Bin Laden is down!

Por Juliana Schneider Guterres

Antes de chegar aqui eu fazia alguma idéia do que era o 11 de setembro (sim, eu sei, o ataque às torres gêmeas, mas me refiro ao corrente sentimento que contamina a população em geral!). Mas eu não tinha total noção do impacto que tal fato reverberou por aqui – uma aura de histeria generalizada, um sentimento de revanchismo sem fim.

Tributos em todos os lugares honrando os “heróis”, porque claro, todo mundo conheceu uma aguerrida vítima da incrível tragédia (nem que essa pessoa tenha sido o primo do tio do cunhado do cara que é dono do posto onde tu abastece teu carro. Viu só? Já disse o presidente aí no vídeo acima, somos unidos como uma grande família!). Segurança pesada (e armada) em todos os lugares, detectores de metais (esvaziem seus bolsos, tirem cintos, jóias e sapatos – uma frase muito comum para se entrar em um inofensivo museu de história natural.), câmeras de segurança são artigos da vida cotidiana (Deleuze se refestela no túmulo, com saudades do confinamento. Já dizia ele “face às formas próximas de um controle incessante em meio aberto, é possível que os confinamentos mais duros nos pareçam pertencer a um passado delicioso e benevolente”[1]). Para não falar dos comentários aleatórios que se escuta every single day – se eu ganhasse uma moeda por cada vez que já ouvi falar do assunto desde que cheguei aqui, já teria dinheiro suficiente para financiar a reconstrução das torres.

Mas o que dói mais, a vida das “inocentes” pessoas que caíram junto com os prédios ou a dor do orgulho ferido? Peraí, algum americano já conseguiu formular tão aparente sentença: por que atacaram meu país? Sim, eu sei, a equação é muito maior do que “A América invade diariamente nossas vidas – e por invasão entendo tanto “a guerra contra o terror”, o apoio aos golpes militares e ditaduras nos países de terceiro mundo, quanto o fabuloso MC Donalds e a fofíssima (e espancada) Rihanna que não para de tocar pelas rádios do mundo afora – nossas leis, nossas culturas e hábitos, por que não jogar o mesmo jogo?” Insisto, América, por que? “En America Latina circula este chiste: ¿Sabe por qué en Estados Unidos no hay golpes militares? Porque no hay embajada norteamericana”[2].

 En 1975 la mitad de los latinoamericanos vivíamos bajo algún tipo de gobierno represivo, muchos de ellos apoyados     por Estados Unidos, que tiene un bochornoso récord de derrocar gobiernos elegidos por otros pueblos y apoyar tiranías que jamás serían toleradas en su propio territorio, como Papa Doc en Haití, Trujillo en la República Dominicana, Somoza en Nicaragua y tantas otras. [3]

Ah sim, no dos outros é refresco, tudo pode! É assistência emergencial, é um favor que uma nação esclarecida presta às famélicas e não instruídas nações supostamente emergentes (e não vou nem entrar no mérito de discutir porque uns tem tantos e outros tão pouco.. o texto sobre o massacre e a exploração dos colonizados, deixo para mais tarde). Mas no meu país, terrorismo. No meu país, desrespeito. No dos outros, ajuda humanitária, isn’t it? Não façam comigo o que eu faço com o resto do mundo. Não manchem o senso de superioridade cultivado ao longo de sucessivos anos de exploração alheia.

Ontem Osama Bin Laden foi capturado, morto, massacrado, subjugado ao vivo em rede mundial pelas nossas caixinhas do espetáculo luminosas – e por esse tranquilo fato, milhares de americanos saíram às ruas para comemorar. (Gente, é a morte de um homem!) Nova Iorque, Washington, Fairfield University (meu pequeno grande universo) – é carnaval e esqueceram de me contar? (Gente, é a morte de um homem!). O sentimento de nacionalismo à flor da pele. Camisetas, bonés, bandeiras – as estrelas azuis e listas bicolores estavam em todos os lugares. (Gente, é a morte de um homem!!!). Déjàvu: 44 anos atrás na Bolívia, lembram? (Um certo revolucionário latino americano. Pra quem não lembra, hoje ele é ídolo pop, estampado em camisetas no peito dos mesmos que financiaram sua morte). A velha obsessão com corpos e bodes expiatórios está de volta.

Mas América, não se preocupe mais – junto com o corpo do muçulmano morto vocês enterrarão todos os seus mais secretos temores (pergunto-me eu, terá ele um funeral?). Todas as suas preocupações jazerão no mesmo solo do “monstro” caído. Não, ele não vai voltar. Não, ele não vai atacar de novo. Não, nada perturbará sua paz novamente.

Será?


[1] DELEUZE, Gilles. Conversações (1972-1990). Tradução de Peter Pal Pelbart. 2 ed. São Paulo: Editora 34, 1992

[2] ALLENDE, Isabel. Mi país inventado. México: Debolsillo, 2010.

[3] ALLENDE, Isabel. Mi país inventado. México: Debolsillo, 2010.

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5 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Francisco Xarão
    maio 03, 2011 @ 12:43:41

    Cuidado Juliana que a Cia monitora blogs e e-mails no mundo todo. Este teu, como o meu aqui, cita diretamente o impronúnciável nome do terror e portanto, cai direto nos filtros que eles tem (não, não é paranóia minha é deles). Então, se for lido pela média dos Norte americanos voce será enquadrada com porta voz do inimigo. Realmente, é incrível que todas as nações e governos e muitas pessoas no mundo todo lamentaram o 11 de setembro e festejaram o 02 de maio. Quando se comabte o fogo ateando mais fogo não há como não se queimar. Não conheço um episódio da história da humanidade em que vingança não resultou em mais matança. Sim, vingança é um prato que se come frio, mas sempre dá indigestão. O pior é que com loucos dos dois lados acaba sobrando para nós, humanistas igênuos que querem e lutam por um mundo de paz.

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  2. Joice Maria Falkoski
    maio 03, 2011 @ 21:47:13

    Ju! Parabéns pelo texto.
    Os Estados Unidos são piores que Narciso, pois não somente consideram feio, mas também destroem (furtivamente ou através de ataques espetaculares) tudo que não é espelho.
    Eu também tenho um Sonho: que um dia não veremos mais espelhos, mas o outro… diferente de mim.

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  3. Bloco do eu me importo
    maio 04, 2011 @ 00:57:08

    Chico, Joice,
    Obrigada pelas tão marcantes participações! Acho bom eu começar a cuidar minha língua por aqui, se eu disser tudo o que eu penso, acabo no mar, que nem o nosso amigo supra-citado (chico, não falo mais o nome então, né! já sou fichada aqui no fbi, não contei? pra trabalhar em escola e eu faço estágio numa creche, tem que tirar impressões digitais e entrar no banco de dados da polícia..).
    Mas o fato de comemorar a morte alheia ainda segue me perturbando..
    Abraços saudosos dos dois, Ju

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  4. Camila
    maio 15, 2011 @ 22:27:19

    “é a morte de um homeme!”…tu traduziste em palavas belas todo o meu sentimento frente a toda essa loucura que aconteceu e acontece todos os dias! “eles” podem tudo? até quando vamos deixar??
    Amei o blog de vocês. descobri ele ontem, enquanto buscava infos sobre o Mental Tchê!!
    Parabéns!!!
    Abraço Camila

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  5. Bloco do eu me importo
    maio 22, 2011 @ 20:49:19

    Camila, segues com a gente então. Sejas muito bem vinda! 🙂
    Beijão, Ju

    Responder

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