Eu penso renovar o homem usando borboletas

 

Texto de Juliana Schneider Guterres

 

Amigos, o texto tá “psi”, então para contextualizar quem chega aqui para a primeira mirada, esta é a conclusão do meu trabalho de conclusão (conclusão, conclusão. tão conclusivo, não?) de curso em Psicologia, entregue em novembro do ano passo. Explicado então todos os psis e clínicas citados no texto. Não me canso de ler.. E acho que ainda tenho muito que ler, escrever e pensar sobre o assunto. Mas ficam algumas linhas que concluem meus oito anos de formação e iniciam toda uma outra caminhada do agora em diante. Espero que vocês tenham o mesmo prazer que eu ao circular os olhos e afetos pelas seguintes linhas..

 

 

A maior riqueza do homem é a sua incompletude.

Nesse ponto sou abastado.

Palavras que me aceitam como sou – eu não

aceito.

Não agüento ser apenas um sujeito que abre

portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que

compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,

que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.

Perdoai.

Mas eu preciso ser Outros.

Eu penso renovar o homem usando borboletas[1].

 

Palavras que me aceitam como sou, eu não aceito. Eu preciso ser outros. É preciso ser outros. É preciso ser vários, múltiplos, plurais. É preciso não ser preciso, mas flutuante, cambiante. Habitar paradoxos. Caminhar nos descaminhos. Por isso e para isso acredito em uma clínica militante, combatente, participante. Clínica do empoderamento, da autonomia. Clínica que renova o homem usando borboletas. Criação. Criar ação. Clínica-vazão – de fluxos, de afetos, de gentes. Passagem para outros sentidos possíveis. Clínica que sabe, mas que também sente.

De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não, de certa maneira, e tanto quanto possível, o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar e refletir[2].

Formigar as configurações estabelecidas, as rotas formais. “Repetir repetir – até ficar diferente”[3]. Não podemos cessar de problematizar as relações que estão instituídas e dadas como certeiras. É necessário mudar o foco, alterar o ângulo, adotar perspectivas outras, “transver o mundo”[4]. “Fazer o inconexo aclara as loucuras. […] A sensatez me absurda”[5]. Faz parte da Psicologia, ou do que entendo dela, ser experimentação e aventura, processo incessante de deriva de si no jogo de forças da vida. Lutemos para intensificar o plano dos fluxos, rumo a uma existência de movência.

Clínica e crítica. Crítica e clínica. Produzir crise na homogeneização e abrir portas para novas formas de vir-a-ser. Linhas de fuga não para fugir do sistema estabelecido, mas para fazer fugir certos sistemas que estão fundados sob a invasão e colonização de nossos corpos e mentes.

O papel do intelectual não é mais o de se colocar “um pouco a frente ou um pouco de lado” para dizer a muda verdade de todos; é antes o de lutar contra as formas de poder exatamente onde ele é, ao mesmo tempo, o objeto e o instrumento: na ordem do saber, da “verdade”, da “consciência”, do discurso[6].

Parafraseando Foucault, o papel do psicólogo é o de lutar contra as formas de poder exatamente onde ele é, ao mesmo tempo, o objeto e o instrumento, na ordem do saber, da verdade, da consciência, nas trincheiras da clínica. Precisamos nos afastar do solo dogmático das verdades, da universalidade e da homogeneização e trabalhar no plano do novo, do único, do incerto, da multiplicidade. Nem à frente, nem ao lado, mas entre. No encontro. Abrindo (des) caminhos.

Sonho com o intelectual destruidor das evidências e das universalidades, aquele que observa, nas inércias e nos constrangimentos do presente, os pontos de fraqueza, as aberturas, as linhas de força, aquele que, sem cessar, se desloca, que não sabe exatamente aonde estará amanhã, pois é demasiado atento ao presente[7].

