Criança, a alma do negócio

 Criança, a alma do negócio (Brasil)

Por que meu filho sempre me pede um brinquedo novo? Por que minha filha quer mais uma boneca se ela já tem uma caixa cheia de bonecas? Por que meu filho acha que precisa de mais um tênis? Por que eu comprei maquiagem para minha filha se ela só tem cinco anos? Por que meu filho sofre tanto se ele não tem o último modelo de um celular? Por que eu não consigo dizer não? Ele pede, eu compro e mesmo assim meu filho sempre quer mais. De onde vem este desejo constante de consumo?Este documentário reflete sobre estas questões e mostra como no Brasil a criança se tornou a alma do negócio para a publicidade. A indústria descobriu que é mais fácil convencer uma criança do que um adulto, então, as crianças são bombardeadas por propagandas que estimulam o consumo e que falam diretamente com elas. O resultado disso é devastador: crianças que, aos cinco anos, já vão à escola totalmente maquiadas e deixaram de brincar de correr por causa de seus saltos altos; que sabem as marcas de todos os celulares mas não sabem o que é uma minhoca; que reconhecem as marcas de todos os salgadinhos mas não sabem os nomes de frutas e legumas. Num jogo desigual e desumano, os anunciantes ficam com o lucro enquanto as crianças arcam com o prejuízo de sua infância encurtada. Contundente, ousado e real este documentário escancara a perplexidade deste cenário, convidando você a refletir sobre seu papel dentro dele e sobre o futuro da infância.

Direção: Estela Renner

Produção Executiva: Marcos Nisti

Maria Farinha Produções

Maiores informações em:

http://www.alana.org.br/doc.3gp

 

Fonte original: http://www.alana.org.br/CriancaConsumo/Biblioteca.aspx?v=8&pid=40

Anúncios

A invenção da infância

Jana, o que eu diria para elas?

O texto e a “latinha” (de criança!!) aí em cima são de Juliana Schneider Guterres

O que eu diria para elas? Que se atirem na e para a vida. Que não tenham medo de ser crianças, porque esse é o lugar de todos os possíveis, onde todas as deformidades não são desformes, mas sim coisas de criança.

Onde quem se veste de homem aranha para a aula da terça-feira de manhã não é excêntrico, é criança.
Onde quem tem amigos imaginários não é psicótico, é criança.
Onde quem não tem dentes não é velho perdendo a chapa, é criança.
Onde quem quer colo não é carente, é criança.
Onde quem chora sem motivo não é triste, é criança.
Onde quem compra casa com dinheiro do banco imobiliário não é estelionatário, é criança.
Onde quem geme de dor não é fraco, é criança.
Onde quem assina seu nome com rabiscos não é analfabeto, é criança.
Onde quem come todos os doces do mundo em um só dia e depois morre de dor de barriga não é menina bulímica, é criança.
Onde quem quer namorar criança não é pedófilo, é criança.
Onde quem brinca de boneca não é mãe adolescente, é criança.
Onde quem não tem celulite não passou pelo photoshop, é criança.
Onde quem come comida do chão não é mendigo, é criança.
Onde quem tem as roupas escolhidas pela mãe não é homem solteiro (e estranho) com cinquenta anos, é criança.
Onde quem tem medo do pai não é castrado, é criança.

Experimentem e se experimentem muito. Até sorrir, até sangrar. Para brincar, até esfolar.

Nossas crianças (:

Durante meu estágio essa semana – em uma escola bilíngue em Bridgeport, Connecticut – me peguei olhando para aquelas crianças. As crianças do jardim de infância, cuja maior missão era abrir a sacola e comer aqueles morangos norte-americanos nada naturais; as crianças da segunda série, que buscavam acima de tudo a aprovação da professora, que por sua vez buscava a própria aprovação; e os/as adolescentes da sexta e sétima série  – intensamente indescritíveis.

As professoras chamavam “os/as indisciplinados/as”, ressaltando defeitos a tal ponto que a posição de inferioridade na qual eles/as eram colocados/as os/as tornavam controláveis. Impotente, perguntei-me o que eu diria a eles/as se eu fosse livre de qualquer obrigação física, profissional ou de etiqueta. Perguntei-me se algum dia fui livre.

Eu diria àquelas lindas criaturas que a vida deles/as não vai ser fácil por uma série de motivos. Que na verdade a vida é tão difícil quanto eles/as farão dela. Que eles não tem que ser idiotas para ser homens de verdade. Que elas não precisam ser magrelas e sexy para ser amadas ou respeitadas (ou ambas, se possível). Que a TV e as revistas os/as deprimem de propósito por simples lucro. Que é cool conhecer o que faz de cada um(a) de nós único/a. Que o que é cool mesmo é sentir.

Ah, os sentimentos. Que eles/as todos/as deviam ter sentimentos. Que não é errado chorar no final do filme triste. Que não é fraqueza permitir-se tocar por tragédias do outro lado do mundo. Que o mundo não muda sozinho. Que as pessoas não se sentem melhores quando ficamos sentados/as e fazemos nada. Que não importa como, mas que eles/as tem que achar uma forma de se expressar. Que violência não é uma dessas formas. Que ser louco nesse planeta é um elogio. Que nada vai ficar bem só porque as pessoas dizem que tudo vai ficar bem. Que o nosso voto faz a diferença. Que eles/as deviam se informar sobre a política, já que a política (e a politicagem) regem as oportunidades de vida que eles/as recebem. Que o ativismo – qualquer seja sua forma – é a única resposta.  Mas ah, se eu pudesse falar para eles/as sobre os sentimentos.

E você, o que diria para nossas crianças?

– Texto escrito por Janaína Bordignon

– Foto disponível em http://www.stumbleupon.com/su/2VuXD6/www.colerise.com/.