Sim, a gente se importa com o estupro.

Entre uma festa e outra nos States, conheci uma moça que me marcou como poucas. De imediato, a personalidade forte dela atraiu a minha e viramos, tipo assim, best-friends-forever-oh-my-god, na falta de melhor termo. Para fins ilustrativos, chamemos-a de Fernanda. Ou seja, o nome verdadeiro dela com certeza não é Fernanda (só pra deixar claro).

A Fernanda é uma mulher independente e decidida, linda e inteligente, poliglota e culta. Ela é assim uma super mulher, que voa com capa e tudo de Norwalk a Nova Iorque para pagar seu aluguel, seus drinks, seus estudos e qualquer porra que ela quiser. Ela tem tanta força, tanta energia, que ela podia mudar o mundo se ela quisesse. Mas ela não consegue, ela tem tantos conflitos internos que o seu corpo cansa antes mesmo de acordar de manhã bem cedo. E sabe o que causou tamanho desperdício de ser humano?

Em um bar pós-2-cosmopolitans-e-3-mojitos, ela confessou que foi estuprada pelo ex-namorado quando ele, drogado, arrombou a casa onde ela mora e a esperou voltar do trabalho. Obviamente, a vida dela nunca mais foi a mesma. Obviamente número dois, eu nunca pedi se o filho da puta (peço desculpas pelo meu léxico, brocha pau no cú soa mais adequado para vossa senhoria?) foi punido. Eu sabia que não, ela não podia contar com o sistema patriarcal para punir um homem. Há.

Claro, ela tinha vergonha do próprio corpo, da categorização social, mas acima de tudo ela se sentiu merecedora. Dá pra acreditar? Como alguém pode merecer ser estuprada/o? Afinal de contas, foi ela que um dia namorou e mostrou onde morava. Também foi ela quem entrou em casa apesar de ter notado a porta arrombada. E como se não bastasse, ela teve a audácia de tentar acalmá-lo apesar da cocaína, da corda que ele tinha no bolso, do desrespeito que ele carregava nas mãos. Ela me contou que ainda lembra o cheiro de cigarro emanando dele, mas eu acho que ele cheirava mais à covardia e à necessidade de provar algo para si mesmo (talvez que, assim como o Pinóquio, ele era um menino de verdade agora?).

Mas não interessa, porque foi ela quem pediu, não foi?

Não?

Que sistema é esse?  Que incita violência e a etiqueta como sexy, que diz que “paus e pedras podem quebrar os meus ossos, mas chicotes e correntes me excitam”? (RIHANNA, cantora pop tão talentosa que é mencionada pelo tamanho da bunda e pela beleza das pernas, 2011, S&M ou algo do gênero).  No entanto, quando as mulheres são tratadas como na TV (que, a propósito, é ficção), e tem a coragem de exigir os direitos humanos universais para si, esse mesmo sistema diz que “elas pediram por isso”, “que ela provocou, porque no fundo ela queria”. Mas esse não é o ponto.

Peraí, então sim tu tá me dizendo que esse post gigante tem um ponto?

Talvez o ponto seja quem paga o preço. Graças a uma alteração na legislação (Art. 213 e 214) em 2009, tanto homens quanto mulheres são reconhecidos/as como vítimas de estupro, portanto a própria lei diz que todos/as pagam o preço. Pela segunda (talvez terceira?) vez na vida, concordo; todos/as pagamos quando a sociedade transforma indivíduos com tanto potencial em meros corpos em movimento, sem auto-estima, sem respeito, sem esperança.

Chega? Acho que sim, né?

[desabafo de Janaína Bordignon]

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Samira Spolidorio
    maio 24, 2011 @ 10:14:27

    Triste isso, muito triste. Eu conheço um caso semelhante de uma moça que foi estuprada pelo ex-namorado e isso mudou completamente a vida dela, de uma mulher doce e sonhadora, ela virou uma man-eater e dominatrix e diz q nunca mais conseguiu confiar em homem nenhum e que o prazer dela agora é “torturar” homens, seja física ou emocionalmente.
    =/

    Responder

  2. Bloco do eu me importo
    maio 25, 2011 @ 17:18:50

    Triste, mas infelizmente muito comum. E o pior é que torturar alguém não faz ninguém feliz de verdade. Mas ao mesmo tempo, quem pode julgar ela, né? ai ai queria eu poder fazer algo a respeito… :/

    Responder

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