DENTRO SEM FORA

Texto de Juliana Schneider Guterres

DENTRO SEM FORA

A vida está

dentro da vida

em si mesma circunscrita

sem saída.

Nenhum riso

nem soluço

rompe

a barreira de barulhos.

A vazão

é para o nada.

Por conseguinte

não vaza[1]

Quarta-feira. Nossa sessão começa sempre por volta das três da tarde. Sol. Chuva. Tem dias que faz frio, noutros o calor é escaldante. Passam-se dias, semanas, meses, mas o jogo é sempre o mesmo. O Jogo da Vida. O ritual tampouco muda. Ele entra na sala, senta-se calado. Pergunto como ele está. Silêncio. Como foi a semana. Silêncio. (Às vezes tenho vontade de parar de perguntar.) Passam-se alguns minutos, ele me olha e diz “vamos jogar. O jogo, aquele”. Vai até o armário, pega a caixa. Sentamos no chão. Abrimos a caixa, montamos o tabuleiro, distribuímos as notas coloridas de dinheiro, escolhemos a cor dos nossos carros e aconchegamos neles nossos eus-bonecos – segundo as instruções do jogo, bonecos rosa são para meninas, azuis para meninos. Quem tira o número mais alto na roleta, começa o jogo e parte para gerir sua vida, agora estampada (e capturada) naquele tabuleiro.

De início só se abrem duas possibilidades: fazer faculdade ou não fazer. Se fizer, a sorte vai dizer se você será médico, advogado, engenheiro, artista, professor ou terá somente um diploma universitário. O salário varia de acordo com a profissão. Se não fizer, não fez. O caminho é mais curto, assim como o salário. Daí em diante, todas as vezes em que passar pela casa “Dia do pagamento” você receberá seu salário. Mas muita atenção! Você perderá o salário se esquecer de recebê-lo antes que o próximo jogador gire a roleta.

Nas rodadas seguintes, o dia do casamento (receba os presentes!). Parada obrigatória. Todo mundo é obrigado a casar? No jogo da vida, sim. E até que a morte ou o fim do jogo os separe, porque, mesmo que procure em todo o tabuleiro, você nunca encontrará a casa “Divórcio. Pague $ 30.000”. Assim, o mesmo cônjuge-boneco e um punhado de filhos-bonecos (receba os presentes!) – que, fatalmente, você terá – te acompanharão até as últimas casas. (Lembrando, papai-boneco e mamãe-boneco sentados na frente do carro, azul e rosa, respectivamente, sem possibilidade de alteração. Filhos-bonecos no banco de trás. Bicolores, azul para meninos, rosa para meninas, mais uma vez, nenhuma possibilidade de alteração – nem da cor, nem da estrutura familiar.) No final do jogo, cada filho-criança-boneco será trocado por $ 48.000. E o cônjuge-boneco? Este não lhe serve mais pra nada. Talvez vocês possam se encontrar em uma próxima partida.

Segue o jogo. “Você precisa de dentadura. Pague $ 2.000”. “Herança. Receba $ 30.000”. Quem morreu? O jogo não menciona, mas há se ser parente próximo. Aceite, assim você poderá pagar ao dentista pela dentadura. “Seu iate bateu em um icebergue. Venda cubos de gelo e receba $ 10.000”. “Seu bode comeu orquídeas premiadas. Pague $ 3.000”. Bode?! “Ganhou Prêmio Nobel. Receba $ 120.000”. “Ganhou reality show! Receba $ 200.000”. Quanta versatilidade!

Mais rodadas. “Titia deixou 50 gatos. Pague $ 20.000 para os cuidados”. “Ajude a Arara Azul a não entrar em extinção. Pague $ 220.000”. “Comprou 2 cavalos. Pague $ 60.000”. A bicharada levou todo nosso dinheiro.

E a roleta segue girando, trazendo nossa recuperação. “Achou tesouro antigo no quintal. Receba $ 24.000”. “Descobriu Atlântida enquanto fazia pesca submarina. Receba $ 12.000”. “Achou obra de arte! Receba R$ 120.000”.

Quem ganha o jogo da vida? Segundo o manual de instruções, se ninguém se tornar magnata, o jogo termina quando o último jogador for à falência ou se tornar um milionário. Todos os jogadores, então, contam seu dinheiro, quem tiver mais, vence. Simples assim.

Ou não.

E se você não fosse milionário? E se tampouco fosse à falência? E se você não quisesse balizar sua vida pelo saldo da sua conta bancária? E se as meninas passassem a usar azul, resolvessem não se casar? E se os meninos quisessem namorar outros meninos? E se passássemos a andar a pé? E se algumas crianças não tivessem família? E se algumas famílias não tivessem criança? E se não existissem famílias? E se existisse vida para além do tabuleiro?

Sigo sem entender o bode. Assim como a vida capturada em um tabuleiro.

Jogo da vida, vidas em jogo. A vida, no jogo, não vaza.


[1] GULLAR, Ferreira. Toda poesia Toda poesia (1950-1999). 18ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009. p. 393.

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