Alice que mora em mim

Chamei Alice para contar o que estava na dobra da folha amarelada pelo tempo. O tempo esmaeceu. Estava cansado de ser ignorado. Alice ficou surpresa ao ver o tempo tão cabisbaixo. Sentiu-se tocada pela tristeza que emanava dele por aquela voz amarela que vinha da folha. Chamei e nem disse quem era, mas ela veio mesmo assim. Ela sempre vem. Daquele encontro de Alice com o tempo brotou cansaço, Alice esmaeceu ao lado do tempo e os dois ficaram amarelados como a folha. Amarelo queimado, envelhecido, esquecido.

Eu queria esquecer. Alice queria surpresa. Ela era a menina que morava em mim nas noites vagas das portas abertas. Era quem me entregava o fio para que eu não me perdesse. Ela vagava despreocupada pelos meus labirintos escuros enquanto eu temia. Era ela quem me acendia a luz e tirava o Minotauro do caminho conversando com ele. Era quem me fazia rir. Era também no colo dela que eu deitava quando tinha medo.

Geralmente trazia seu sorriso no rosto e só às vezes ficava triste. Quando ficava triste ela buscava outros colos nos quais podia deitar.

 

O que será da Rua de Mão Única?

Está na natureza
Será, que será?
O que não tem certeza nem nunca terá
O que não tem conserto nem nunca terá
O que não tem tamanho…

O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo…

Sentou-se na cama com o corpo ainda dolorido e olhou a janela. Borboleta pousada no parapeito aguardava a abertura dela para olhar. Lá dentro alegria era pluma pairada sobre o ombro dele. O salto, o sapato, uma noite. Bebida. Encontro. Tudo ressoava na tontura do corpo. Alegria era o vento que levantara a blusa dela ao dançar.

Acordaram acompanhados um do outro na sala que não era deles. Cada um seu corpo, cada corpo seu lado. “Quem diria…” pensaram. Mas alegria era o sorriso de pluma no canto do lábio e letra da música dita ao pé do ouvido.

O abraço calava as palavras da manhã fria e atenuava a estranheza de tão boa sensação: estar junto. Alegrias eram plumas colhidas no instante. Beijo ainda era doce de manhã.

A rua era de mão única, mas, tudo bem, naquela manhã queriam ir para o mesmo lado.

*Texto baseado em fragmentos do livro: Rua de Mão Única de Walter Benjamin.

**Originalmente publicado aqui: http://mariliasilveira.blogspot.com/

Accademia della Follia em Porto Alegre

Pensei na Reforma Psiquiátrica, no estar com o grupo de teatro de Trieste: Accademia della Follia. Filhos da Lei 180 na Itália.

"Nós não fazemos teatroterapia, nós fazemos teatro", "Eu sou louco, não doente" dizia o diretor Claudio Misculin, ali não era um debate sobre Reforma era um efeito de Reforma em ato, era um efeito de vida da Reforma. Encontrei-me com aquelas pessoas na universidade, no dia seguinte dentro do manicômio (Hospital Psiquiátrico São Pedro) e no seguinte ainda, no teatro. 

As capturas dos discursos foram completamente diferentes em cada um dos ambientes, claro! Na universidade Claudio nos falou sobre seu método de fazer teatro, da memória que fica no corpo e por isso fazem os exercício de cena correndo, fazendo flexões...falou nos três pontos de onde saem a voz no corpo (peito, garganta e testa). Deitou-se no chão, fez flexões engolindo ar, e na sequência levantou-se sendo Creonte tirando a fala de uma voz gutural até um falsete, na mesma cena. Falou com uma sensibilidade indescritível de cada um dos atores, do que cada um tinha de potência e de como ele precisava trabalhar cada elemento com cada um. Seu teatro, ele disse ainda, é feito de RISCO e de EXCESSO. 

No manicômio fomos capturados pelos instituídos, falaram de seus diagnósticos (ainda que afirmassem que não estaríamos, de fato, interessados nisso), dos remédios que tomam... ali o contraste entre os atores e os usuários dos residenciais terapêuticos era triste. E ainda se viam pessoas de jaleco branco circulando e um funcionário arrastando um usuário à força para... não sabemos onde.... Camisa de força humana, prisão. É possível desinstitucionalizar um manicômio? A vida pode morar no manicômio? Num banheiro cujas portas não fecham, não tem papel e as privadas não tem tampas, onde não tem água, é possível? Entre janelas de vidros quebrados, frio, chuva e gente com fome o que é possível? 

