Eu me importo?

Texto de Janaína Bordignon

De acordo com o dicionário online, importar-se é

v. pron.
8. Ligar importância; fazer caso.

Ligar importância. Fazer caso.Eu ligo importância? Eu consigo sair da minha zona de conforto e sentir dores desnecessárias no processo de compreender a dor alheia? Eu certamente não preciso. Afinal de contas, quem quer ler dos problemas dos outros (que, a propósito, são os problemas do mundo e, por consequência, os seus problemas, seu narcicista idiota)? As pessoas podem não confessar, mas não tem nada mais agradável que abrir um álbum virtual e ver fotos lindas, pessoas lindas e absolutamente nada que te lembre de que um dia é constutuído de 24 horas e não só do 1 segundo que resultou em uma daquelas fotos coloridas e impressionantes. Eu quero saber que vocês estão todos/as bem, magros/as, na moda e que, se não capazes de serem intelectuais, que pelo menos o pseudo sejam. Eu já tenho meus problemas, e, como ninguém se importa comigo, por que vou me importar com os/as deles/as? Os/as egípcios/as sem direito ao acesso à internet não vieram me pegar no colo quando minha mãe me deu a primeira surra! Por que eu vou ajudar a parar com o abuso infantil? Essas crianças vão por um acaso vir aqui, me agradecer e discutir a relação por mim?

É claro que esse texto te incomoda. Tu pode atribuir esse sentimento ao que tu precisar para poder dormir à noite. Mas eu e você sabemos que esse texto te lembra da última vez que uma amiga chorou porque o namorado dela acabou com ela. Te lembra que tu foi na casa dela, passou 3 horas com ela, disse que tudo ia ficar bem, ele não te merece mesmo, e todos aqueles outros clichês que são pré-produzidos e não demandam de ti qualquer sentimento ou raciocínio. Eu te entendo. Tu fez tudo aquilo que está escrito no Manual da Amizade e, mesmo assim, a tua amiga continuou deprimida por meses! Meses! Por meses, ela lidou com aquela dor e era inevitavel tu, como amiga, ter que ter participado daquilo. Porra, será que ela não entende que ficar triste te deixa triste? O quão egoísta ela pode ser? =P

Ok. Então talvez a gente não ligue importância como a gente achou que ligava. Mas importar-se também significa fazer caso. Aah, então tudo bem. Viu? A gente se importa! A gente faz caso! A gente lê no jornal do bairro que existe grande ocorrência de câncer e  imediatamente busca as respostas na água, na comida e informamos a todos o que evitar para mudar o quadro clínico preocupante. A gente vê na TV que houve uma enchente em outro estado e a primeira coisa é fazer uns bicos naquele mês, juntar a grana e mandar pras famílias que passam por coisas que a gente nem imagina que existem. Ou, como tudo isso é muuito díficil pra gente – porque sabe, a gente estuda, trabalha, tem a galera, já te falei o que aquela professora pediu pra semana que vem? -, a gente pelo menos faz caso moralmente dos problemas que nos envolvem, de uma forma ou de outra. Sempre que eu ouço um comentário preconceituoso sobre alguma categoria social, é claro que eu levanto, crio um conflito e defendo todas as indianas pobres que não tem nada a ver comigo numa roda de cerveja entre amigos/as. Eu, sem medo de rejeição social, grito Crime! Preconceito! Ultraje! toda a vez que eu vejo uma injustiça, mesmo que seja só verbal.

Ah, tu não faz isso? Ufa. Eu também não. Já falei, né, não tenho tempo. Mas se tu não faz, então não é mais um problema meu também, Eu já tenho meus próprios problemas, meu marido está chateado comigo, não consegui comprar aquela TV de plasma nova e meus pais brigam por todo o dinheiro que eles têm e não querem dividir. Porra, o que mais o mundo quer de mim?

Não basta ler os posts desse blog para acalmar a consciência pesada. Tu tem que ler as linhas dos posts. Tu tem que parar por 30 segundos depois que lê (e consequentemente 30 segundos antes de abrir uma nova aba e googlar a nova moda em camisetas ou o resultado do último jogo de futebol) e pensar – empaticamente – na situação que não é alheia, porque envolve o mundo que te envolve. Em outras palavras, tá na hora de levantar esse traseiro gordo da cadeira e fazer algo pelo mundo.  🙂 .

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