O mano pô, a mina pá

Juliana Schneider Guterres

Eu lia sobre a morte do X9 no Rio de Janeiro* enquanto me banhava em uma jacuzzi na Califórinia. Seu corpo quente lambido pelas chamas em uma lixeira qualquer da favela. Meu corpo quente massageado pelas águas das duchas ligeiras. O corpo dele no lixo. Meu corpo no luxo. Quem de nós dois carrega a verdade? Aliás, há verdade possível? Ou nos debatemos num emaranhado de dias, acasos, gentes e coisas – sem saber para onde estamos rumando, nem que trilhas tomamos para estar aí? É um só mundo, mas nossas vidas foram escritas em cadernos distintos. Ou não. Talvez tenhamos cruzado o olhar em um dia em que os amigos de classe média e senso comum entraram na boca para fazer a cabeça do final do semana. Domingo à tarde, eu aqui – sentada na jacuzzi quentinha, no meio do pátio, da área de lazer, do condomínio na Califórnia. E ele lá, há muito esquecido, perdido, enterrado. Dois corpos, duas realidades.

Minhas narinas são invadidas por um cheiro que não me é estranho. Marofa. Algum vizinho querendo ficar high hoje. É, talvez a gente não esteja assim tão longe um do outro. O cheiro é o mesmo.

* Texto escrito num respiro só, enquanto lia Falcão, meninos do tráfico, de MV Bill e Celso Athayde. Para ser mais específica, enquanto lia o capítulo Brincadeira de criança, página 55.

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