Os atores então decidem nos mostrar algumas cenas, especialmente uma que causa grande espanto. Um ator grande e com voz grave saiu do hospício e voltou para casa, sua mulher, Marina, faz a comida. Ele arregala os olhos e chega por traz dela, agarrando seus seios, a mulher paraliza mostrando o incômodo de estar com seu louco de volta em casa. A platéia paraliza, um suspiro! Risos incontidos. 

Vale ressaltar que a moça em cena é a única "normalóide" (como a nomeia o diretor) do grupo.

Na sequência vamos ao teatro e a cena que nos faz perder o fôlego é a de Claudio costurando (de verdade!) sua barriga. 

Loucura? 

Corpo sem órgãos? 

Teatro! 

Risco e excesso, Extravagância – o nome da peça!

Vida! - Eu diria.

Deixo-os então com os próprios atores, em cena! E se tiverem a oportunidade de assistir, não percam! Eles estão em turnê por várias capitais do Brasil, ainda que a mídia não divulgue...

Tia, me dá o resto?

Era uma tarde de sexta-feira. Eu estava na rodoviária à espera de um ônibus para a capital. Perdida entre pensamentos e goles de um refrigerante. Fones nos ouvidos me colocavam em outra órbita, até que a bateria acabou. Vinha um menino, e com ele mais dois. Feições de índios, pequenos garotos sozinhos e de pés descalços. Cena comum, cotidiana, mas por alguma razão nem sempre as coisas comuns e cotidianas me passam despercebidas.

O menino se aproxima e diz: “Tia, me dá o resto?”. Ele nem pode imaginar o que sua frase ressoa em mim naquele momento. Mas referia-se a minha lata de refrigerante, que já ia à metade. “Tia, me dá o resto?”. Sua frase seguiu ecoando, seu rosto marca uma diferença, uma diferença na escuta.

Vibrou este corpo incomodado, por que me afetei deste modo? Por que me desacomodou a pergunta do menino? Cena cotidiana, até banal, meninos pedindo na rua. O que me permite ainda o choque? E penso que história terá esse menino? Vai à escola? Tem uma cama para dormir? Alguém que o alimente e cuide? Busco as referências que me são familiares de cuidado e vida, mas sei que as suas são outras. E que provavelmente as minhas não servirão para ele.

O corpo vibra novamente e não consigo dizer nada, paraliso. Apenas entrego a lata de refrigerante, muda. Ele sai e caminha até a próxima tia, a juntar o próximo resto, do próximo ser que também paralisa e entrega o salgadinho que tem na mão.

Sigo o raciocínio, o menino vive de juntar os restos que nós não queremos mais. Fica na espera, à espreita, do próximo resto que será descartado. Resto de olhar, de gosto. Resto de solidão. Resto de vida. Dejeto transformado em vida. Dejeto que alimenta, constrói, subjetiva. Ele não apenas pede o resto como é ele próprio uma espécie de “resto social”.

E nós seguimos com medo de que um dia esses “restos sociais” venham a cobrar-nos uma dívida (impagável!) de vida. A de não mais nos surpreender com sua presença. Eles não estão fora, somos nós também que os produzimos, e tão presentes estão que se aproximam e nos pedem, constantemente.

Lanço a mim e ao leitor uma pergunta: teríamos mais a lhes oferecer além dos nossos restos?

SILVEIRA, Marília.  Tia, me dá o resto? (Crônica) in São Leopoldo. Prefeitura Municipal, Secretaria de Cultura. O gênero literário (antologia): 3o. Prêmio Sérgio Farina: Carta Editora, 2011, p.67-68.

Alice, Ideia e coelho branco

Alice parada na porta esperava Ideia chegar.

Ideia demorava, estava perdida pelas ruas largas da Fantasia. Deitou entre as dobras macias da pele de um coelho branco. Não tinha pressa. Alice já estava impaciente, seu estar-no-mundo dependia da Ideia que não vinha. Ora o que pensava essa ideia? Abandoná-la assim? Um absurdo era! E Ideia nem aí… Deixava Preocupação namorar Preguiça no pelo branco do coelho. E enroscava-se ela mesma do outro lado e adormecia tranquila.

