Rico Porto

 

Texto chorado e escrito por Juliana Schneider Guterres, pós-férias.

 

Chorou como nunca antes havia chorado. Choro manso e sofrido, fruto de cada vereda de seu coração que bate em carne viva. Ah, coração vagabundo! Leviano, leva a moça sempre além. E ela se deixa levar. Baila sem rumo, sem rastro, com passos soltos em ruas de paralelepípedo sem calçada.  Vai torpe, seu corpo é habitado e anestesiado pela dor. Dor de perder o que nunca foi seu. Dor de possuir o que nunca quis ter.

Tomemos a última cuba libre, por favor. Já que é tempo de ir e tudo o que ela quer é ficar. As férias acabaram. Tempo de voltar pra casa. Mas que casa? Ela nunca se sentiu em casa naquele lugar. Nunca ninguém fez questão de acolhê-la. E ela também não fez questão de deixar-se acolher. Vaga sozinha. Perde-se em seus devaneios para escapar da sufocante rotina que teima em lhe invadir os dias e a alma.

Chora copiosamente. Nem tentou conter as lágrimas. Precisava extravasar, materializar a tristeza, palpar a angústia. Dá-se conta que está sentada em uma mesa no meio de uma cafeteria. Como foi parar ali mesmo? Ela não sabe. Dezenas de pares de olhos claros a escrutam, a medem, a julgam, a ridicularizam. Mas eles não a entendem. Perdidos no meio de seus próprios umbigos, nunca conhecerão a dor alheia.

De repente dá-se conta. Pode continuar respirando, não com tranqüilidade, mas ainda sim respirando. Os dias daquele verão junto ao mar sempre estarão com ela – seja lhe apertando o coração de saudade, seja lhe dando ânimo para buscar outros verões como aquele.

 

 

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