Dignidade

 

Por Giovanni Andersen Garcia

 

Eu quero a sorte de um amor tranqüilo. Eu quero a sorte de ser loucamente amado. Eu quero um homem para chamar de meu. Mesmo que seja…? Mesmo que seja quem mesmo?

Existe amor legitimo? Se sim, o que legitima esse amor? Se existe amor legitimo, existe então amor ilegítimo? O que o deixa marginal? Somos figuras representativas, temos nosso significado a partir do que é legitimado, fundado em uma moral da dignidade, ou seja, é o meu dizer que significa (e dignifica) o outro. Não importa que esse outro seja um objeto, um trabalho, uma profissão ou pessoa. Somos e vivemos de forma digna ou indigna a partir do discurso que dita as regras (sem nos darmos conta que também construimos e legitimamos esses discursos). É assim e ponto. Ou se está dentro ou se está fora. Branco ou preto. Sim ou não. Puro determinismo, não cabe nessa estrutura formal o elemento da subjetividade, das nuances que dão movimento às relações humanas.

Para mim fica claro de onde brotam os preconceitos: vem da fala referendada por uma sociedade normativa que não suporta o que esta em desacordo com essa moral que ela mesmo referendou, cuspindo fora de seu miolo os comportamentos desviantes. Assim, aquele que decide viver de forma autônoma, liberando-se dos grilhões dessa estrutura de legitimação, é posto em uma vida de marginalidade – pelo menos é esse o discurso que passa a determinar a imoralidade e indignidade do agir deste sujeito.

 Eu sou um sujeito indigno!

Vivo a margem dos discursos, tenho a sombra do clandestino em meu contorno, sou aquele que profana o natural, a ordem e a lei, sou aquele que promove a livre forma de amar. Eu dou a dignidade que meu amor precisa.

 Eu sou um marginal!

Amo aquele que eu sou proibido amar, vivo a vida que não deveria ser vivida, sou aquilo que a sociedade não entende e que as pessoas comentam.

 A quem pertence o amor?

O amor é objeto dos amantes. O amor é perfume que inebria os enamorados. O amor é o ópio que entorpece os apaixonados. O amor é isso e aquilo, o que é dito, o que é sentido. O amor é presente que se recebe, que se usa e compartilha. O amor não é pertence, não está a serviço de uma ideologia, não atende a métricas e fórmulas. O amor é gozo farto, úmido, gemido, é orgasmo, é coito e afago, é o beijo que seqüestra o ar.

 Qual é o rosto e a cor do amor?

O amor é espelho, é reflexo, é Narciso admirando sua face de humano. O amor tem o rosto do eu, do ele, do nós. O amor tem todos os rostos e não tem nenhum. O amor tem todos os verbos, é eco de todos os sons, é caleidoscópio, a psicodelia das formas, a profusão das cores.  O amor tem a minha cor e o seu rosto. O amor é você em mim e eu em você. O amor tem essa cor negra, branca, mulata, cafuza, mameluca, cabocla. É assim pardo e mestiço, é homem e mulher que baila disforme permeando os corpos.

 E eu quem sou ?  

Eu sou um homem que ama outro homem. Eu sou um homem que vive a dor dos homens. A minha carne é também carne humana. A minha vida é também vida humana. Eu sou gente de nossa gente, filho dessa terra. Eu sou índio Tupinambá, cria da floresta. Sou sujeito homem, carcará dos sertões. Sou essa gente bronzeada, sou ele, sou ela. Sou aquele que quer a sorte de um amor.

 Eu sou aquele gay!

 

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4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Bloco do eu me importo
    abr 20, 2011 @ 01:58:11

    Giooooo, meu amor
    Tu nao cansa de me surpreender. Texto maravilhoso. Um manifesto para todas as formas de querer.
    Ju

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  2. Rosane W. Lucena
    abr 20, 2011 @ 11:45:03

    Do Caralho!! hehe

    Pra colaborar com a discussão.. uma produção nossa e aviso aos navegantes que estamos trabalhando em um novo curta: No fim era amor.

    Resposta

  3. maria luiza diello
    abr 23, 2011 @ 11:27:21

    giovanni! é bom ler suas letras!
    aprendemos, desde cedo, a ver, pensar, sentir, querer (e outros quetais) conforme ao interesse do ideário dominante. quando descobrimos que não é só isso que existe, abrimos caminhos para existir. existir singularmente. sem dualismos. apenas sendo o que se é. sendo os possíveis e os vitalismos propiciados pela vivência da singularidade e da diferença!
    o amor singular tem disso!

    Resposta

  4. Janaina
    abr 24, 2011 @ 09:19:00

    Lagrimas caem quando eu leio esse texto, tao bem escrito e carregado de verdades que precisam ser ditas. Brilhante 🙂

    Resposta

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