Eu tenho. Você não tem?

Comercial pensado por algum publicitário sem noção em 1992. Texto escrito por Juliana Schneider Guterres em 2011.

Não sei se foi falta de dinheiro ou excesso de discernimento dos meus pais, o fato é que nunca ganhei a tesoura. Na época eu, então uma menina de 7 anos, tentava  sobreviver ao primeiro ano de colégio. Tarefa árdua sem aquele objeto de cobiça e prestígio entre tantas outras crianças que, como eu, trocavam a dentição. Eu tenho, você não tem. Eles tinham, eu não. A única coisa que eu tinha era um medo incerto de ser julgada pelas coisas que não tinha.

Dezenove anos depois, só tenho a agradecer à tesoura que não tive. Minha não-tesoura me permitiu cortar muito mais do que papel.  Cortei fora da minha vida quem me julga pelas coisas que tenho – e principalmente pelas que não tenho. Parti a cartilha que me ensina a ser como todo mundo. Podei o controle silencioso que o marketing exercia sobre meu corpo e minha mente. Trinchei a multiplicação indefinida das minhas necessidades desnecessárias. Aparei os micro-fascismos. Tosei qualquer modismo que negue minha identidade. Abati as regras, normas, fôrmas e padrões vigentes.

E construi novos caminhos, nossas formas possíveis de ser e ter. Agora eu tenho vergonha de dizer para crianças que elas devem se sentir embaraçadas pelas tesouras que elas não tem, porque de fato, elas não devem. Eu tenho noção de que minha personalidade não é balizada pelos artefatos que ostento. Eu tenho raiva. Tenho raiva desse mundo irracional, desse mundo capital, canibal. Eu tenho horror a roupas de marca que não marcam história alguma.  Eu tenho medo da homogeneização, da universalização, da repetição, da mesmice em massa. Eu tenho pena de quem consome além da renda e do juízo. Eu tenho um gosto, um rosto, um corpo que me pertencem. Eu tenho discernimento. Eu tenho senso crítico.

Você não tem?

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3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Soraia
    mar 13, 2011 @ 15:17:52

    AMEI! Jana! Esse comercial também ficou marcado na minha memória pra sempre e influenciou minha escola por Sociais! 😀

    amei!

    Responder

  2. Kátia Franciele
    mar 16, 2011 @ 20:06:36

    Jú, belo texto. Aliás não poderia ser difrenete vindo de você.
    Num mundo onde muitas vezes as aparências e o que temos valem mais do que o caráter, os valores, os sentimentos, a soliedarieda é sempre gratificante encontrar os verdadeiros amigos, aqueles que mesmo a distância estarão conosco e que gostaram de nós pelo que somos. Bjokas

    Responder

  3. Bloco do eu me importo
    mar 16, 2011 @ 21:51:47

    katita querida, mesmo longe longe longe, meu coração segue batendo com e por ti. te vejo em junho 🙂
    beijo, jú

    Responder

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