Uma história sobre todas e qualquer uma

Olhei-a atentamente. Observei cada cruzar de pernas, acompanhei cada mover dos lábios, como todos na coffee house o faziam. No entanto, eu não admirava sua perfeição, não invejava sua forma, nem idolatrava seus movimentos.

Minha terceira dose de espresso me ajudava a ler as linhas cansadas de seu rosto, escondidas sob 3 camadas de maquilagem. Me perguntei se o cansaço era em detrimento de sua rotina, sua história, ou das horas gastas (ou seriam investidas?) com cabelo, roupa e vaidade.

Provavelmente ambas.

Lamentei a sociedade que a doutrinou. Odiei os pais que a educaram. Ah, se eles soubessem as consequências de mandar sua filha fechar as pernas porque “é feio pruma menina usar o vestido assim”.

Feia!

Feia! Feia! – gritam a TV e as revistas.

Estamos sempre erradas, fora de moda, acima do peso. Me pergunto se queria ser bonita mesmo, pra início de conversa.

Suspirei pelo café que havia acabado. Quero ser livre do machismo normalizado que grampeia minhas asas e barra minha felicidade. Quero ir para a aula de cabelo molhado, trabalhar sem maquilagem e dançar na noite de all star. Quero saber os porquês, as repostas, ser imprevisível e descontrolada. Quero agir (ou não agir) por mim – não para a platéia masculina que espera de mim um comportamento de vitrina. Quero definir meu próprio valor.

Suspirei. Realmente não havia mais café em meu copo. Trágico, no mínimo. No entanto, sua água sem gás com limão orgânico permanecia intacta. Mas eu sabia de sua sede, compartilhava da sua fome, sentia seus pés cansados. Eu, mais que qualquer um do outro lado da vitrina, a entendia e podia quase tocar seus pensamentos – se eles não fossem vazios. Senti pena de nós duas enquanto sapatos de salto alto me serviam de trilha sonora.

Joguei o copo fora, junto com a idéia de que algo podia ser feito a respeito. Suspirei. Dessa vez, não pelo café, mas pela opressão apoiada pelas próprias mulheres que a usam para propositalmente afundar-se na vida fácil.

Que se foda. Não posso salvar quem se esconde atrás de expectativas injustas de gênero. Me resta pegar mais um café.

Texto por Janaina Bordignon

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Bloco do eu me importo
    mar 27, 2011 @ 16:53:18

    Jana,

    “Estamos sempre erradas, fora de moda, acima do peso. Me pergunto se queria ser bonita mesmo, pra início de conversa.”

    E eu me pergunto, pra início de conversa: o que seria ser bonita mesmo?

    Beijo, Ju

    Responder

  2. Bloco do eu me importo
    mar 28, 2011 @ 11:45:09

    Dispensando o relativismo, eu diria que no senso comum ser bonita é copiar a TV, assistindo quando acorda e antes de dormir como se fosse a bíblia. Tem coisa mais absurda que deixar uma caixa com fios determinar tua vida a tal ponto? ;/

    Beijo, Jana 🙂

    Responder

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