Alice furiosa ia e vinha da porta, fazendo ressoar Inquietude desejando que Ideia ouvisse. Queria ressoar o silêncio da ausência de Ideia para ver se ela voltava. Ideia nem estava… Ficou por lá deitada nas peles do coelho sob o sol, até que este resolveu se pôr, daquele jeito glorioso que só ele sabe.

Alice cansou de esperar e resolveu procurar Ideia para trabalhar. E veja só, logo encontrou ideia ali bem tranquila, aconchegada nas peles do coelho branco vendo o sol se pôr. Chegou perto Alice furiosa, vulcão jorrava lava do olho e Ideia fitava-a tranquila. “Ao invés de me tirar daqui”, disse ela, “venha sentar e sentir a beleza de uma Ideia calada aos pés de um sol se pondo…”.

Alice rosnou, mas não tinha remédio! Ideia só trabalha quando quer.

Sentou e aos poucos percebeu a fúria abrandar-se cedendo terreno para o sol-se-pondo-ao-lado-de-Ideia. Viu a beleza da união. Suspirou e sentiu-se acalmar.

Só então Ideia aceitou conversar.

Tempo de Muda


Ignoro o que já foi escrito sob este título. Ignoro se as ideias mesclar-se-ão com as minhas. Não importa.

É tempo de muda.

É tempo de crescer. Não saber. Esperar. Não saber esperar. Duvidar.

“Então estás me dizendo que tu não sabes” – aponta a terapeuta diante da conflitiva em que uma se encontra. É tempo de incertezas. E sempre será. É tempo de pensar. E deixar-se não pensar. De sair. Arriscar. Entregar-se aos mares da leitura e depois escrever. Poupar-se do mar de leituras para poder escrever. Arriscar tecer ideias antes de ler qualquer coisa. É tempo de deparar-se com o vazio. Buraco Negro. Ausência de sentido prévio. Incompletude. Desterritorialização?

É tempo de despojar-se. Aceitar a presença do outro. Tolerar a alteridade. É tempo de questionar-se. Sair de si, chorar.

É tempo de tomar um bom vinho, esquecer-se das fronteiras e tornar-se amigo. Por um só instante. Rir. Acordar embriagado do próprio texto que escreveu. Daquele autor que leu. Estudar embriaga e faz nós na garganta. Estudar dá náuseas. Descobrir que não é neutro o conhecer. Tempo de meta-morfoses. E meta-estabilidades.

É tempo de devir-gente, devir-grande, devir-bicho. É tempo de platôs meta-estáveis. E devires, e dobras e fluxos.

E isso dói. De uma dor que não tem nome. “E saem faíscas e lascas como aços espelhados”. Nos cacos de espelho de Lispector vejo o que sou e fui, o que serei logo depois. O que era quando entrei. E depois o que saí. E não me encontro inteira. Não encontro ordem. A palavra cortada pelo meio. O sentido perdido. A realidade outra.

Dor de atravessar um tempo de sentir. Deixar-se afetar pelas esquisitices desse mundo novo. E do velho que atravessa.

Medo. Medo do medo que dá. Força que me impede andar. Tempo de muda onde até o tempo é instável. Tempo de ceder. Tolerar. Angustiar-se. Ser tomado por terrores indizíveis. Encontrar-se onde jamais pensara estar. Deixar-se estar onde jamais ousaria dizer.

Não ousar nada. Proteger-se. Silenciar. Dormir.

Seria, por fim, tudo isso, Cuidar de Si?

Alegria Destampada

Alegria Destampada

ou

Haveria modo de educar a vida?

Se a alegria morasse em potes na cozinha, eu trataria de sempre esquecer os potes destampados

E a tristeza eu deixaria passar devagar pelos furinhos do filtro de café

As tormentas e as vertigens eu deixaria do outro lado, a esperar que batessem educadamente na porta, e só as deixaria passar de novo, caso prometessem vir de mansinho, uma de cada vez

Mas de nada adianta tentar por ordem na casa

Quando a única coisa que escorre incessante pela torneira quebrada da pia

É o nosso evidente descontrole sobre as coisas da vida…

Entradas Mais Antigas Anteriores