de cada um dos atores, do que cada um tinha de potência e de como ele precisava trabalhar cada elemento com cada um. Seu teatro, ele disse ainda, é feito de RISCO e de EXCESSO. 

No manicômio fomos capturados pelos instituídos, falaram de seus diagnósticos (ainda que afirmassem que não estaríamos, de fato, interessados nisso), dos remédios que tomam... ali o contraste entre os atores e os usuários dos residenciais terapêuticos era triste. E ainda se viam pessoas de jaleco branco circulando e um funcionário arrastando um usuário à força para... não sabemos onde.... Camisa de força humana, prisão. É possível desinstitucionalizar um manicômio? A vida pode morar no manicômio? Num banheiro cujas portas não fecham, não tem papel e as privadas não tem tampas, onde não tem água, é possível? Entre janelas de vidros quebrados, frio, chuva e gente com fome o que é possível? 

Os atores então decidem nos mostrar algumas cenas, especialmente uma que causa grande espanto. Um ator grande e com voz grave saiu do hospício e voltou para casa, sua mulher, Marina, faz a comida. Ele arregala os olhos e chega por traz dela, agarrando seus seios, a mulher paraliza mostrando o incômodo de estar com seu louco de volta em casa. A platéia paraliza, um suspiro! Risos incontidos. 

Vale ressaltar que a moça em cena é a única "normalóide" (como a nomeia o diretor) do grupo.

Na sequência vamos ao teatro e a cena que nos faz perder o fôlego é a de Claudio costurando (de verdade!) sua barriga. 

Loucura? 

Corpo sem órgãos? 

Teatro! 

Risco e excesso, Extravagância – o nome da peça!

Vida! - Eu diria.

Deixo-os então com os próprios atores, em cena! E se tiverem a oportunidade de assistir, não percam! Eles estão em turnê por várias capitais do Brasil, ainda que a mídia não divulgue...
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Braian Gehlen. Poeta.

Contribuição de um amigo querido: Braian Gehlen. Ele também se importa. Com arte.

 

 

O telefone toca
Enquanto abro a porta
A sala está deserta
A não ser pelo arranha-céu
Que desabou
Ou será o teor da vodca
Na garrafa de vidro
Como são de vidro
Teus olhos que não bebi
Mesmo assim
Ainda me perco
Não há ninguém no corredor
Tem cheiro de cigarro
No apartamento ao lado
O beijo no espelho com sabor
Tive um sonho breve
E outra noite se passou
Tudo bem, a vida continua
Esperando pelo elevador