Sem “bla”, sem “mas”, sem “se”.

Tu mastiga com a boca aberta,

é machista e egocêntrico.

Porém, nada me enerva

como os sentidos que tu nega.

                                                        [Não podemos ter trégua?]

Afirma que não tem paladar,

que a sociedade não é azeda.

E por falta de olfato                       [e de opção],

não cheira a corrupção.

                                                        [Mas e se me negarem o pão?]

Nada vê com clareza,

sem de outros a influência.

Sempre não. Não mudar,

não criticar, não testemunhar.

                                                         [E se minha família se machucar?]

 D’accord, d’accord!

Sem “bla”, sem “mas”, sem “se”.

Sei que uma surdez súbita te ataca

quando gritam as que chama de fraca.

                                                           [Tu não entende, não percebe.

                                                            E se me publicarem responsável?

                                                            Se apagarem meu nome, minha história?

                                                            Se me tratarem como escória?]

Então,

serás livre.

Livre.

                                                           [Livre.]

Por Janaína Bordignon

Compartilhando maldade

Por Jonas Lewis

Sei que não haverá de cessar as infinitas e intragáveis manifestações lotadas de fotografias e convocações para que doemos, compartilhemos ou ajudemos. Todavia sinto a cabeça borbulhando e as mãos inquietas frente ao que aborrece não só a mim, mas a tantos outros que conheço e que utilizam a rede social para o que ela realmente deveria servir. E cá não estou para dizer-lhes como devem ministrar seus twitter’s ou facebook’s. Diferente disso, vim contar-lhes como estão valendo dessa ferramenta tão divertida, doentia e incerta.

Todos os dias encontro uma foto cruel. Mutilações, síndromes, anomalias, torturas, doenças, desgraças, imagens que jorram infelicidade, vicissitude e depressão. Compartilhar a crueldade, a desgraça, a feiúra, de alguém que não se conhece, ou mesmo de um íntimo, com o álibi de ser “bom”? A desculpa de ajudar compartilhando imagens? Seres agradecidos pela aparição de um veículo onde se possa publicar fotos de mutilados, sindrômicos, injustiçados e doentes. Isso é o que posso ver. Os que trabalham, os que dedicam-se, que fazem parte de sua vida a vida desses enfermos, condenados, aleijados e infelizes, esses sim, têm sua verdadeira “rede social”, e “compartilham”, “dividem” e dividem-se para que alguns com menos sorte possam viver dignamente.

Dirão eu sei, que muito já foi feito, via internet. Que muito já foi doado, que muito foi arrecadado, adotado, conseguido. Direi, mais uma vez. O que ocorre todos os dias em redes sociais é “maldade humana”. Nada mais do que isso. Cruzar um acidente na auto-estrada e ter a coceira de querer avistar o morto. Compartilhar é uma ótima palavra. Estão compartilhando suas desgraças, suas vidas aguadas, sua depressão, seus relacionamentos infernais ou o inferno de uma solidão silenciosa. Usam a desgraça alheia para aquietar a própria alma que pede solidariedade. Doam um pedaço de ferro a um pobre mendigo sem fome. É a maldade fantasiada num carnaval que já perdeu a graça, que não me anima há muito tempo. Mutilações, animais torturados, crueldade, crianças com doenças degenerativas, anomalias, tudo isso “compartilhado”! Que exemplo de civilidade! Que bondade trazemos no peito, sentados nas cadeiras de nossos escritórios, nos sofás de nossas casas ou em nossas camas inundadas de verdade. Pois quando dormindo, nos mexemos, de nossa pele caem todas as realidades que escondemos no facebook.

