Nó(s)

 

 

 

Por Giovanni Andersen Garcia


Que nó(s) forma(m) um sujeito? Que nó(s) forma(m) uma sociedade? E de que nó(s) esse(s) nó(s) são formados? E eu? Faço parte desse(s) nó(s)? Que nó(s) tem responsabilidade por mim? Eu sou responsável por ele(s)?

Sim, somos responsáveis pelo nó(s) social – dirá aquele que defende a simbiose entre criador e criatura (o produto modificando o produtor enquanto o produtor modifica o produto). Não, não somos responsáveis pelo nó(s) social – dirá aquele que defende a existência de instâncias separadas e diversas entre sujeito e laço social.

Sim, não? A questão pode ser colocada então da seguinte forma: existe o eu sem o outro? Esse ser coletivo que é o bicho homem pode constituir subjetividade longe de sua manada, ou seja, longe no nó(s)? Ou seriamos indivíduos que apenas reagem às mudanças de regra no jogo social, sem nada interferir nesta esfera?

O que somos, afinal? Atores no palco da vida, entregue a dramas, comedias e tragédias, em uma grande ópera-bufa onde todos seguem um roteiro e o desígnio de um Deus?  Sendo assim o que ecoa é um funesto lamento, a auto-comiseração dos que se absolvem de responsabilidade com a vida do outro e com a sua própria e, acovardados, aninham-se no confortável discurso de vitima, o discurso do eu, eu mesmo e mais ninguém.

O que somos, afinal? Um bicho, um animal? Uma espécie? Uma raça? Um ser social, que necessita do outro? Um ser que existe a partir do olhar do outro? Eu posso ser por que o outro me diz Ser. Assim sendo, o que ecoa é o som dos atabaques que pulsam no pulsar do coração daqueles que estão a bailar na ciranda da vida, e a vida do homem é a sociedade – e neste aspecto, a sociedade é responsável por tudo o que ele produz e ele mesmo é responsável por tudo o que a sociedade produz, já que fundem-se um no outro (mesmo que por vezes este produto seja nocivo à própria sociedade).

Nessa relação de criador e criatura, de eu e outro, seremos sempre responsáveis pelo nó(s) – não há isenção de responsabilidade nessa simbiose social. Somos todos nó(s), músculos, ossos, veias e sangue desse corpo social e, como um organismo vivo, estamos interligados, ou seja, eu preciso e sou responsável por você tanto quanto você precisa e é responsável por mim. E é juntos que temos que perguntar: que tipo de interação entre os organismos sociais estamos cultivando e quais queremos ter para melhor ser?

E é diante do último ocorrido que eu me pergunto: quem somos? Que sociedade é essa que assiste à própria barbárie sem se supor responsável pelo sangue que expõe como flâmula. Que gente é essa que diante da Ágora chora pelas ninfas tombadas que agora jazem envoltas no manto da Pátria Mãe Gentil, invocando como réu a loucura de UM. Mas de quem é a loucura dos que tropeçam naqueles que tombam alvejados pela fome, por um estado omisso e corrupto, pela guerra civil que ceifa a vida de margens assim nem tão plácidas?

Eu me compadeço na dor dos que sofrem e me declaro culpado! Eu tenho em minhas mãos o sangue daqueles que são atingidos pelo descompasso de nossa sociedade. Eu fui e sou responsável por eles, os que vivem e morem. Somos nós que apertamos o gatilho que dispara o revólver apontado para o nosso rosto.

 

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