Psicólogos do presente, das inquietudes do viver. Resistam. Re-existam. Destruam evidências, componham novas cenas. Porque nos diz e faz pensar Michael Moore, em seu mais recente documentário[8], “eu me recuso a viver em um país como este. E eu não vou embora”. Então, mudemos! Arregacemos as mangas e coloquemos mentes, corpos e afetos em campo. É preciso ser outros. É preciso acreditar e investir na

possibilidade de (re) inventar continuamente uma clínico-política que […] possa ativar em nós o comum de uma atitude crítico-criadora de territórios existenciais singulares, os quais, conectados às forças produtivas, consigam permanecer escapando das medidas normalizantes impostas pelo capitalismo[9].

Como eu dizia no início deste trabalho de conclusão – mas também de experimentação, de invenção –, a proposta era criar dizeres que não apenas ditam, mas que se implicam ao dizer. Mais do que escrever linhas e mais linhas de texto acadêmico, ensaiava e ansiava por rabiscar linhas de fuga – para mim e para tantos outros. Pensar diferente do que pensava, perceber diferente do que percebia. Dou-me por satisfeita, pois creio que consegui dar conta, em alguma escala, de tal intento – mesmo sabendo que este é um trabalho que perdura por toda uma existência, sendo arquitetado e sustentado nas e para nossas práticas cotidianas. Mas saio diferente dessa passagem, sou outra, outros. E isso se reflete diretamente na clínica que venho construindo e nas relações que teço com as pessoas e coisas que me circundam e com as gentes a quem dirijo e com quem desenvolvo diariamente o meu fazer.

Termino sabendo que ficou muito por ser dito, mas sempre ficará. O que restou é mar, é tudo o que eu (por enquanto) não sei contar – salve a música e a poesia, que tanto me afetam nas minhas caminhadas. Não tenho mais a pretensiosa (e falsa) ilusão que tinha no início da faculdade, a de que daria conta da totalidade e completude do outro – até porque como nos lembra Manoel de Barros “a maior riqueza do homem é a sua incompletude”[10]. E “há tempos que eu já desisti, dos planos daquele assalto, de versos retos, corretos”[11]. Trabalho para que essa riqueza possa seguir viva dentro de cada um, trançando por caminhos incertos, tortos, para que os sujeitos possam navegar por seus próprios córregos e não para que sejam enxurrados por águas de fora que querem lhe afogar.

Acreditar no mundo é o que mais nos falta; nós perdemos completamente o mundo, nos desapossaram dele. Acreditar no mundo significa principalmente suscitar acontecimentos, mesmos pequenos, que escapem ao controle, ou engendrar novos espaços-tempos, mesmo de superfície ou de volume reduzido. […] É ao nível de cada tentativa que se avaliam a capacidade de resistência, ou, ao contrário, a submissão a um controle[12].

Investindo nos pequenos gestos e afetos, apostando no mundo e nas gentes, sigo. “Agora é só puxar o alarme do silêncio que eu saio por aí a desformar”[13].


[1] BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010. p. 374.

[2] FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 2: o uso dos prazeres. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque. Revisão técnica de José Augusto Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1984. p. 15.

[3] BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010. p. 300.

[4] Idem, p. 350.

[5] Idem, p. 339.

[6] FOUCAULT, Michel. Verdade e poder. In : FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979. p. 71.

[7] Idem, p. 38.

[8] CAPITALISMO: uma história de amor. Direção: Michael Moore. Documentário, 2009. 1 DVD (120 min.), son., color.

[9] MONTEIRO DE ABREU, Ana Mari do Rego; BOUÇAS COIMBRA, Cecília Maria. Quando a clínica se encontra com a política. In: KUPERMANN, Daniel; MACIEL JUNIOR, Auterives; TEDESCO, Silvia (org.). Polifonias: clínica, política e criação. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria / Mestrado em Psicologia da Universidade Federal Fluminense, 2005. p. 47

[10] BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010. p. 374.

[11] LISBOA, Nei. Telhados de Paris. Intérprete: Nei Lisboa. In: HEIN?! RJ: EMI-Odeon, 1988. 1 CD. Faixa 9.

[12] DELEUZE, Gilles. Conversações (1972-1990). Tradução de Peter Pal Pelbart. 2ª ed. São Paulo: Editora 34, 1992. p. 222.

[13] BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010. p. 350.

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