Rafinha Bastos é um homem bom

Jonas Lewis

Pronto. A censura voltou. Dão pulos de alegria os órfãos da SNI, os resíduos de carrascos que assolam a possibilidade e a capacidade de um país engendrar sua arte. Obti a triste notícia de que nesta segunda-feira, o comediante Rafinha Bastos não estará, como de costume, na bancada do CQC, programa que apresenta junto a Marcelo Tas e Marco Luque. Não gosto de Stand-Up, apesar de certa vez ter ido ao show de Rafinha e conseguido rir sem parar. Não assisto ao CQC assíduamente, apesar de já ter arrumado motivos para me divertir com o programa. O que assusta e traz a certeza de estarmos vivendo como uma espécie de manequim estético que desfila na passarela, expondo tendências contraditórias e somando décadas que se entrelaçam fazendo terríveis estragos à mente humana, é que censuramos e caçamos práticas comuns e banais como compras de fim de mês.
O comediante Rafinha foi censurado por causa de seu trabalho. Por causa de sua arte. Ou melhor, por causa de uma piada. Uma frase. Pergunto-me a que valor moral estamos atribuindo criações. Não ando aqui em defesa de alguém. Ando em defesa de algo. Quero salvar a nudez do devaneio, a pureza do pensamento, e acima de tudo soltar aos ares talvez o clichê mais importante de todos os tempos, chamado liberdade. Não vou entrar em conceitualizações da filosofia e engodos acadêmicos, só almejo que os brucutus não continuem brucutus, e que consigam, por fim, apenas aceitar o que é a arte e o que é o humor. Não peço nem que compreendam pois seria demasiada complexidade. Humor é destruição. Arte é destruição. E mesmo que se construa, ou que o próprio corpo exale a beleza na forma mais pura e menos discutível, derstruímos a possibilidade da realidade, assassinamos o pragmatismo da existência carnal e partimos à metafísica pura. São regras burlando regras, que tão burláveis, podem inclusive voltar a ser o que eram, e não saírem do lugar, sendo o nada que sempre foram. O humor é ferramenta, conserto e o que se conserta. É perverso e ácido como o artista que destrói afim de construir outra vez. Sem a lágrima de um oponente qualquer, sem o sofrimento fingido de um ser ou de uma situação, não há humor, não há riso ou gargalhada.
Rafinha é um homem bom. Um artista virtuoso e destruidor. O talento se destacando no veículo que degrada a cada minuto a juventude e a infância de um país chamado Brasil. Fez uma piada com um bebê e uma menina grávida. Temas pontiagudos frente a uma sociedade de óculos. Palavras que causam o levantamento ético das sobrancelhas da censura pobre e agora, tão poderosa. Gravidez, menina e bebê. Nossos cérebros de um século XXI atolado em uma moral provisória baseada na culpa pelo que fizemos e pelo que faremos relaciona tudo isso com a pedofilia (condenação da moda), com o estupro, com a monstruosidade, com a doença humana. Sem querer esqueçemos, ou fingimos conscientes, que assistimos à novelas sub-humanas, expomos os pequenos à delitos absurdos e aturamos atos inconsequentes 24 horas por dia. E isso não é arte. E não tem graça nenhuma.

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5 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Artur Wilkoszynski
    out 03, 2011 @ 12:14:51

    Não discuto o absurdo que é a censura, ainda mais a prévia. Neste caso, entretanto, me cheira mais a “punição”. A sutileza de significados aqui é cronológica, pois estabelece uma restrição a algo que já foi feito e não que será… Acredito que toda forma de arte deve sim ser livre, porém, ao ser ampla, sutil e inespecífica, ela não é dirigida a ninguém e a todos ao mesmo tempo… Traduz um imaginário coletivo, mesmo que só para alguns. Neste caso, a tal piada da grávida e o do bebê é realmente grosseira e personalizada e, por isso, estabelece o sentido de agressão, de desrespeito… Sai do coletivo e aponta o dedo para alguém, que tem todo o direito de sentir-se publicamente atingido. Imaginemos se todos nós passássemos a dizer o que nos vem a mente, sem qualquer tipo de auto-censura… Impossível convivermos. Aí se estabelece a dimensão do coletivo, da sociedade, para a qual sempre haverá “códigos de boa convivência”, grupalmente validados, ou não… Me parece que, neste caso, estão dizendo ao Rafinha – o homem bom – que este tipo de piada deveria ficar só na cabeça dele. Ao dizê-la, torná-la pública e objeto do domínio coletivo, este último poderá validar ou não seu sentido, qualidade, adequação, etc… Em outras palavras, o senso comum já nos diz: “a liberdade de um termina onde começa a do outro”. Pra mim, isto tem um nome mais fácil, porém bem mais esquecido nestes dias: respeito!

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  2. Jonas Lewis
    out 03, 2011 @ 14:11:23

    Essa idéia de que a arte “deve”, a arte “tem de ser”, “precisa”, já deturpa a possibilidade infinda de ser arte. As pessoas que almejam alcançá-la, como arte, e não como mero objeto, enfeite de mesa, manifestação pública ou seja lá o que, “precisam” entender, “tem de” compreender, “devem” sim coligir em suas mentes ainda recém nascidas que a arte e o esforço do artista é transcendental à “ética humana”. Pare aí. Pense aí. Transcendental à ética humana. E isso é importantíssimo para que façamos arte com liberdade e respeito ao humano, pois a mais pura atividade humana é a arte. Difícil aceitar que Rafinha faz arte? Deve ser. Mais difícil ainda aceitar que a arte pode sim, ser direcionada a uma pessoa, a um indivíduo, ou a um bebê. Moral humana, lixo ético, bondade de plástico que chamamos evolução. Liberdade e respeito, sim. Aos humanos e à sua atividade libertadora e explosiva: a ironia, o humor, a arte.

