E viva a não lógica!

Juliana Schneider Guterres

Beijo gay em horário nobre, nem pensar. Mas assassinato gay, pode. Atá! Os postes mijando nos cachorros! A maior emissora de televisão do país (que, ao meu ver, não tem culhão para bancar em rede nacional um beijo homossexual, afinal, como bons capitalistas, tenta-se agradar gregos e troianos. Sem beijos então, isso pode gerar menos anunciantes) dando essa lição aos seus telespectadores. Me choquei, decepcionei! Fiquei puta! Ao invés de promover o amor, o carinho e o desejo – em qualquer forma que esses venham a se dar -, a não lógica da Rede Globo opta por televisionar cenas de violência explícita contra um homossexual. Lá atrás, nessa lógica controversa, deve haver uma mensagem. Mas aí é que está: porque andarmos por linhas nada nítidas quando poderíamos ser mais claros? Beijem-se, abracem-se, acarinhem-se! Eu quero ver a liberdade de ser e viver seus afetos estampadas nas telas, escancaradas nas casas.  Não seria essa a verdade aceitação da diversidade? Qual é a não-lógica que diz que mostrando uma cena de violência incitaremos o altruísmo, a decência e o respeito? Psicologia reversa? Podia funcionar muito bem nas nossas infâncias com nossas mamães nos ameaçando deixar pra trás na rua – quando partíamos em disparada de volta ao rabo de suas saias, mas não venham me trovar que aqui isso também se aplica. Já dizia o poeta: gentileza gera gentileza. Falo por mim, parafraseando o sábio: RESPEITO GERA RESPEITO. E violência, infelizmente, gera violência.

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4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Fabricio Bittencourt
    ago 11, 2011 @ 11:43:04

    Juliana,

    A Globo é uma das maiores incentivadoras de ações contra o preconceito. O fato de um gay ter morrido violentamente tem por objetivo retratar o drama de muitas famílias. Não há nisso, nenhuma intenção de banalizar o crime ou promovê-lo. Há, nitidamente, uma proposta de escancarar a verdade pra uma sociedade BURRA, MACHISTA E HIPÓCRITA.
    A nitidez disso está diante dos nossos olhos, não havendo qualquer mensagem subliminar ou falta de clareza.
    E o beijo?
    O beijo é secundário, é clichê, é piegas. A relação de carinho, de afeto, de amor e de verdade sempre foram muito bem abordadas pela Globo, fazendo com o que o beijo se tornasse dispensável, descabível.
    Eu sou gay e assino embaixo da atitude da rede Globo, na certeza de que muitas das conquistas em defesa das relações homoafetivas partem de ações como essa: a verdade, em massa!

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  2. Andersen Garcia Giovanni
    ago 12, 2011 @ 10:55:52

    Tchê.. ! Fabricio concordo em parte com vc. mas se uma telenovela tem como tema a vida do seu conjunto social.. e traz pro foco as relações de afeto.. por que não falar das relações homoafetivas beijando ?? acredito que “ver” mesmo que de forma arquetípica uma relação homoafetivas ou uma persona gay em um folhetim da TV aberta “ajuda” pro tema (homossexual) ganhar as ruas..!
    Não podemos mais aceitar uma vida guetificada, com ambientes reservados e privados..! é claro que essa exposição em rede.. cria alguns “resíduos” que não colaboram tanto pro movimento LGBT.. e que podem levar parte do debate pra esse campo de “produto” pra idéia de que ser gay é Cult..”modinha”, não acredito que nossa sociedade está pronta pra ver um casal gay vivendo uma relação “franca” em uma telenovela.. ou mesmo um banal e corriqueiro beijo..!! mas o que espero ver é uma sociedade reconhecendo que essas pessoas, nos os gays, estamos vivendo a margem do discurso social, não por ser uma escolha.. mas por não termos cobertura legal… eu por ser gay sou obrigado a viver as margens do Estado..! a não abordagem do tema, seja em que mídia for só serve pra manter os equivocados discursos sobre os LGBT..! esse retrocesso das emissoras de TV vem atender ao “desejo popular” de que os gays permaneçam no gueto…assim a fala do: eu não tenho nada contra…! pode continuar hipocritamente ecoando..!
    E Eu quero sim ver um beijo… acredito sim que esse beijo vai ser um passo adiante na busca legal por direitos civis.. ! acredito que a sena mostrada e a forma como a novela vem conduzindo o tema tem marcado esse “espaço” do Gay como aquele “entregue” a uma vida degradada, exposta a selvageria das ruas…! o que senti com essa novela.. e na fala de populares.. foi um sentimento de pega em ser gay ! não sou uma vitima !! não quero a piedade da sociedade !! quero direitos.. quero o amplo aceso ao exercício de minha cidadania

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  3. Camila
    set 11, 2011 @ 20:37:39

    Fabrício, Juliana, Andersen,
    fiquei bem incomodada com a cena da novela, pela violência. Acho importante retratar esse tipo de cena porque a questão da violência tem que ser tematizada sim: mata-se diariamente, e é de tirar o sono da gente! E naquele dia tirou.
    Mas também sinto falta da cena de beijo.
    Há dois dias atrás vivi uma situação que me deixou incomodada, perturbada comigo mesma… eu estava num bar com três amigos gay, sendo que dois eram um casal. Esse casal trocou algumas palavras carinhosas e parecia que o próximo passo era “aquele” beijão na boca! Mas estávamos num “lugar público” (público uma ova, né!) e eles não se beijaram.
    O que me deixou perturbada comigo mesma foi a apreensão daquele momento… eu fiquei com uma espécie de medo de que eles se beijassem… devo até ter feito aquela careta de filme de suspense. Quando me dei conta, fiquei incomodada comigo mesma… cadê a coragem? Eu queria sim sentir a ‘naturalização’ do beijo gay e ter um olhar – inclusive o meu olhar – mais leve sobre isso.

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  4. Bloco do eu me importo
    set 13, 2011 @ 11:16:41

    Estava lendo essa semana e achei alguém que exprime a mesma idéia que eu tenho sobre a TV – possivelmente de um jeito muito mais claro do que eu consegui passar no post original. Aqui Celso Athayde está falando sobre a criminalidade, mas vamos fazer o exercício de deslocar as considerações dele para nossos comentários sobre a homossexualidade, a violência e o beijo (que não saiu).

    “Ali, eu via claramente o quanto a televisão contribui e contribuiu para a nacionalização da criminalidade; como a televisão massifica e acaba estimulando as pessoas a fazer o que se estampa na tela. Não estou dizendo que a forma como as TVs divulgam as notícias acaba sendo a maior fonte de alimentação para esses jovens, que já têm tendências sociais a essas práticas a partir de seus desejos e de suas limitações. A TV consolida a informação e as posições deles. Pior que isso, as TVs não somente fazem as matérias de maneira equivocada – considerando-se o ponto de vista do qual observo a situação, claro -, como também colaboram para a manutenção e ampliação do problema, ao desenvolver campanhas de propaganda que giram em torno da valorização do sexo, status e poder. Mas tudo em nome da liberdade de imprensa. Então vamos nessa…”
    (Celso Athayde no capítulo Uma noite em Joinville, do livro Cabeça de Porco)

    Abraço, Juliana

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