Diferença marginal

Texto e foto de Juliana Schneider Guterres

Última aula. Melancolia de fim de semestre. Depois que todos se vão, converso com meu idoso professor na sala vazia. Ele quer saber o que farei na volta ao Brasil. Lhe digo que volto cheia de planos, mas sem grandes pretensões para a recém chegada – clamando e gramando por um lugar ao sol vou. Me sobram expectativas, mas me falta experiência. Lhe desejo um bom ano. Ele me diz que acredita que não vai voltar para o próximo semestre letivo – a universidade está substituindo velhos professores por outros mais novos. Apertamos as mãos sofregamente, talvez na esperança de, por osmose, fornecer àquele que segura a mão o que se tem de sobra e ao outro falta: sua experiência e meus vinte e cinco anos.

Volto para casa chorando em silêncio. Sofro por um mundo que desperdiça suas periferias. Os velhos, os jovens, os negros, os pobres, as mulheres, os escravizados, os loucos, os famélicos, os doentes, os obesos. Sofro por um mundo que finge não ver suas margens, ao mesmo tempo em que se torna mais marginal. As minorias são maiores que uma suposta classe dominante – branca, masculina e educada –, mas ainda não tem voz suficiente para se tornarem perceptíveis. Quando o são, é ainda como minoria.

Quando chegará a hora de fazermos valer nossa cidadania e exigir justiça não só como um artigo que a constituição nos assegura, mas como realidade na vida cotidiana? É chegada a hora de virar esse jogo e não chorarmos mais pelas nossas feridas e corações partidos, mas darmos as mãos e começarmos a marcha. Pelo que? – dirão, somos todos diferentes, não temos causa única. Lutemos então pelo direito de sermos reconhecidos na nossa diversidade e não para que passemos uma vida inteira tentando nos encaixar nos modelos vigentes. Não queremos causa única, queremos causas múltiplas, novos pontos de vista, diferentes discursos que não nos definam como pobres minorias, mas como cidadãos capazes que somos.

Quero um mundo todo-ouvidos que fuja do just one way e se abra a todas as formas de ser. Um mundo que que me perceba em toda a minha não-maioria, para que eu não volte mais uma noite chorando para casa pelo meu idoso professor e sua inexperiente aluna. 


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3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Deise Nais
    abr 29, 2011 @ 02:37:18

    Ju! Lindo texto! Me emocionei mesmo, e partilho de todos estes teus pensamentos!
    Tomara que tua volta te surpreenda… Tenho certeza que teremos uma ótima psicóloga!
    Beijo e saudade de ti guria!

    Responder

  2. Vinícius Corrêa
    out 11, 2011 @ 11:42:46

    Já tinha lido esse texto. Voltei para reler.

    Realmente muito bom.

    Vou compartilhar com a galera no face.

    Bjo.

    Responder

  3. Bloco do eu me importo
    out 12, 2011 @ 19:09:09

    Oba, Vini. O texto dói, mas tu compartilhando meus escritos me deixa bem feliz! Segue acompanhando a gente aí! Um beijo, Ju

    Responder

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