Mirada

Por Juliana Schneider Guterres

Entrou no bar, pediu uma cerveja. Acendeu um cigarro. Se Vinícius, o poeta, achava que o whisky era o melhor amigo do homem e o considerava o cachorro engarrafado, o cachorro dela poderia ser fumegante – nunca lhe apeteceram as bebidas fortes. De forte mesmo, só as pessoas. Vício, cigarro. Se é que poderia ser chamado assim. Ela preferia considerá-lo um amigo, tal qual o poeta e o destilado. [E aqui ela abre um enorme parêntese a todas as reprovações que já ouviu sobre o tema saúde x cigarro. Duas considerações e encerra-se o assunto: primeira, de quem é o pulmão? Segunda, evita-se o fumo para se ter uma vida longa. Mas vale a pena prolongar a agonia de uma vida mal vivida? Ela achava que não e preferia aproveitar cada momento, tragar a vida em toda sua intensidade e não se ocupar apenas das baganas (o trocadilho foi irresistível). Ela nem tinha certeza se queria viver até os oitenta e, se por acaso chegasse lá, seria do seu jeito..]

Sentou-se, cruzou as pernas. Esperava por ele.

Retocando o batom, olhou-se no espelho que trazia na bolsa. Descobriu uma ruga perto da boca. Seria essa a primeira? Ela não sabia. Nunca tinha prestado muita atenção. Começou a espionar-se com o pequeno espelho. Uma mirada clandestina sobre um corpo qualquer.  Encontrou mais rugas, perto dos olhos – e que olhos, pensou. Nunca havia se dado conta de que possuía dois pampas esverdeados que cheiravam à terra úmida depois da chuva. Não, definitivamente não eram olhos, eram um convite e um caminho para quem quisesse penetrar sua alma que se abria em flor. Nariz, boca, dentes, bochechas, testa, sobrancelhas, queixo, orelhas. Tudo era tão desproporcionalmente simétrico. Conferiam-lhe força e leveza ao mesmo tempo. Todos os traços bem marcados, como se fossem esculturas em madeira talhadas por um artesão. Escorregando a mão por aquele rosto podia sentir naqueles traços cada lágrima, cada sorriso, cada decepção, cada alegria vivida nos anos que foram se passando sem que ela, de fato, se desse conta. Lembrou-se de cada marca, cada cicatriz de que aquela face era estandarte. O tombo na escada da casa da avó aos cinco anos que lhe rendera uma pequena cicatriz perto da boca (mesmo que momentânea e que hoje só pode ser conferida nas fotos de infância e nas lembranças refletidas no espelho). A catapora, aos sete, que lhe deixara uma marca perto do olho direito. A mão de sua mãe em sua testa por tantas madrugadas para lhe medir a temperatura. Os lábios de sua mãe em sua testa todas as noites, marcando suavemente a despedida até a manhã seguinte. Os apertões nas bochechas que recebia das tias quando ainda era menor do que elas. As parcas espinhas, amigas inseparáveis de todo adolescente (que usa aparelho dentário!). O aparelho dentário, amigo inseparável de todo adolescente (com espinhas!). O primeiro beijo eternizado naquela boca. As orelhas, que apesar de andarem em par, teimavam em trabalhar menos que a boca. O queixo, apoio para a cabeça no encontro com as mãos. O último beijo que ainda ardia morno naquela boca.

Ao escrutar-se no pequeno espelho deu-se conta de que amava. Amava cada vinco, cada sulco, cada inscrição que seu rosto carregava. Era sua história cobrindo-lhe a pele, como um manto sagrado.  Não sem dor abandona a face que até então não conhecia, de que fazia vaga idéia. Face imaginada, projetada. E passa a olhar-se de frente. Com todos os seus vincos, todos seus sulcos, todas as inscrições que seu rosto carrega.

Quando deu-se conta de que não era por ele que esperava – quem ela sempre quisera sempre estivera ali, com ela, nela – descruza as pernas, levanta e sai. Precisa buscar um espelho maior – o que será que seus joelhos lhe reservam?