O medo da violência

Por Marília Silveira

Medo de andar na rua. Medo de me perder. Medo de ser assaltada. Medo do escuro, de sair à noite. Medo de dormir. Medo de ladrão. Medo de homens que me perseguem na rua. Medo de meninos de rua que me cercam. Medo de meninos mal-encarados, sujos, que cheiram cola e fumam crack. Medo. “Medo do medo que dá”, dizem Lenine e Julieta Venegas em sua música. Inicio pelo medo que está sempre aí, mas sobre o qual é raro lançarmos o olhar, quiçá um discurso.

Sem desconsiderar a necessidade e a função do medo na constituição de um sujeito, vivemos tomados por um medo, um terror sem nome que muitas vezes personifica-se na figura do menino-de-rua-delinquente. Esse é o medo do discurso-padrão-classe-média-burguesa. Na qual me incluo. Produzimos aí o medo e a figura detentora de tudo aquilo que tememos. Que pode ser, porque não? Meninos pequenos que estão na rua, sujos e que não têm pais. Não têm país, “não têm leis”. Não têm lugar. E não têm chance.

E então, sem chance mesmo, unem-se a esse discurso a falência total de todas as instituições – família, escola, saúde, assistência social, polícia, Estado. O deliquente (que carrega em si “toda violência”) é criado a partir de uma conta (matemática!) “pura e simples”: mãe negligente + pai ladrão + rede falida + conselho tutelar precário + polícia inoperante = jovem deliquente.

Essa é a conta que a mídia exacerba diariamente nos jornais impressos e televisivos. E, fabricados em série, assim como as novelas e os comerciais de margarina, nós compramos, reproduzimos e nos subjetivamos por esses discursos. Desse modo a única solução, mantendo essa linha de raciocínio, é exterminar, prender e julgar culpados esses jovens. Eles são os culpados. Nós classe-média-alta-pequeno-burguesa nada temos com isso. Será? Somos apenas vítimas desses algozes da violência. Será mesmo?

Serão apenas essas as saídas possíveis? Retomei a utopia de início de curso, talvez porque o fim do curso me provoque. Entrei na psicologia com uma ideia de que nós psicólogos temos uma função social a cumprir, devemos contribuir para a ‘melhoria’ da sociedade. Suspendo em aspas o termo ‘melhoria’ porque na época eu não conseguia pensar noutro melhor. Mas enfim, retorno a isso porque, depois de tantas voltas teóricas em dez anos de formação, foi (e ainda é) possível deparar-me com muitas possibilidades desse lugar social da psicologia.

É desse lugar e a partir dessas e mais algumas influências que escolho começar. Olhar para o tema da violência implica necessariamente fazê-lo desde uma posição ética. E uma posição para ser ética não pode ser ingênua nem tão pouco moralista. O tema da violência (assim como outros tantos) nos convoca a uma suspensão de nossos valores médio-burgueses.

E é possível começar, por exemplo, por aquele discurso de que se um sujeito comete um ato infracional ele “não tem lei”. Isso é um grande equívoco. Acompanhando discussões de uma equipe de saúde mental sobre adolescentes internados numa Fundação Sócio-Educativa[1], escutando as histórias mais de perto, devolvendo humanidade e singularidade para suas histórias, aproximando-nos, encontramos sim leis que regem esse funcionamento dito “ilegal”.

E encontramos uma lei e dizemos que “está fora” de “nossa” sociedade. Mas é necessário por uma interrogação. Como assim está fora? Outra vez desde uma posição ética é necessário entender que tudo isso que aí está somos nós e somos nós que produzimos. É uma ilusão simplista e quiçá higienista pensar que esta “outra lei” está fora. Talvez não exista dentro-fora. O que ocorre nos pequenos grupos não é uma parte do social, é o social. Não se destaca dele.

No entanto, sempre é mais fácil considerar que essa face obscura da realidade não nos pertence. E Maturana e Varela em 1995 já nos alertavam:

Pouco a pouco parece que estamos nos aproximando do momento em que o grande, poderoso e aparentemente indestrutível navio que é a nossa moderna civilização colidirá contra a grande massa submersa de nosso formidável auto-engano, da estéril racionalidade com que falseamos nossa natureza (social) e que nos conduziu a essa titânica confrontação de forças em que todo entendimento, toda reflexão profunda, toda revisão da responsabilidade pessoal que cabe na geração desse abismo parecem sistematicamente abolidos, já que “a culpa é sempre dos outros” (p. 14).

Nosso prognóstico social é realmente terrível, o desespero quase inevitável. O pessimismo toma conta dos discursos sociológicos, dando-nos bofetadas que se dissolvem no mar líquido das futilidades. Está tudo aí, tudo aí somos nós, e não conseguimos escapar disso, um instante de devaneio em frente à televisão e logo somos capturados pela sedutora propaganda: compraremos algo que não precisamos e seremos felizes.

Discursaremos sobre os alunos agressivos nas escolas, sobre a falta de limites das crianças, sobre os meninos algemados pelos pais para não usarem crack, porque não podemos nem pensar, nem sequer pensar, no crack! Não podemos e não queremos pensar. Pensar dói. Pensar desacomoda. Pensar dá trabalho. Dar-se conta de que o encontro com o conhecimento não é neutro. E custa a nossa tranquilidade, a saída do oásis que outrora habitávamos e parecia perfeito. Sabemos que perfeito não era, mas um dia houve uma promessa de que algo nos completaria por inteiro.

Enquanto ainda há tempo convido a(o) leitor(a) a um passeio por algumas linhas implicadas nesses discursos e na clínica desse tema. Convido-a(o) a pensar comigo desde um lugar ético-polítco pois neste momento tornou-se necessário um posicionamento profissional que possibilite a produção de interlocuções, linhas de fuga, novas possibilidades para aquilo que parece ter-se tornado um verdadeiro caos social.


[1] As referências de minha prática com o tema da violência devem-se a experiência como bolsista CNPq na pesquisa intitulada: A construção identitária na adolescência em contextos violentos na perspectiva da Clínica em Saúde Mental. Coordenada pela Dra. Marta Conte. Aprovada pelo Edital MCT/CNPq/CT-Saúde/MS/SCTIE/DECIT N º33/2008 e desenvolvida pela Escola de Saúde Pública/RS ao longo dos anos de 2009 e 2010, meus últimos anos de formação em Psicologia.

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Jana :)
    fev 26, 2011 @ 18:41:04

    Nossa, disse tudo mesmo. As pessoas às vezes estão tão acostumadas à situação de medo constante que nem mais identificam como medo. Não ocorre que exista outra realidade – sem medo. O mais irônico é que a sociedade teme o que mais produz e que os burgueses se sentam no seu próprio conforto e julgam as pessoas que excluem. Como cansei de ouvir em minha cidade as pessoas dizerem “ele é pobre porque é preguiçoso, trabalho não falta”. Será? [E sim, sei que a resposta é óbvia]

    Responder

  2. Bloco do eu me importo
    fev 27, 2011 @ 16:02:13

    Pois é Jana, trabalhando de perto com as pessoas a gente começa a se dar conta de que o medo é da gente mesmo. Nós criamos os monstros e depois criamos o medo deles. Esquizofrenia social pura! E sim há muito preconceito, e a gente sempre olha de fora e julga o outro, como se não fizéssemos parte das coisas doidas desse mundo, como se não as produzíssemos. “Outro” mundo pode ser possível, a questão é que antes precisamos nos implicar com “este” mundo.

    Responder

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