Rafinha Bastos é um homem bom

Jonas Lewis

Pronto. A censura voltou. Dão pulos de alegria os órfãos da SNI, os resíduos de carrascos que assolam a possibilidade e a capacidade de um país engendrar sua arte. Obti a triste notícia de que nesta segunda-feira, o comediante Rafinha Bastos não estará, como de costume, na bancada do CQC, programa que apresenta junto a Marcelo Tas e Marco Luque. Não gosto de Stand-Up, apesar de certa vez ter ido ao show de Rafinha e conseguido rir sem parar. Não assisto ao CQC assíduamente, apesar de já ter arrumado motivos para me divertir com o programa. O que assusta e traz a certeza de estarmos vivendo como uma espécie de manequim estético que desfila na passarela, expondo tendências contraditórias e somando décadas que se entrelaçam fazendo terríveis estragos à mente humana, é que censuramos e caçamos práticas comuns e banais como compras de fim de mês.
O comediante Rafinha foi censurado por causa de seu trabalho. Por causa de sua arte. Ou melhor, por causa de uma piada. Uma frase. Pergunto-me a que valor moral estamos atribuindo criações. Não ando aqui em defesa de alguém. Ando em defesa de algo. Quero salvar a nudez do devaneio, a pureza do pensamento, e acima de tudo soltar aos ares talvez o clichê mais importante de todos os tempos, chamado liberdade. Não vou entrar em conceitualizações da filosofia e engodos acadêmicos, só almejo que os brucutus não continuem brucutus, e que consigam, por fim, apenas aceitar o que é a arte e o que é o humor. Não peço nem que compreendam pois seria demasiada complexidade. Humor é destruição. Arte é destruição. E mesmo que se construa, ou que o próprio corpo exale a beleza na forma mais pura e menos discutível, derstruímos a possibilidade da realidade, assassinamos o pragmatismo da existência carnal e partimos à metafísica pura. São regras burlando regras, que tão burláveis, podem inclusive voltar a ser o que eram, e não saírem do lugar, sendo o nada que sempre foram. O humor é ferramenta, conserto e o que se conserta. É perverso e ácido como o artista que destrói afim de construir outra vez. Sem a lágrima de um oponente qualquer, sem o sofrimento fingido de um ser ou de uma situação, não há humor, não há riso ou gargalhada.
Rafinha é um homem bom. Um artista virtuoso e destruidor. O talento se destacando no veículo que degrada a cada minuto a juventude e a infância de um país chamado Brasil. Fez uma piada com um bebê e uma menina grávida. Temas pontiagudos frente a uma sociedade de óculos. Palavras que causam o levantamento ético das sobrancelhas da censura pobre e agora, tão poderosa. Gravidez, menina e bebê. Nossos cérebros de um século XXI atolado em uma moral provisória baseada na culpa pelo que fizemos e pelo que faremos relaciona tudo isso com a pedofilia (condenação da moda), com o estupro, com a monstruosidade, com a doença humana. Sem querer esqueçemos, ou fingimos conscientes, que assistimos à novelas sub-humanas, expomos os pequenos à delitos absurdos e aturamos atos inconsequentes 24 horas por dia. E isso não é arte. E não tem graça nenhuma.

Rafinha Bastos fora do CQC

O humorista Rafinha Bastos não estará na bancada do “CQC”, da Band, na noite desta segunda-feira (3) e nem nas próximas semanas. A emissora decidiu tirá-lo no ar após a repercussão negativa de piadas feitas recentemente e consideradas de mau gosto.

A gota d’água foi a piada feita na semana passada sobre a gravidez de Wanessa Camargo. “Eu comeria ela e o bebê”, afirmou Rafinha.

De acordo com fontes ouvidas pela Folha, uma “grande surpresa” está sendo preparada para amanhã.

A decisão foi tomada agora há pouco pela cúpula da emissora na França. Eles estão no país para participar da Mipcom, feira de audiovisual que começa amanhã em Cannes.

Na última sexta (30), um dos companheiros de Rafinha no “CQC”, Marco Luque –amigo de Marcus Buaiz, marido de Wanessa–, divulgou nota sobre o caso em que reprova a piada do colega.

“Sobre a piada feita pelo Rafinha Bastos, no programa ‘CQC’ que foi ao ar no dia 19 de setembro, eu, como pai, entendo e apoio a revolta e a indignação do Marcus Buaiz, um homem que conheço e respeito. Se fizessem uma piada com este contexto sobre a minha família, certamente ficaria ofendido. Com certeza uma piada idiota e de muito mau gosto.”

