Trem de doido

Juliana Schneider Guterres

12:31 p.m. Entro no trem em Bridgeport, Connecticut (Trensurb ainda tem muito o que aprender!). Levo no peito uma espécie de saudade dos meses que passei nesse lugar, mas o clima não é de melancolia (apesar do dia griz), ao contrário, não vejo a hora de ser abraçada pela brisa praieira da Califórnia.

01:50 p.m. Desembarque em Nova Iorque, Penn Station. Muita gente indo e vindo. Quem são essas pessoas? Para onde vão, de onde vieram? Que histórias existem atrás desses rostos, que saudades ficam nesses portos?

03:50 p.m. Embarcando em outro trem, para Chicago – onde me deixo ficar três dias para esticar as pernas e os olhos. Uma senhora negra de meia idade desesperadamente grita dentro do vagão: “eu sou Deus. Sou aquele que dorme na rua, que passa fome e você não vê”. Ela se benze e passa em todos os assentos distribuindo suas bençãos a todos os outros passageiros. Tá comigo, tá com Deus – hoje, literalmente.

05:00 p.m. “Nada a temer, nada a combinar na hora de achar o meu lugar no trem e não sentir pavor dos ratos soltos na praça, minha casa”. Clube da esquina nos fones. Seguimos viagem.

05:45 p.m. Uma moça que está sentada próxima de mim, abre uma marmita e começa a martelar com a colher um bloco de feijão com arroz – almoço! Ela come ruidosamente enquanto frita com alguém no telefone (e eu começo a sentir saudades da senhorinha que achava que era Deus!).

06:30 p.m. Primeira parada mais longa em um lugar que tenha cara de habitável – até então era tudo água e mato. Pausa para os amantes da nicotina e, surpresa, a Deus também apetece um cigarrinho! Meia hora, dois cigarros e um café depois, partimos.

09:30 p.m. Acordo depois de três horas “pescando” – pescoço não é mais uma coisa com a qual eu possa contar (nem bunda, mas achei melhor poupá-los dos detalhes sórdidos da história!).

10:00 p.m. A doce e pequena comissária de bordo (visão romanceada minha, porque a comissária aqui é comissário, rude como só ele sabe ser e pesa, pelo menos, 130 quilos!) entra no vagão e me atira um travesseiro.

10:30 p.m. Quando começo a me questionar porque resolvir cruzar o país de trem, a resposta adentra o vagão – uma família amish procura lugar para se sentar. Diversidade cultural, era isso aí mesmo.

10:45 p.m. A diversidade cultural ameaça me sufocar! Nunca me senti tão perto de casa nesses meses morando aqui – consigo ver meus pés entrando em um galpão da Expointer, os degetos dos animais rolando no meio das palhas e o público desavisado sapateandoem cima. Putaque pariu! Custa tomar um banho antes de viajar e optar por abandonar esse cheiro de humanidade que invade minhas narinas?

11:00 p.m. A tiazinha que sentou do meu lado (e eu passei essa última meia hora agradecendo que não tenha sido a cheia de odores experiência da diversidade cultural!) me dá boas dicas do que fazerem Chicago. Thank you!

11:50 p.m. Mamãe amish tirou a touquinha para se ajeitar. Nossa, meu cabelo é do tamanho do dela! É, tá na hora de cortar – ou então de procurar um marido de cabelo chanel e barba até o meio do peito, que nem o dela.

02:15 a.m. Esqueci de mencionar que a família amish tinha um lindo bebê – que chorou até agora, razão pela qual ainda estou acordada. Mas eu entendo a precoce criança, eu também choraria quando descobrisse que pertenço a uma família amish.

02:50 a.m. Quando, finalmente, consigo dormir, sou acordada pela luz do comissário de bordo no meu rosto. Adorável rapaz! Ele cochicha alguma coisa para a família que cheira à humanidade e eles recolhem seus pertences e se vão – provavelmente ele informou que sua estação era a próxima, mas não consigo deixar de pensar em algo bem mais fantasístico!

06:23 a.m. Good morning, sunshine! Acabo de ver uma placa, estou em Dayton – aonde quer que isso seja e o que quer que isso signifique.

06:50 a.m. A tiazinha que está sentada comigo também acorda. Quero confirmar com ela a previsão de chegada do trem, já que ela mora em Chicago e é a única de nós duas que sabe onde estamos. É mesmo por volta das 9 horas? – pergunto. Ela me diz que não chegaremos antes das 11 horas. Duas horas a mais de pesquisa antropológica – dor nas costas, bunda quadrada e diversão garantidas.

07:20 a.m. Três idosos se apoiando em suas bengalas se arrastam pelo corredor, creio eu que rumo ao vagão- restaurante para o café da manhã.

08:10 a.m. A tiazinha do meu lado começa a me mostrar fotos das suas “sobrinhas” no celular. O irmão tem uma fazenda e adotou seis galinhas como parte da família. Ricas meninas!

09:18 a.m. Paramos em South Bend, IN – sigo perdida.

09:34 a.m. Mato, mato, mato e umas plantações que meu pouco conhecimento rural não me permitem saber do que são.

10:00 a.m. Ganhei uma hora – o fuso aqui é outro, volto para as 9:30 horas.

10:20 a.m. A menina que está sentada na minha frente (e que passou resmungando as 18 horas sem parar!) me mostra o celular com o texto “Já estamos em Chicago?”. Nesse momento tenho a nítida impressão de que ela é surda-muda. E sim, estamos em Chicago!

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