Tia, me dá o resto?

Era uma tarde de sexta-feira. Eu estava na rodoviária à espera de um ônibus para a capital. Perdida entre pensamentos e goles de um refrigerante. Fones nos ouvidos me colocavam em outra órbita, até que a bateria acabou. Vinha um menino, e com ele mais dois. Feições de índios, pequenos garotos sozinhos e de pés descalços. Cena comum, cotidiana, mas por alguma razão nem sempre as coisas comuns e cotidianas me passam despercebidas.

O menino se aproxima e diz: “Tia, me dá o resto?”. Ele nem pode imaginar o que sua frase ressoa em mim naquele momento. Mas referia-se a minha lata de refrigerante, que já ia à metade. “Tia, me dá o resto?”. Sua frase seguiu ecoando, seu rosto marca uma diferença, uma diferença na escuta.

Vibrou este corpo incomodado, por que me afetei deste modo? Por que me desacomodou a pergunta do menino? Cena cotidiana, até banal, meninos pedindo na rua. O que me permite ainda o choque? E penso que história terá esse menino? Vai à escola? Tem uma cama para dormir? Alguém que o alimente e cuide? Busco as referências que me são familiares de cuidado e vida, mas sei que as suas são outras. E que provavelmente as minhas não servirão para ele.

O corpo vibra novamente e não consigo dizer nada, paraliso. Apenas entrego a lata de refrigerante, muda. Ele sai e caminha até a próxima tia, a juntar o próximo resto, do próximo ser que também paralisa e entrega o salgadinho que tem na mão.

Sigo o raciocínio, o menino vive de juntar os restos que nós não queremos mais. Fica na espera, à espreita, do próximo resto que será descartado. Resto de olhar, de gosto. Resto de solidão. Resto de vida. Dejeto transformado em vida. Dejeto que alimenta, constrói, subjetiva. Ele não apenas pede o resto como é ele próprio uma espécie de “resto social”.

E nós seguimos com medo de que um dia esses “restos sociais” venham a cobrar-nos uma dívida (impagável!) de vida. A de não mais nos surpreender com sua presença. Eles não estão fora, somos nós também que os produzimos, e tão presentes estão que se aproximam e nos pedem, constantemente.

Lanço a mim e ao leitor uma pergunta: teríamos mais a lhes oferecer além dos nossos restos?

SILVEIRA, Marília.  Tia, me dá o resto? (Crônica) in São Leopoldo. Prefeitura Municipal, Secretaria de Cultura. O gênero literário (antologia): 3o. Prêmio Sérgio Farina: Carta Editora, 2011, p.67-68.

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. ester
    maio 03, 2011 @ 15:41:34

    bonito; adorei tb a cara “colaborativa” dos co-autores no blog.
    ester

    Resposta

  2. Marília Silveira
    maio 08, 2011 @ 17:58:13

    Oi Ester, bem vinda aqui também! Pois é, a nossa proposta do blog começou por um encontro que vem se desdobrando… pretendemos mais coisas na sequencia com o blog e fora dele também!

    Resposta

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