Alice que mora em mim

Chamei Alice para contar o que estava na dobra da folha amarelada pelo tempo. O tempo esmaeceu. Estava cansado de ser ignorado. Alice ficou surpresa ao ver o tempo tão cabisbaixo. Sentiu-se tocada pela tristeza que emanava dele por aquela voz amarela que vinha da folha. Chamei e nem disse quem era, mas ela veio mesmo assim. Ela sempre vem. Daquele encontro de Alice com o tempo brotou cansaço, Alice esmaeceu ao lado do tempo e os dois ficaram amarelados como a folha. Amarelo queimado, envelhecido, esquecido.

Eu queria esquecer. Alice queria surpresa. Ela era a menina que morava em mim nas noites vagas das portas abertas. Era quem me entregava o fio para que eu não me perdesse. Ela vagava despreocupada pelos meus labirintos escuros enquanto eu temia. Era ela quem me acendia a luz e tirava o Minotauro do caminho conversando com ele. Era quem me fazia rir. Era também no colo dela que eu deitava quando tinha medo.

Geralmente trazia seu sorriso no rosto e só às vezes ficava triste. Quando ficava triste ela buscava outros colos nos quais podia deitar.

 

Alice, Ideia e coelho branco

Alice parada na porta esperava Ideia chegar.

Ideia demorava, estava perdida pelas ruas largas da Fantasia. Deitou entre as dobras macias da pele de um coelho branco. Não tinha pressa. Alice já estava impaciente, seu estar-no-mundo dependia da Ideia que não vinha. Ora o que pensava essa ideia? Abandoná-la assim? Um absurdo era! E Ideia nem aí… Deixava Preocupação namorar Preguiça no pelo branco do coelho. E enroscava-se ela mesma do outro lado e adormecia tranquila.

Alice furiosa ia e vinha da porta, fazendo ressoar Inquietude desejando que Ideia ouvisse. Queria ressoar o silêncio da ausência de Ideia para ver se ela voltava. Ideia nem estava… Ficou por lá deitada nas peles do coelho sob o sol, até que este resolveu se pôr, daquele jeito glorioso que só ele sabe.

Alice cansou de esperar e resolveu procurar Ideia para trabalhar. E veja só, logo encontrou ideia ali bem tranquila, aconchegada nas peles do coelho branco vendo o sol se pôr. Chegou perto Alice furiosa, vulcão jorrava lava do olho e Ideia fitava-a tranquila. “Ao invés de me tirar daqui”, disse ela, “venha sentar e sentir a beleza de uma Ideia calada aos pés de um sol se pondo…”.

Alice rosnou, mas não tinha remédio! Ideia só trabalha quando quer.

Sentou e aos poucos percebeu a fúria abrandar-se cedendo terreno para o sol-se-pondo-ao-lado-de-Ideia. Viu a beleza da união. Suspirou e sentiu-se acalmar.

Só então Ideia aceitou conversar.