 

Publicado em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/984550-rafinha-bastos-estara-fora-do-cqc-nesta-segunda.shtml

O filósofo é um tampinha

Jonas Lewis

 O que é nobre de ser questionado tem sido motivo recorrente nas academias de filosofia. Séculos de existência e o estudo do conhecimento evolui como o homem. Visto que dele provém, não me espanta que sua linha evolutiva não ultrapasse os limites humanos e nada se diferencie de nossa capacidade. Porém tratando-a de maneira justa, como sim deveria ser tratada a verdadeira filosofia, posso ao menos presumir que ela, estende-se ao horizonte, flexiona-se junto aos verbos e marcha em consonância às rodas automotivas. Aonde quero chegar é na triste posição dos filósofos. Habitantes monótonos do cárcere intelectual, perseguidores cruéis de uma forma desconhecida de pensar o que se deve pensar, por existir, instantâneo, como lógica e charada. Não têm buscado os homens da Filosofia, o descortinar vibratório do universo, o desvendar ingênuo do habitar poético. Pois quero ainda chegar ao ponto mais específico: a linguagem.

Habitamos a linguagem, somos linguagem a cada agitar dos olhos. Antes disso, somos linguagem a cada tentativa de tentar. Essa prisão a que somos acometidos, faz-nos seres. E somos seres porque habitamos a linguagem. Existimos na e para a linguagem, e não o inverso como ferramenta. Ela não nos fornece, não nos ajuda. Disse Heidegger, em um de seus ensaios no A Caminho da Linguagem: “Não é necessário um caminho para a linguagem, e isso seria até impossível, uma vez que já estamos no lugar para o qual o caminho deveria nos conduzir.” Simplesmente não podemos ser se ela não é. No entanto, a fenomenologia do corpo tenta empurrar-nos algo a que os filósofos se dedicaram por todos esses séculos. A definição do que pode comunicar-se e do que é deficiente em comunicar-se. Aí entra a injustiça com a Filosofia, cometida por eles mesmos, os filósofos. Esses homens insossos, inexistentes, por tantas vezes assexuados, que negam o instinto como instinto, que desdenham do sexo em seus sérios tratados, que não aceitam nada afora o palavreado pomposo ou o estudo analítico em suas pífias academias.

Puseram-me à frente, dentre tantas outras insanidades, o senso-comum exacerbado de que podiam sim as mãos comunicarem-se. Que os dedos diziam muito e que os olhos também eram excelentes instrumentos de linguagem. Instrumentos de Linguagem? Logo depois, o pior. Que as nádegas de uma mulher desnuda, preste atenção, as nádegas de uma sem as vestes nada tinham a dizer, teorizavam os pensadores. Assim não entendiam como aquilo causava reações ao homem que as fitava. Não entendiam? Pois eu entendia! Porque aquelas nádegas esbanjavam linguagem! Aquela linguagem esbanjava-se abaixo das costas e as coxas suportavam comunicações exacerbadas. Era uma linguagem que, por vezes, atingia o homem como espada, atravessando-o pelos pulmões. Mãos? Que tipo de idiota contestaria que as mãos se comunicam? É claro! Os dedos também, que o digam os surdos! Mas é típico dos filósofos fazer pouco caso das bundas, não falar dos seios e ignorar bocetas! Por isso a Filosofia anda desgastada, enfadonha, travada em séculos de releituras e carente de devaneios, mendigando coragem e desafio. Culpa de homens e mulheres vazios de criação, cientistas, estrábicos leitores que ocupam-se com os mitos gregos, discussões solenes, teorias com faustosas intenções, lotadas de demonstrações de cultura e estudo profundo de uma disciplina inexistente chamada pensamento.

E viva a não lógica!