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  3. Artur Wilkoszynski
    out 07, 2011 @ 00:49:36

    Ahh, então, se a arte não “deve” ser livre, achas que a arte pode ser controlada, regulada, censurada? Cuidado com o jogo de palavras apressado… Claramente, o sentido aqui foi o da manutenção do caráter livre que é intrinseco a toda forma de arte, e não o de dar uma receita ou promover um formato! Quanto ao fato, não consigo ver arte ou liberdade de expressão ao defender-se qualquer forma de violência a um ser, seja ele um animal, um feto, bebê, homem ou mulher. Como falar disto mantendo-se a “liberdade e respeito” que defendes?? Se falar publicamente em pedofilia passou a ser arte, realmente passo a crer que ela deva ser controlada, regulada e censurada. Não estamos aqui falando de liberdade de expressão, arte ou censura, mas de (falta de) ética e de respeito! Afinal, apenas me reservo o direito de achar absurdo, grosseiro e desrespeitoso o que ele disse e como o fez… Mas, sinceramente, não espero que concordes com isso.

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  4. Lidia
    out 11, 2011 @ 11:40:08

    Os textos acima foram muito bem escritos e defendidos, então peço licença, eu sou uma pessoa simples sem estudo, a única coisa que posso dizer sobre esse rapaz e que me sinto muito mal quando ele faz uma piada que ofenda outra pessoa, sei que muito vão dizer que e demagogia , mas sempre me coloco no lugar da pessoa ofendida .
    Foi assim no caso da Ebe Camargo, na época se recuperando de uma doença, e me coloquei no lugar da família da Leila Lopes , Do Fabio assunção que lutou e ainda luta contra o vicio , agora me coloco no lugar dos pais e do marido da Vanessa , e sobre tudo o mal gosto da piada sobre estupro, foi de muito mau gosto, além de chamar ao vivo pela tv a colega de “cadela”
    Em resumo, a única coisa que sei e que as piadas deste rapaz me fazem sentir mal, impotente , a única coisa que passa pela minha cabeça e por que deixam ele fazer isso ?
    Esse rapaz não respeita a historia da Tv pois não respeita os nossos comediantes como Jô Soares, Chico Anísio, a turma do caceta .
    Dizem que ele e muito inteligente, deve ser mesmo, pois ele descobriu que a polemica trás muito ibope, fama, ele não esta nem ai para os sentimentos das pessoas.
    Pior que ele usa como desculpa o argumento da liberdade de expressão como justificativa para para ofender as pessoas
    Talvez se as pessoas parasse de puxar o saco deste rapaz , ele começaria a respeitar seus fãs , sei que seus fãs são da alta sociedade ,pois ele disse que não faz piada para o povão.
    Eu faço parte do povão!

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  5. Jonas Lewis da Costa Franco
    out 12, 2011 @ 19:46:11

    Quando ele disse que “comeria ela e o bebê”, entenda-se: ela é muito gostosa e eu a comeria junto de tudo que ela tivesse, até a coisa mais impensável e escrota.Há quem ache essa interpretação irrisória e burlesca. Há quem diga que é insanidade pensar assim. Certamente pensarão dessa forma. Falar publicamente em pedofilia não é isso, e se fosse não teria problema algum. Existe a pedofilia, a necrofilia, a fome, o abuso dos direitos, e tudo é humano, é artisticamente trabalhável e publicável. A pedofilia praticada, o homicídio consumado na realidade, devem ser punidos e julgados dentro de um conjunto de leis, resolvidos pelo país onde os fatos ocorreram. Porém no dia em que a pedofilia cantada, pintada ou dita, a tortura filmada numa encenação guardada num rolo de filme, for censurada regulada e controlada, viveremos como parafusos, lenços, sapatos ou cartas de baralho. Porém menos dignos, pois esses objetos, em sua irracionalidade e condição inanimada, não negam sua naturalidade e fazem de sua arte, algo verdadeiro e limpo.
    Lídia… ninguém “usa” o argumento da liberdade de expressão. A liberdade de expressão é um contrato invisível, uma condição belíssima em que a humanidade precisa chegar, para que a arte, o humor e a opinião, possam ajudar o mundo. A ajuda ao mundo só pode existir, se a liberdade de expressão existir. E esse termo: “Liberdade de Expressão”, já é batido e clichê. Prefiro usar frases ao invés de termos. Estou ao lado da arte ilimitada, da filosofia que transgride e transcende a moral e a ética, afim de burlar certas certezas e regras humanas. Acho que a humanidade carrega algumas verdades absolutas e tem uma dificuldade imensa em abandoná-las. Se és do povão, como disseste… deverias indignar-te mais ainda, pois vives num país onde o direcionamento de algo a ti, do povão, tem o peso de uma formiga. Mas esse mesmo algo, quando direcionado ao empresário poderoso, ao artista rico e influente, ganha o peso de um elefante e é capaz de causar danos enormes. Jô Soares, Chico Anysio, foram gênios do humor, em outra época, com outro humor. Não se pode esperar de Rafinha Bastos a mesma coisa. Ele criou outro tipo de possibilidade, mas dessa vez não mexeu com o povão, não tocou na classe sofrida do país, e sim, tripudiou com os poderosos. O que aconteceu? Se deu mal! Mas eu espero que nem tão mal assim! Torço por ele e por seu humor pontiagudo, mal, e desgraçado. Coisa que ele não é como pessoa. O é sim, como artista. E essa é a verdadeira liberdade e mágica de fazer arte!

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