Juliana Schneider Guterres

Beijo gay em horário nobre, nem pensar. Mas assassinato gay, pode. Atá! Os postes mijando nos cachorros! A maior emissora de televisão do país (que, ao meu ver, não tem culhão para bancar em rede nacional um beijo homossexual, afinal, como bons capitalistas, tenta-se agradar gregos e troianos. Sem beijos então, isso pode gerar menos anunciantes) dando essa lição aos seus telespectadores. Me choquei, decepcionei! Fiquei puta! Ao invés de promover o amor, o carinho e o desejo – em qualquer forma que esses venham a se dar -, a não lógica da Rede Globo opta por televisionar cenas de violência explícita contra um homossexual. Lá atrás, nessa lógica controversa, deve haver uma mensagem. Mas aí é que está: porque andarmos por linhas nada nítidas quando poderíamos ser mais claros? Beijem-se, abracem-se, acarinhem-se! Eu quero ver a liberdade de ser e viver seus afetos estampadas nas telas, escancaradas nas casas.  Não seria essa a verdade aceitação da diversidade? Qual é a não-lógica que diz que mostrando uma cena de violência incitaremos o altruísmo, a decência e o respeito? Psicologia reversa? Podia funcionar muito bem nas nossas infâncias com nossas mamães nos ameaçando deixar pra trás na rua – quando partíamos em disparada de volta ao rabo de suas saias, mas não venham me trovar que aqui isso também se aplica. Já dizia o poeta: gentileza gera gentileza. Falo por mim, parafraseando o sábio: RESPEITO GERA RESPEITO. E violência, infelizmente, gera violência.

Manifesto Free Tonho Crocco

Por Jonas Lewis

Será que o trecho da canção de Jorge Ben foi uma grande ironia, ou podemos ainda considerá-lo um esperançoso quanto à evolução da humanidade?

 “Eu tenho fé, amor e a fé no século XXI, onde as conquistas científicas, espaciais, medicinais, e a confraternização dos povos, e a humildade de um rei serão as armas da vitória para paz universal! União! Todo mundo vai ouvir, todo mundo vai saber!”

Quando deparamo-nos com tamanha incapacidade de compreender a liberdade, quando os reis parecem não enxergar nada a mais do que seu próprio ouro e quando a arte, máquina primordial da confraternização dos povos, é tratada com mesquinharia e pequenez, andamos a passos largos para trás e anulamos, neutralizamos, tiramos de nós mesmos tantas evoluções científicas, medicinais e espaciais. Somos computadores e descobertas, foguetes e infinitas possibilidades de resolução. Televisões menores, celulares inimagináveis e acessórios que mudam a capacidade do ser-humano de relacionar-se.

O medo que carrego, e que sempre andará comigo, é o de que esqueçamos de nossos direitos. Lembramos o suficiente dos deveres e hoje, nosso formigueiro funciona como nunca. Pois temos a arte, e com ela nunca seremos monótonos e insossos. Com a poesia transformamos a rua onde moramos em um reino encantado por onde cantam pássaros que ainda não existem. A música exala a filosofia de nossas almas, sem que elas propriamente saibam que estavam a filosofar, disse Schopenhauer em um de seus estudos sobre a bela arte. Os filmes, a dança, os martelos esculpindo, tudo é tão necessário para que vivamos em paz com nossa própria existência.

Há tempos nem tão longínquos, muitos tentaram e conseguiram calar os que faziam arte. Analisaram suas intenções, desbravaram sem sucesso suas almas infinitas e cometeram absolutas injustiças contra músicos, poetas, humoristas, escritores, e tantos outros que em sua atividade diária produziam algum tipo de manifestação artística. Hoje, evoluídos, enxergamos com desprezo o que fizeram com esses artistas. Não podemos entender o por que, se suas obras eram tão verdadeiras quanto o raiar do sol. Falavam do dia, da noite, das universidades, da política, da corrupção, das guerras, das irracionais matanças dos inocentes.

Pois bem, por entre evoluções e computadores, celulares e concepções inimagináveis de onde o cérebro humano poderia chegar, estão querendo permitir a volta de algo chamado CENSURA. De leve percebo movimentos coibindo o artista de rua, demitindo o escritor honesto, e agora processando o músico e poeta e combatente. Sejamos evoluídos, pois então! Não deixemos com que os que reis do ouro e da cobiça calem a voz necessária da poesia! Não nos ceguemos e não nos entreguemos ao poder imaginário do nobre traje da corte, querendo nossas cabeças por somente querer fazer o que eles não sabem e não saberão fazer: a ARTE. A verdadeira arte livre. Pois não há arte sem liberdade e não há vida sem arte. A censura é absurda e não se pode permitir que nem um risco de sua mancha dolorida e insuportável volte a assolar nossas vidas. Queremos pensar o que pensamos, e não o que podemos!

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